Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

Os novos donos do capitalismo brasileiro

Número de empresas investidas por fundos passou de 323 para 570 de 2006 até hoje 

Cátia Luz, Fernando Scheller e Patrícia Cançado, de O Estado de S. Paulo,

27 de setembro de 2010 | 09h13

Hora do almoço na praça de alimentação do Shopping Villa Lobos, zona oeste de São Paulo. Você está na dúvida se come no Viena, no Burger King ou no Mc Donald"s. Depois do almoço, experimenta roupas na Ellus e na Le Lis Blanc. Em seguida, olha as vitrines da Arezzo. Passa na Livraria Cultura e deixa um par de sapatos para ser engraxado na Sapataria do Futuro. No final do passeio, vai à CVC para conferir pacotes de viagens para as férias.

Todas as redes visitadas nesse roteiro imaginário em apenas um shopping têm um traço comum: a presença de fundos de participação. Até o próprio shopping já foi alvo desse tipo de investimento, o private equity, em que os fundos captam recursos de grandes investidores, adquirem fatias de companhias consideradas promissoras para, anos depois, se tudo der certo, revendê-las por um preço maior.

Ampliando o foco para todo o Brasil, é difícil mapear os segmentos em que esses fundos não estejam. Indústrias, postos de gasolina, farmácias, prédios corporativos, laboratórios, lojas de produtos naturais, lavanderias, estacionamentos, empresas de planos de saúde, hospitais, churrascarias, universidades, hortifrútis... nada parece escapar do radar das gestoras.

De acordo com dados do Centro de Estudos em Private Equity (Cepe), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de 2006 para cá o número de gestoras praticamente dobrou e o total de companhias que receberam recursos desse tipo de fundo passou de 323 para 570.

"Essa indústria mudou de patamar nos últimos anos, quando a economia brasileira começou a dar os primeiros sinais de que poderia ter crescimento sustentável", afirma o professor Cláudio Furtado, diretor do Cepe. Em quatro anos, o valor captado para investimentos em empresas foi multiplicado por três, passando de US$ 13,3 bilhões para quase US$ 40 bilhões.

Aquecimento. O desembarque oficial do fundo americano Blackstone no Brasil - que nesta semana deve anunciar a compra de cerca de 50% do Pátria Investimentos - só reforça esse cenário. Um dos ícones do novo capitalismo mundial, o Blackstone estreia com apetite para compras bilionárias (leia matéria na página ao lado).

Na semana passada, durante um evento do setor, duas gestoras declararam que estão preparando novos fundos. A Gávea Investimentos, do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, espera arrecadar US$ 1 bilhão, principalmente com investidores estrangeiros. A americana Darby, uma das maiores gestoras do mundo, está captando R$ 400 milhões, em parceria com o banco francês BNP Paribas. São recursos que vão se somar aos da gestora americana Advent, que em abril divulgou a conclusão do maior fundo de participação já levantado na América Latina, de US$ 1,6 bilhão. No início do ano, a GP, que briga com a Advent pelo posto de maior fundo do gênero, também encerrou captação de US$ 1,050 bilhão.

O BTG Pactual, do banqueiro André Esteves, ajuda a engrossar as estatísticas. Nos últimos dezoito meses, a área de Merchant Banking do grupo fechou negócios, apenas com recursos próprios, com sete empresas - da administradora de estacionamentos Estapar à Rede D"Or, de hospitais. "O melhor momento foi logo após a crise. Quando todo mundo estava se retraindo, nós fizemos uma aposta e nos posicionamos muito bem", diz Carlos Fonseca, sócio do BTG Pactual responsável pelo Merchant Banking.

A expansão dos fundos na economia também está registrada nos processos de fusão e aquisição. Segundo a PricewaterhouseCoopers, a participação do private equity nos negócios praticamente quadruplicou desde 2006: passou de 11% para 42%. "É um movimento multissetorial. Percebe-se interesse em transações nos setores de TI, imobiliário, óleo e gás e de bens de consumo", diz o sócio da área de fusões e aquisições da PWC, Alexandre Pierantoni.

