Washington Post photo by Jabin Botsford
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Os riscos de uma guerra comercial ampliada

Impacto das tarifas em cada indústria dependerá da microeconomia de seus produtos

Neil Irwin, Alexandra Stevenson e Claire Ballentine, The New York Times

28 Junho 2018 | 04h00

Para as fábricas da Malásia que produzem diodos emissores de luz (LEDs) é uma oportunidade. Para as indústrias americanas que fabricam barcos com motores de popa, uma ameaça. Para os grandes fabricantes de TVs de tela plana, pode ser apenas um incômodo. 

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A emergente guerra comercial entre Estados Unidos e China faz surgirem previsões de uma severa ruptura econômica e geopolítica. O impacto das tarifas em cada indústria dependerá da microeconomia de seus produtos: como uma alta de preços influirá na demanda? Há substitutos disponíveis? Qual a capacidade de produção extra do mundo, e quanto tempo levaria para construir e pôr em operação novas fábricas? 

“Isso vai se desdobrar de modo diferente para cada produto e cada cadeia de suprimento”, disse Daniel Rosen, sócio da empresa de pesquisas econômicas Rhodium Group. “Ninguém pode dizer que sabe qual será o impacto. É mais fácil prever o tempo para uma tarde de terça-feira daqui a um ano.”

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Os Estados Unidos impuseram sua primeira onda de tarifas na primavera, e cada um dos 1.102 itens relacionados levará a uma lista de ganhadores e perdedores. Na tentativa de visualizar como a situação vai evoluir, vale examinar os diferentes parceiros comerciais envolvidos com esses produtos, além de algumas dos milhares de cartas de comentários que essas empresas e grupos industriais enviaram à agência responsável pela política comercial dos EUA (U. S. Trade Representative). Executivos e outros especialistas têm a própria ideia de como exatamente as cadeias de suprimento podem ser redirecionadas e de como os preços de determinadas mercadorias podem oscilar.

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Uma advertência que desponta é: seja cético quanto às previsões de quebra de grandes indústrias no curto prazo. Até agora, as empresas têm opções para evitar os riscos mais ameaçadores. Entretanto, quanto mais a disputa durar, mais produtos serão arrastados para ela. E quanto mais os EUA se estranharem não apenas com uma potência econômica, mas com o mundo todo, mais haverá motivo para preocupação. As alternativas que as empresas vêm adotando até agora perderão força numa guerra comercial indefinida e sem prazo para acabar. 

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Um vazio no campo LED poderá ser preenchido por outros países. A China é a segunda maior economia do mundo e grande fornecedora de muitos dos produtos que ocupam as prateleiras das lojas dos EUA. Mas a primeira rodada de tarifas do governo Trump está voltada para bens que muitos outros países podem suprir. 

Metade desses itens provém de menos de 10% de importações da China, segundo uma nova análise do Paterson Institute for International Economics. Como alguns produtos chineses têm mais peso, numa média ponderada a China responde por 23% do mercado. 

Consideremos os diodos emissores de luz, a partícula que dá luz às lâmpadas LED e é usada em vários produtos industriais. Os EUA importaram US$ 637 milhões em LEDs da China no ano passado, mais que qualquer outro país. Mas a China não é o único fornecedor. Japão e Malásia exportaram outros US$ 593 milhões para os EUA. 

Assim, para empresas americanas que importam diodos e os incorporam a seus produtos, como lâmpadas de iluminação de rua que usam energia solar, a China não é a única opção. A questão é se outros países não sujeitos à tarifa de 25% podem atender ao potencial aumento da demanda. 

Na Malásia, a indústria de LED vê o eventual aumento da demanda como oportunidade. “Eu diria que a guerra comercial vai nos beneficiar se de fato ela prosseguir na direção das tarifas”, disse Daniel Fong, gerente regional da Overseas Lihtning and Electric, localizada a 40 minutos de Kuala Lumpur. 

Para fabricantes de barcos com motor de popa, a perspectiva é mais sombria. A Ray Electric Outboards, de Cape Coral, Flórida, importa da China os motores elétricos que propulsionam barcos pequenos. “Se já pensamos em usar outros motores?”, pergunta Joy Hurley, gerente comercial da Ray Electric. “Já, mas não há disponibilidade imediata e nenhum dos motores existentes nos EUA se adapta a nossos barcos. Os barcos da Ray são feitos para usar motores dos atuais fornecedores. Modificá-los custaria muitos milhares de dólares.” 

Esse é um dos riscos da estratégia do governo Trump de fazer a guerra comercial em múltiplas frentes. Quando apenas um país é submetido a tarifas punitivas – mesmo um país grande como a China –, empresas podem sempre encontrar meios de reduzir os danos para si e para os consumidores. 

Mas se os EUA elevam simultaneamente as tarifas para grande parte do mundo, os estrategistas corporativos ficam com menos margem de manobra. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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