Os meninos da Tarpon cresceram

Depois de fechar acordo com o Alberta Investment Management Corporation, empresa reúne US$ 2,6 bilhões em ativos sob gestão

Cátia Luz e Melina Costa, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2010 | 00h00

Quando fundaram a Tarpon, em 2002, os sócios da gestora de recursos chamaram a atenção pela pouca idade. José Carlos Magalhães, principal nome do grupo, tinha apenas 24 anos. O suficiente para que o time ficasse conhecido no mercado como "os meninos da Tarpon". Oito anos depois da estreia, a expressão perdeu o sentido. Primeiro, é lógico, porque eles estão mais velhos. Depois, porque cresceram onde mais importa: nos negócios.

A empresa iniciou suas operações com US$ 1 milhão em ativos sob gestão e agora administra US$ 2,6 bilhões - tanto em ações de companhias abertas, como em participações em empresas fechadas, no modelo de private equity. Neste mês, o grupo anunciou a captação de US$ 416 milhões. Mais da metade, US$ 250 milhões, veio de uma parceria com o Alberta Investment Management Corporation (AIMCO), que faz a gestão de recursos de fundos de pensão, fundações e fundos soberanos da Província de Alberta, no Canadá.

O acordo foi feito no modelo de co-investimento, que traz duas vantagens principais, na perspectiva da Tarpon. A primeira é que o dinheiro fica à disposição da Tarpon. A outra vantagem é que a gestora ganhou mais poder de fogo na hora de investir, sem diluir seu portfólio. Como apenas parte do valor investido sai da Tarpon, a carteira do grupo fica preservada. Sob a justificativa da especialização, a gestora faz questão de se concentrar em poucos ativos, desprezando a máxima dos investimentos de que não se deve colocar todos os ovos na mesma cesta.

O episódio com os fundos de Alberta ajuda a entender o modelo de crescimento da gestora. A Tarpon procura investidores interessados em aplicações de longo prazo, como fundos soberanos, fundos de pensão e os fundos de universidades americanas. A gestora aposta em empresas que julga ter bons fundamentos, mas que enfrentam problemas circunstanciais. No caso do Pão de Açúcar deu certo. Em 2007, quando o fundo decidiu concentrar um quarto de seus recursos na empresa, a rede enfrentava uma crise e o preço das ações estava estagnado há cinco anos. Quando a Tarpon decidiu sair, no ano passado, a empresa já tinha passado por um choque de reestruturação e se tornado um dos poucos papéis a subir durante a crise. "Estamos na contramão do mercado", diz Eduardo Mufarej, sócio-diretor.

Hoje a maior parte do dinheiro da Tarpon, R$ 700 milhões, está na BR Foods. Pela lógica da Tarpon, como a integração da Sadia com a Perdigão ainda não foi aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o um investimento ainda gera incertezas. Há, porém, um cenário que justifica a expectativa de valorização: o mundo vai consumir cada vez mais proteína.

Outro pilar da Tarpon é procurar negócios em que o time da gestora não precise necessariamente promover processos de reestruturação. É um modelo oposto ao de um dos maiores fundos de participações do Brasil, o GP Investimentos.

Isso não significa, porém, que a Tarpon se mantenha alheia ao dia a dia das companhias em que investe, especialmente as encrencadas. O caso da Cremer, fabricante de produtos médico-hospitalares, é emblemático. No início de 2009, as ações da empresa estavam em queda e a gestão não tinha informações claras sobre o desempenho de suas linhas de produtos. Diante dos resultados fracos, o então presidente deixou a empresa e acabou sendo substituído por Alexandre Borges, ex-gerente de investimentos da própria Tarpon.

De modo geral, a estratégia da Tarpon tem se mostrado bem sucedida. Nos últimos doze meses, o conjunto de empresas abertas do portfólio valorizou 100,8%, contra 73,6% do Ibovespa. A gestora, porém, não acertou todas. Os executivos admitem que não repetiriam o modelo realizado na fabricante de etanol Brenco: uma companhia de capital fechado, em que a Tarpon tinha participação minoritária. "Nesse caso, não tínhamos liquidez, nem governança", afirma Mufarej.

Há ainda um investimento acompanhado com cautela pelo mercado: a BrasilAgro, empresa que compra fazendas, investe em melhorias e em plantações, e depois as vende. Desde que abriu o capital, em 2006, suas ações acumulam queda de 8% - o Ibovespa subiu, 73%, de acordo com a consultoria Economática. Além da fraca performance dos papéis, a empresa apresenta geração negativa de caixa.

No campo dos investimentos em private equity, a Tarpon ainda precisa passar por uma prova de fogo. "Apesar de terem feito boas aquisições e dois IPOs, os executivos da Tarpon não têm um ciclo completo de private equity ainda, porque é um fundo novo. Mas mostram uma história bem sucedida na captação de recursos", afirma Marcelo Aguiar, diretor do fundo PineBridge, atual nome da AIG Investiments.

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