Sofisticação. Para Armínio Fraga, o aumento da musculatura dos fundos de participação é resultado direto da sofisticação da economia brasileira. "No momento em que se tem um mercado de capitais e, em particular, uma Bolsa vibrante, surge um espaço maior para o desenvolvimento dos fundos de private equity, porque eles ganham um canal importante para venda", diz Fraga, com a visão de quem também é o presidente do conselho da BM&FBovespa. Segundo o economista, um elo reforça o outro na cadeia de financiamento. "Um mercado de private equity denso, com capital e um número razoável de participantes, atrai negócios para um outro nível da cadeia, o de venture capital. Assim, todo o ecossistema fica mais fortalecido."

A criação do Novo Mercado foi o que deu a largada para a Bolsa brasileira. "As regras de governança proporcionaram maior segurança aos investidores e aumentaram o apetite estrangeiro pelos papéis das empresas brasileiras", diz Edemir Pinto, presidente da BM&FBovespa. A Bolsa brasileira está entre as três maiores do mundo, junto com a Bolsa de Hong Kong e o CME Group - que reúne Chicago Mercantile Exchange (CME), Chicago Board of Trade (CBOT), Nymex e Comex.

Estrangeiros. A combinação de regras mais claras, crescimento econômico acentuado e muitas oportunidades de compra despertaram também o interesse dos fundos estrangeiros. O Carlyle Group, um dos maiores do mundo, está entre os mais atuantes. Nos últimos 12 meses, o fundo americano investiu cerca de US$ 1,4 bilhão no mercado brasileiro, incluindo dívidas.

Desde o fim do ano passado, comprou o controle da operadora de turismo CVC, da corretora e gestora de saúde Qualicorp e do grupo Scalina, dono das marcas TriFil e Scala. Fernando Borges, diretor da gestora para a América do Sul, vê claros avanços nesse mercado.

"Há cinco ou dez anos, a única forma de ganhar dinheiro com private equity no Brasil era comprando barato e vendendo caro", diz Borges. "Com as atuais taxas de crescimento da economia, os fundos conseguem ter retorno expandindo a receita da empresa. Podem ganhar também fazendo melhorias operacionais, o que só se tornou possível com a aumento da qualidade dos gestores brasileiros nos últimos anos", explica. Borges reforça ainda que o modelo de dívida, que nunca funcionou no Brasil, começa a funcionar, com os bancos mais fortalecidos oferecendo empréstimo em moeda local.

O Carlyle faz parte da leva mais recente de grandes fundos estrangeiros que desembarcaram no País para ganhar terreno em um mercado ainda longe da maturidade. Apesar do avanço, a indústria de private equity brasileira representa apenas 2,2% do PIB. Na média mundial, esse porcentual é de 3,5%. De olho nesse espaço, gestoras estrangeiras como General Atlantic, Texas Pacific Group (TPG), Standard Bank e Apax vieram para o País nos últimos dois anos e lideraram operações importantes.

Fundos globais que chegaram a se instalar no Brasil nos anos 90 e desistiram do País, desanimados com a instabilidade da moeda e com o mercado de capitais incipiente, mudaram de ideia. Caso do Warburg Pincus, que voltou neste ano capitaneado pelo ex-executivo da Alcoa Alain Belda. Junto com a gestora Tarpon, anunciou na semana passada um investimento de R$ 350 milhões na Omega Energia, empresa de geração de energia renovável. "Não foram só os fundos que avançaram. Os empresários brasileiros aprenderam rápido e agora têm clareza sobre o que é o private equity", acredita Eduardo Mufarej, sócio da Tarpon.

A evolução do setor de private equity

ARMÍNIO FRAGA

SÓCIO DO GÁVEA INVESTIMENTOS

"Quando se tem uma Bolsa vibrante, surge um espaço maior para os fundos de private equity, porque eles ganham um canal importante para venda. Um elo da cadeia de financiamento acaba reforçando o outro."

PAULO SILVESTRI

DIRETOR DE PRIVATE EQUITY

DA RIO BRAVO INVESTIMENTOS

"É consenso que os fundos de private equity são um agente de formalização e de modernização da estrutura da economia."

FERNANDO BORGES

DIRETOR DO CARLYLE

GROUP PARA A AMÉRICA DO SUL

"Há cinco ou dez anos, a única forma de ganhar dinheiro com private equity no Brasil

era comprando barato e vendendo caro."

EDUARDO MUFAREJ

SÓCIO DA TARPON

"Não foram só os fundos que avançaram (nos últimos anos). Os empresários brasileiros aprenderam rápido e agora têm clareza sobre o que é o private equity."  

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