Os pinotes do petróleo

Quem aprecia os pinotes de barriga e de traseira que as bestas exibem nos rodeios deve ter se impressionado com o que aconteceu ontem no mercado global do petróleo. Os preços saltaram logo no início do dia, foram valentes corcovadas que ultrapassaram os US$ 42 por barril em Nova York - alta de 11,9%, uma enormidade para um único dia. Mas, depois, voltaram a despencar para os US$ 37,50. No entanto, quando tudo parecia ficar por aí, fecharam o dia pouco acima dos US$ 40, com alta de 6,2%. Essas convulsões têm alguma coisa a dizer a quem se interessa por economia e assuntos afins. Nos últimos cinco meses, as cotações do petróleo haviam despencado 75%. Foi a ação devastadora da crise que, com golpes de variada importância, atingiu não só o petróleo, mas praticamente todas commodities. (Veja o gráfico.) Quem é do setor do petróleo está sendo obrigado a operar com estoques quase zerados. Isso vai sendo determinado por duas principais razões. Primeira, porque a crise derrubou o consumo, os preços derreteram, como ficou dito, e trabalhar com estoques elevados, quando a tendência dos preços é de baixa, equivale a perder dinheiro. É ter de comprar mais caro hoje para revender mais barato amanhã. A segunda razão pela qual os estoques globais estão zerados ou perto disso é o bloqueio global do crédito. Estoque exige financiamento e, com financiamento estancado, não há como financiá-lo ou fica caro demais. Estoques muito baixos numa terra em transe econômico provocam fenômenos como o visto ontem. A primeira reação dos agentes do petróleo, que estão com estoques baixos, foi de quase pânico porque a violência dos ataques na Faixa de Gaza poderia provocar dois problemas: destruição de instalações (poços, oleodutos, reservatórios e refinarias) e brusca interrupção no fornecimento a título de revide por parte de alguns importantes fornecedores árabes. Além disso, reforçaram-se os rumores de que a China já começou a aproveitar os preços mais baixos para fazer provisões físicas de petróleo. A estocada de ontem também demonstrou que o mundo vive hoje um vácuo de poder no país mais importante do mundo, o que deixa soltas algumas das bruxas mais raivosas. Depois, os preços recuaram porque, agora se vê, tanto pânico talvez não se justifique. Quase tudo isso é muito subjetivo. Alguma coisa do que foi dito acima não vale apenas para o mercado do petróleo. Vale para a maioria das commodities, especialmente alimentos. No mundo inteiro os negócios estão sendo administrados de maneira a manter os estoques o mais baixo possível. Qualquer traço fora das projeções pode provocar solavancos. Curiosamente, ninguém mais gasta argumento acusando os dirigentes políticos ou os produtores de desviarem terras antes destinadas à produção de alimentos ou de desviarem matéria-prima (milho) para a produção de biocombustíveis (especialmente álcool). Os preços dos alimentos caíram 29% de junho até agora, ninguém está se queixando de falta de alimentos e, no entanto, os biocombustíveis continuam sendo produzidos como antes. Confira Bom sinal - A queda da inflação medida pelo IGP-M traz duas boas notícias: a de que a alta do dólar está sendo neutralizada pela baixa das commodities e a de que o custo de vida (IPCA) pode apontar inflação mais baixa nesta virada de ano.

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

29 Dezembro 2008 | 00h00

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