Andrew Burton|NYT
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Os robôs que aplicam dinheiro funcionam?

Esses robôs não são como aqueles que vemos nos filmes, mas são capazes de fornecer conselhos de investimentos normalmente dados por humanos e cobram bem menos por isso

Tara Siegel Bernard, The New York Times

11 de maio de 2016 | 15h55

Os chamados robôs-consultores têm sido muito elogiados pela abordagem fácil e barata. Eles montam carteiras de investimento depois que os clientes respondem a uma série de questões on-line. Os serviços automatizados, que incluem startups como Betterment e Wealthfront, e empresas já estabelecidas como a Schwab, rapidamente acumularam US$53 bilhões em apenas alguns anos, de acordo com estimativas do Aite Group. No entanto, nos últimos meses, os críticos começaram a questionar suas limitações.

Espera-se que o fluxo de fundos para contas com robôs-consultores acelere por causa das novas leis federais que exigem que todos os profissionais financeiros coloquem os interesses dos clientes em primeiro lugar, pelo menos quando estiverem fornecendo conselhos sobre suas contas de aposentadoria que possuem vantagens fiscais. Espera-se que as regras, emitidas pelo Ministério do Trabalho, empurrem os clientes para investimentos mais baratos. A Aite prevê que os robôs-consultores devem amealhar cerca de US$285 bilhões até 2017, o que ainda é uma pequena parcela dos US$20 trilhões em ativos dos investidores de varejo em corretoras e empresas de consultoria de investimentos registradas.

Os robôs-consultores já precisavam seguir os mais altos padrões de proteção ao cliente - para todo dinheiro que administram, não apenas o de aposentadorias - porque a maioria deles está registrada como conselheiro de investimento. Isso significa que são obrigados a agir como fiduciários, o termo legal que quer dizer que devem colocar os clientes à frente de tudo. E essa é uma bandeira que os robôs-conselheiros ostentam com orgulho.

Por causa de seu status, o Ministério do Trabalho, que supervisiona as contas de aposentadoria, essencialmente deu sua bênção aos robôs-conselheiros, já que muitas empresas evitam o conflito de interesses que está incorporado à maneira como a indústria de corretagem e seus exércitos de representantes conduzem seus negócios.

Ao mesmo tempo, porém, outros reguladores demonstraram preocupação se os robôs-consultores se aprofundam o suficiente na coleta de informações a respeito dos investidores. Um robô não pergunta sobre o dinheiro mantido fora de seu serviço, por exemplo, o que pode dar uma imagem distorcida da situação financeira do cliente. Outros argumentam que os robôs tentam fugir de parte da responsabilidade nos contratos com os clientes.

Recentemente, a Massachusetts Securities Division fez um aviso aos investidores e aos conselheiros de investimento registrados pelo estado que ela supervisiona - ou aqueles com menos de US$100 milhões em ativos. Em um documento lançado em abril, declarou sem rodeios que não acreditava que um algoritmo sozinho fosse capaz de servir como fiduciário, pelo menos não da maneira como os robôs-consultores são estruturados hoje.

"Não tenho certeza se muitos investidores, em vários casos, possam ser adequadamente aconselhados apenas respondendo a questões", afirma William F. Galvin, secretário da comunidade, que comparou os serviços a carros sem motorista. "Você precisa de um humano tomando conta deles."

Muitos serviços de robôs-consultores dizem que deixam seus limites claros, afirmando que não estão no negócio de oferecer planejamento financeiro em grande escala. Mas frequentemente esse tipo de informação se esconde nas entrelinhas dos contratos.

Ser um "fiduciário não tem a ver com os tipos de serviços que você oferece, mas com a qualidade desses serviços", afirma Adam Nash, executivo chefe do Wealthfront, um robô-conselheiro que gerencia mais de US$3 bilhões. "Existem planejadores de finanças ajudando as pessoas a descobrirem que tipo de casa deveriam comprar. Mas não é necessário que todo mundo use seus serviços."

O legislador de Massachusetts e outros críticos desses serviços argumentam que os robôs-conselheiros deveriam ir mais longe, avaliando ativos que estão em outros lugares antes de investir o dinheiro dos clientes. (A Wealthfront e a Betterment já possuem tecnologia que permite que os clientes conectem quantas contas quiserem com seus serviços, dando às empresas uma visão panorâmica de seus ativos. Mas, por enquanto, não levam isso em conta em sua análise de investimento.)

Então, qual a profundidade que os robôs-consultores precisam ter? A lei e os precedentes legais que regem os consultores de investimento e que moldaram o dever fiduciário, não dizem com clareza. Mas vários especialistas legais parecem concordar que não há problema em aconselhar sobre uma parcela da vida financeira do investidor.

"Não é incomum que os clientes retenham expressa ou secretamente informações de seus conselheiros sobre outros ativos", conta Mercer E. Bullard, professor da Escola de Direito da Universidade do Mississippi. "Por exemplo, se uma pessoa de 35 anos afirma: 'Não vou dizer a você que outros ativos tenho e quero investir US$100 mil para minha aposentadoria', você pode fazer isso deixando claro que a aplicação poderia ser diferente se você conhecesse todos os ativos."

Kara M. Stein, da Comissão de Valores Mobiliários, explicou recentemente que a ideia de um robô que dê conselhos certamente bate de frente com a visão tradicional de um fiduciário, baseada no relacionamento humano. "Deveríamos estar perguntando se esses novos robôs podem se encaixar perfeitamente dentro das leis existentes", avisou ela em um discurso em novembro. "Ou precisamos de acertos e revisões?"

Mary Jo White, presidente da comissão de valores mobiliário do país (SEC, na sigla em inglês), disse em uma palestra que, como parte do esforço da comissão para monitorar modelos emergentes de investimento automatizado, os membros da equipe de seu programa de avaliações estavam checando os robôs. "Por meio dessas inspeções, aprofundamos nosso conhecimento da gama de serviços fornecidos, assim como os desafios associados a diferentes modelos automatizados."

No ano passado, a SEC e a Autoridade Reguladora da Indústria Financeira (FINRA, na sigla em inglês), emitiram em conjunto um alerta sobre os serviços automatizados para investidores que destaca seus riscos e limitações. Por exemplo, esses serviços podem sugerir uma mistura de investimentos, mas podem não perceber que o investidor precisará de parte do dinheiro em alguns anos para comprar uma casa nova, dizem os reguladores.

Há também uma raça híbrida de robôs-consultores com humanos que dependem fortemente de carteiras montadas pelos computadores. Esses incluem o Personal Capital e o Vanguard Personal Advisor Services. A FINRA divulgou um relatório em março que fornece orientações para investidores e consultores que usam esses serviços automatizados. O documento sugere que os investidores devem avaliar se a empresa está reunindo informações suficientes para entender suas necessidades e capacidade de correr riscos. 

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