Os mercados emergentes perdem força

Países em desenvolvimento podem jamais chegar ao mesmo padrão das nações mais ricas

TYLER, COWEN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2013 | 02h02

Uma desaceleração do crescimentos dos Brics - grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul -, pode impedir a expansão da economia global. Na verdade, estamos observando tumultos no Brasil contra um padrão de vida que está estagnado.

Mas um problema mais greve está oculto por trás das manchetes: o crescimento meteórico, sustentado, das economias emergentes, pode não ser mais possível.

A verdade desconcertante é que a grande "era da industrialização" parece ter ficado para trás, possibilidade que tem sido esboçada pelo economista Dani Rodrik, que deixa a Universidade Harvard e vai para Princeton em julho. E as evidências que corroboram sua opinião partem de várias direções.

Em primeiro lugar, as máquinas poderão desempenhar mais e mais funções no setor de manufatura, e às vezes até no de serviços, o que tornará mais difícil competir tendo os baixos salários como diferencial.

Digamos que você administra uma empresa num país desenvolvido e automatizou muitos dos seus processos. Como a folha de pagamento total dos empregados diminuiu, por que não escolher a proximidade e a familiaridade de investir na mão de obra no seu país natal ou mais próximo dele? Esta mudança contribuiria para melhorar o cenário do emprego nos Estados Unidos e em países como o México, mas pode prejudicar muitos outros países onde os salários são baixos.

Hoje, as cadeias de suprimento estão espalhadas por muitos países. Imagine o antigo modelo de desenvolvimento como uma nação tipo Coreia do Sul tentando construir uma cadeia de suprimento doméstica quase completa para seu setor automobilístico e outros.

O modelo mais recente é mais distribuído, como verificamos pelo iPhone, com o rendimento dos investimentos se propagando para muitos locais, incluindo Filipinas, Taiwan e China. No caso da fabricação de veículos, a Tailândia atraiu com sucesso empresas automotivas, mas as peças normalmente vêm de fora do país e os benefícios para a economia tailandesa são limitados.

Cultura. Outra barreira é a dificuldade para sustentar uma visão cultural para se equiparar economicamente. A Coreia do Sul, que se juntou à fileira das nações economicamente desenvolvidas, era uma nação pobre nos anos 60 e sua ascensão econômica exigiu sacrifícios de milhões de pessoas, em horas trabalhadas, poupança e investimentos na educação.

Muitas das nações mais pobres, nos dias atuais, estão mais de 20 anos de distância na competição com as líderes globais, e o caminho mais longo e mais lento para o topo pode desencorajar alguns países até de tentar algum avanço.

Finalmente, muitos países de renda mais baixa devem envelhecer antes de ficarem ricos. A população da China, por exemplo, está num processo rápido de envelhecimento por causa da política de um filho imposta pelo governo e o declínio das taxas de nascimento que acompanha o aumento da renda.

Estes argumentos não indicam, absolutamente, que o padrão de vida de nações mais pobres deve ficar estagnado.

Um país pode melhorar muito pelo menos a vida de alguns dos seus cidadãos vendendo serviços, como podemos observar na relativa prosperidade de Bangalore, Índia, que, entre outras atividades, administra call centers e vende muitos serviços de programação online.

Muitas nações africanas vêm comercializando seus abundantes recursos e podem aumentar a produtividade da agricultura local. Basicamente, todas as nações pobres acabam se beneficiando das inovações ocorridas nos países ricos, que elas quase sempre recebem a preços muito mais baixos, como ocorre com celulares e medicamentos, por exemplo.

Sem progresso. Assim, as chances de progresso permanecem, mas as nações mais pobres poderão jamais se tornar desenvolvidas. Havia alguma coisa especial, no século XX, que se combinava empregos generalizados e bem remunerados na indústria, o que permitiu a ascensão de uma classe média que assumiria um papel importante de controle do governo, como eleitores e contribuintes. Esses empregos na indústria também criaram grandes incentivos para muitas pessoas prosseguirem a educação tradicional, seja em Toronto ou Tóquio.

A melhor hipótese é que a ideia da equiparação econômica mudou, o que significa que a política nos países em desenvolvimento pode mudar também. Da mesma maneira que a desigualdade em termos de renda e riqueza aumenta nos EUA, nações em crescimento estão num mundo mais estratificado e não conseguem resolver seus próprios problemas de desigualdade para garantir suas instituições políticas ou suas expectativas econômicas.

Na verdade o caminho futuro dos países em desenvolvimento será muito diferente das recentes histórias de sucesso e forte crescimento. O próximo grupo de vitoriosos dos mercados emergentes poderá abrigar amplos bolsões de pobreza. E, à medida que esvanece a expectativa de uma trajetória única, comum, para o desenvolvimento econômico, os governos precisarão repensar o que conseguirão realizar, e como.

De qualquer modo, devemos nos preparar para a possibilidade de que, embora Seul hoje lembre muito Los Angeles, talvez La Paz, Acra e Dacar jamais se parecerão com Seul. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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