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Os mercados emergentes estarão submergindo?

Desacelaração das economias emergentes faz soar o alerta de que algo pior pode vir a acontecer na economia global

KENNETH, ROGOFF, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2013 | 02h17

Com a redução significativa do ritmo do crescimento econômico em muitos dos principais países de renda média e com a queda considerável dos preços dos ativos em geral, será que o inevitável "eco da crise" nos mercados emergentes já está nos afetando? Depois de anos de importantes - e às vezes fortes - ganhos de produção desde a crise financeira de 2008, o efeito conjunto da desaceleração do crescimento a longo prazo na China e do fim potencial das políticas de dinheiro ultra fácil nos países avançados expõe fragilidades consideráveis.

O fato de choques relativamente moderados terem causado um trauma tão profundo nos mercados emergentes nos leva a pensar nos eventuais problemas que uma guinada mais dramática poderia desencadear. Os países emergentes terão a capacidade de reagir? E que medidas traria uma nova rodada de empréstimos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI)? Acaso a crise da zona do euro ensinou finalmente ao Fundo que o excesso de endividamento privado e público constitui impedimentos significativos para o crescimento, e que a entidade deveria enfatizar muito mais o cancelamento de parte da dívida e sua reestruturação do que fazia no passado? O mercado tem se mostrado particularmente brutal com os países que precisam financiar seus amplos déficits atuais da conta corrente, como Brasil, Índia, África do Sul e Indonésia. Felizmente, uma combinação de fatores como câmbio flexível, fortes reservas internacionais, melhores regimes monetários e o abandono de dívidas denominadas em moedas estrangeiras proporciona alguma proteção parcial.

Não obstante, anos de paralisia política e o adiamento de reformas estruturais criaram certa vulnerabilidade. Evidentemente, países como a Argentina e a Venezuela dependeram excessivamente dos preços favoráveis das commodities e de fáceis condições financeiras internacionais para gerar crescimento. Por outro lado, os bons tempos também ocultaram os pontos fracos em muitos outros países.

A desaceleração do crescimento é uma preocupação muito maior do que a recente volatilidade dos preços dos ativos, mesmo que esta última tenha merecido maior destaque. Os mercados de ações e de títulos no mundo em desenvolvimento continuam com relativamente pouca liquidez, mesmo depois da prolongada expansão. Portanto, alterações ainda que modestas da carteira podem levar a grandes oscilações dos preços.

Até recentemente, os investidores internacionais acreditavam que a expansão das suas carteiras nos mercados emergentes não exigia muita inteligência. O mundo em desenvolvimento crescia de maneira significativa, enquanto os países avançados praticamente estagnavam. As empresas começaram a se dar conta de uma classe média crescente que poderia sustentar não apenas a expansão econômica, mas também a estabilidade política. Até países que ocupavam os últimos lugares nos índices globais de corrupção - por exemplo, Rússia e Nigéria - se gabavam de um aumento considerável de uma classe média consumidora e da elevação de sua demanda.

Essa situação básica não mudou. Mas a redução dos diferenciais de crescimento tornou os mercados emergentes um pouco menos fáceis para os investidores, e isso naturalmente influi consideravelmente nos preços dos ativos destes países. Um passo rumo à normalização dos spreads - que o afrouxamento quantitativo tornou excessivamente baixos - não deveria causar pânico.

O recuo dos preços dos títulos ainda não prenuncia uma repetição da crise da dívida na América Latina dos anos 80 ou da crise financeira da Ásia no final dos anos 90. Na realidade, alguns mercados emergentes - por exemplo, a Colômbia - andaram emitindo títulos da dívida pública a spreads tão baixos, em relação aos títulos do Tesouro americano, que constituem recordes. Seus ministros das Finanças, embora eufóricos com a baixa recorde dos custos de seus empréstimos, devem ter compreendido que essa situação não deverá durar.

Sim, há amplos motivos de preocupação. Principalmente, é loucura pensar que a dívida em moeda local elimina a possibilidade de uma crise financeira. O fato de os países poderem recorrer a taxas inflacionárias de dois dígitos e procurarem salvar-se de uma crise da dívida imprimindo dinheiro não constitui uma garantia.

Crise. Se a desaceleração dos mercados emergentes se transformasse em algo pior, agora ou daqui a alguns anos, o mundo estaria preparado? Aqui, também, há sérios motivos de preocupação. O sistema bancário global continua fraco em geral, e particularmente na Europa. Há uma grande incerteza quanto à maneira como o Fundo enfrentará uma crise dos emergentes depois de sua experiência na Europa, onde foi obrigado a equilibrar uma série de medidas destinadas a promover a imprescindível mudança estrutural na zona do euro e as destinadas à salvaguarda da economia no curto prazo. Este é um tema para outro dia, mas a experiência europeia levantou difíceis questões quanto à possibilidade de o FMI ter uma padrão duplo para os países europeus.

Evidentemente, devemos esperar que a situação não chegue a este ponto. É improvável que os investidores internacionais renunciem aos mercados emergentes, pelo menos não quando suas perspectivas a longo prazo ainda parecem melhores do que as das economias avançadas.

Além disso, o atual sentimento da zona do euro depois que o pior passou parece excessivamente otimista. Houve apenas uma reforma estrutural muito modesta em países como Itália e França. Questões fundamentais, tais como de que maneira operar uma união bancária na Europa, continuam polêmicas. O enorme prêmio do risco da Espanha quase desapareceu, mas não seus problemas com a dívida. Ao mesmo tempo, do outro lado do Atlântico, a polarização política em Washington é angustiante, enquanto no horizonte desponta outro fiasco a respeito do teto da dívida.

A desaceleração dos mercados emergentes deveria ser um tiro de advertência de que algo pior poderá acontecer. Só devemos esperar que, se este dia chegar, o mundo esteja melhor preparado do que neste momento. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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