Os riscos que vêm com os capitais especulativos

Em apenas um ano, entraram no Brasil US$ 28 bilhões em recursos especulativos, segundo reportagem do Estado (7/9). É o resultado da política cambial, que estimula as operações de carry trade, pelas quais aplicadores tomam dinheiro a custos baixos no exterior e os aplicam a juros altos no País, ganhando a diferença. São operações de elevado risco tanto para quem aplica como para os países que recebem os recursos, como o Brasil.

O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2014 | 02h04

Além do juro alto, há um segundo requisito para que tais operações sejam bem sucedidas, do ponto de vista dos aplicadores: a estabilidade cambial. O dólar flutuou pouco neste ano. Até 8 de setembro, a desvalorização do dólar havia sido de apenas 2,5%. Mas, como houve desvalorização, o aplicador em títulos brasileiros ganhou duas vezes: com o juro e com o câmbio. E continuará a ganhar, enquanto o governo insistir em usar o câmbio para conter as pressões sobre a inflação.

Entre março de 2012 e junho de 2013, o governo tentou afastar o capital especulativo, tributando com IOF de 6% as aplicações financeiras no País com prazo de até 5 anos. Até que mudou essa política, eliminando o IOF, quando ficou claro que os Estados Unidos apertariam a política monetária. Pareceu mais importante atrair dólares para financiar o déficit da conta corrente do balanço de pagamentos, que passou de US$ 52,4 bilhões em 2012 para US$ 81,4 bilhões em 2013, mantendo-se nesse patamar neste ano.

Os riscos e os custos da atração de capitais especulativos são vistos como crescentes. A política cambial fixou, na prática, uma faixa de variação da cotação do dólar, entre R$ 2,20 e R$ 2,35, estimou o ex-presidente do Banco Central Affonso Pastore, em entrevista ao Estado. A flutuação baixa oferece, de fato, previsibilidade aos aplicadores. Mas, para evitar a volatilidade, o governo oferece mais de US$ 90 bilhões em proteção aos detentores de dólares via swaps cambiais. É quase 1/4 do valor das reservas internacionais.

O investimento externo em produção equivale hoje a apenas 40% do investimento estrangeiro direto (IDE), calcula Pastore. Ou seja, o País depende mais de dinheiro volátil e há uma piora da qualidade do financiamento da conta corrente.

Elevam-se, assim, os riscos de um ajuste cambial mais forte, no futuro, quando o câmbio já não puder ser usado para controlar a inflação e quando se constatar que o desafio maior do Brasil é exportar mais.

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