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Os novos rumos da Tecsis

Cheia de dívidas, mas também de perspectivas, a Tecsis recebe aporte de US$ 460 milhões de novos sócios

Patrícia Cançado, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2011 | 00h00

Tecsis fornece para empresas como GE, Siemens e Alstom (Foto: Epitacio Pessoa/AE)

 

Pilhas de equipamentos gigantescos que mais parecem asas de avião aguardam no pátio da Tecsis, no distrito industrial de Sorocaba, interior de São Paulo. Na verdade, as peças brancas com até 50 metros de comprimento e 9 toneladas são pás para turbinas eólicas, prontas para serem transportadas em comboios de caminhões até o porto de Santos - uma complexa operação que acontece quase todos os dias durante as madrugadas. Segunda maior fabricante de pás eólicas do mundo, a brasileira Tecsis deve produzir 4 mil unidades dessas peças neste ano e 6,5 mil em 2012. Pela primeira vez, parte delas ficará no País. Esse não é o único marco na história da companhia fundada pelo engenheiro aeronáutico Bento Koike e outros dois sócios 16 anos atrás.

Hoje, Koike fecha a venda de 80% da Tecsis para um consórcio de investidores liderado pela butique de fusões e aquisições Estáter, de Percio de Souza. A companhia receberá dos novos sócios um aporte de US$ 460 milhões, dinheiro que será usado para financiar o crescimento acelerado esperado para os próximos anos. "Antes de fechar o negócio, fomos procurados por quase todos os fundos estrangeiros. Antevendo essa expansão, precisávamos de uma capitalização", afirma Koike.

Quando o empresário bateu à porta da Estáter pela primeira vez, no ano passado, a Tecsis estava à beira de um colapso. Mas a situação era paradoxal. Koike, um sonhador confesso, sabia que tinha boas perspectivas pela frente, vindas principalmente do mercado brasileiro, mas precisava equacionar uma dívida de cerca de US$ 400 milhões (metade dela com perdas com derivativos) acumulada num período de vendas em queda livre. "Passamos por momentos dramáticos, mas eu sabia que ia dar certo", diz Koike.

Depois da quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008, boa parte das encomendas da Tecsis foi cancelada. Para se ter ideia do drama, Koike esperava faturar US$ 800 milhões em 2009 com base nos contratos já assinados, mas esse número caiu pela metade. Em 2010, a receita definhou, chegando a US$ 250 milhões. O número de funcionários despencou de 6 mil para 2,5 mil em dois anos.

Governança   No novo desenho, Koike e seus dois sócios terão 20% da empresa e continuarão no comando da gestão. Pércio de Souza, um intermediador de grandes negociações - conhecido por ser o banqueiro de Abílio Diniz e por ter costurado a consolidação do setor petroquímico -, assume um papel de protagonista na história. A Estáter indicará um diretor financeiro e será a única acionista com dois membros no conselho de administração que será criado - o próprio Pércio será o presidente desse conselho.

Os outros sócios são BNDESPar, Unipar (que vendeu a petroquímica Quattor para a Braskem no início do ano passado) e um fundo formado por bancos credores da Tecsis, que irão converter parte da dívida em ações. Todos terão partes iguais na companhia. Com exceção dos sócios fundadores e da Estáter, os outros acionistas poderão vender suas ações a partir de 2016, quando está prevista uma abertura de capital na bolsa de valores.

Pércio diz que não encara o investimento com a filosofia de um fundo de private equity - comprar para vender mais tarde com lucro. "É um lugar para gerar renda para os herdeiros, para trabalhar depois dos 75 anos", diz. "Além da questão financeira, tem um aspecto lúdico. Fazer fusão e aquisição é fisicamente desgastante." Pércio construiu sua reputação sob a imagem de um homem extremamente pragmático, que fala de cifras e complexas estruturas financeiras. Na semana passada, estava visivelmente eufórico com seu novo "brinquedo" que gira com a força do vento. A Estáter já tinha outros dois investimentos - uma corretora de seguros e uma construtora -, mas a Tecsis é, de longe, o maior e o mais empolgante.

O setor de energia eólica é hoje um dos mais atraentes da economia, com previsão de crescimento em todos os continentes. Na Europa, o mercado deve sair de uma capacidade atual de 9,9 gigawatts para 14 gigawatts em 2015, segundo estudo do Global Wind Energy Council. Na Ásia, puxada pela China, saltará dos atuais 21,5 gigawatts para 28 gigawatts no mesmo período. Graças à política de incentivos do governo Obama, o mercado vai dobrar na América do Norte.

Potencial   O Brasil, com grande atraso, também começa a se destacar. "A política energética brasileira passa a priorizar a energia eólica. O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE, do Ministério de Minas e Energia) já afirmou que haverá leilão todo ano, o que é um bom sinal para a indústria", diz Nivalde de Castro, coordenador do grupo de estudos do setor elétrico da UFRJ. O governo promoveu dois leilões desde 2009. O Brasil tem um dos melhores perfis de vento do mundo. Seu potencial eólico é de 300 gigawatts. É quase o triplo da capacidade instalada no País, considerando todas as fontes de energia.

Criada em 1995, quando os primeiros parques geradores estavam sendo erguidos na Europa, a Tecsis tem condições de tirar vantagens desse cenário. Ela fornece 80% das pás usadas nas turbinas da GE. De dois anos para cá, começou a fabricar peças para outros dois pesos pesados do setor: a alemã Siemens e a francesa Alstom. Das fábricas de Sorocaba já saíram mais de 30 mil pás, capazes de gerar energia equivalente à da usina hidrelétrica de Itaipu. Ao contrário da líder mundial do setor, a dinamarquesa LM, a Tecsis só faz pás sob medida para o cliente.

A fabricação é cercada de sigilo. Na linha de montagem, praticamente toda artesanal, é proibido fotografar. Os funcionários de alto escalão têm de obedecer a uma quarentena de dois anos caso queiram trabalhar para um concorrente. O maior segredo está no processo em si - em quantas camadas de tecido de fibra de vidro são aplicadas, nos materiais usados, na aerodinâmica e por aí vai. São cenas que lembram a construção da Arca de Noé do nosso imaginário, por causa do tamanho dos equipamentos e da quantidade de gente envolvida no trabalho.

Quando prontas, as pás viram verdadeiros objetos de design. Vindo da área de semicondutores da Philips, na Holanda, o paulista Fernando Pretel, diretor de planejamento da Tecsis há quatro anos, se diz um apaixonado pelas curvas das pás. "São muito plásticas." Entusiasta da energia verde, gosta de repetir um ideia de Koike segundo a qual trabalhar na Tecsis não é um emprego, mas uma causa. "Aqui ainda tem tanto por fazer que eu posso deixar um pouquinho do que eu sou, o meu DNA." Mal nasceu, a companhia agora vai recomeçar.

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