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Louise Barsi: O Jeito Waze de investir - está na hora de recalcular a sua rota

Os rostos brasileiros da crise japonesa

A economia japonesa comporta-se às vezes de maneira extremada. Foi irritantemente lenta na recuperação da paralisia que a acometeu na década de 1990 e quando parecia, enfim, recompor-se para acompanhar não o ritmo acelerado das demais economias asiáticas, mas pelo menos o das economias dos países industrializados, foi atingida pela crise. Então, revelou-se muito mais vulnerável do que o resto do mundo. Lenta na ascensão, está sendo rápida demais na queda.Os números são mais espantosos do que o estranho comportamento do ministro das Finanças japonês, Shoichi Nakagawa, na entrevista que deveria conceder sábado, em Roma, durante o encontro de ministros do G-7 (as sete maiores economias do mundo), e que provocou sua demissão. Nos últimos três meses de 2008, a economia japonesa encolheu 12,4% na comparação com o último trimestre de 2007. É o pior resultado desde 1974, quando o Japão e o mundo foram atingidos pelo primeiro choque de petróleo e o PIB japonês encolheu 13,1%. É uma queda muito maior do que a registrada nos EUA, cuja economia encolheu 3,8%, e nos países da zona do euro, cujo PIB acumulado diminuiu 1,2%.Ruim para todos, a crise está sendo pior para os japoneses e para os estrangeiros que trabalham ou trabalhavam no Japão. As empresas, prevendo o aprofundamento da crise, fazem o ajuste que consideram necessário. A Toyota, a maior montadora de veículos do mundo, anunciou a redução de 54% da produção no primeiro trimestre de 2009. Isso terá impacto sobre seu pessoal. Grandes empresas já anunciaram demissões em massa, aos milhares ou às dezenas de milhares. A Pioneer cortará 10 mil empregos no mundo, a Sony demitirá 8 mil, a Nissan e a NEC vão demitir 20 mil pessoas cada uma.Num país que o resto do mundo se acostumou a ver como símbolo da opulência e da tranquilidade social, mesmo durante a longa estagnação da década passada, surgem sinais surpreendentes. O desemprego e o empobrecimento de parte de sua população já são visíveis nas ruas. Famílias cujos chefes perderam o emprego passam o dia sob pontes e viadutos de cidades onde se instalaram empresas fornecedoras das grandes montadoras. Esperam ali pela sopa que generosas instituições assistenciais privadas lhes virão servir pelo menos uma vez por dia. Vivem assim.A crise tem rostos, e os rostos nos chocam. Mais chocante para nós é constatar, no noticiário da televisão, que na maioria dessas famílias seus membros falam português. São brasileiros que para lá viajaram em busca de trabalho. São os dekasseguis. Até recentemente, eles tinham emprego, habitação e renda que lhes garantia o sustento e lhes permitia até formar alguma poupança. A crise atingiu duramente uma parte deles. Quando há corte de pessoal numa empresa japonesa, os estrangeiros são os primeiros a serem atingidos, diz-se na comunidade de dekasseguis.Quando são demitidos, os dekasseguis geralmente perdem o direito ao alojamento, vinculado ao emprego. Sem emprego e sem referências, têm dificuldades para alugar novo imóvel para morar. A necessidade agrava-lhes o problema do precário domínio do idioma japonês. Muitos não formaram poupança suficiente para pagar à vista a passagem de volta para o Brasil para si e para seus familiares. Outros, mesmo podendo pagar, não encontram vagas nos voos de volta. Precisam esperar pelo menos dois meses, pois a crise está empurrando muitos dekasseguis de volta para o Brasil.Já houve diversas manifestações de rua para chamar a atenção das autoridades japonesas a esse problema. Até mesmo o brasileiro naturalizado japonês Ruy Ramos, que defendeu a seleção japonesa de futebol e se tornou um ídolo no país, tem participado desses atos, como registrou há dias o jornal francês Le Monde.Há pouco, o governo japonês, por meio do Gabinete de Política de Promoção do Estrangeiro Residente, anunciou um programa de cinco pontos para apoiar o trabalhador estrangeiro desempregado. Esses pontos referem-se a trabalho, educação, moradia, apoio ao retorno ao país de origem e informação. Sua implementação, porém, depende das empresas, cuja preocupação é outra: a crise. Por isso, para quem vive sob pontes e viadutos, parece pouco. * Jorge J. Okubaro, jornalista, é autor de O Súdito (Banzai, Massateru!) (Editora Terceiro Nome) e coautor de Desvirando a Página - A Vida de Olavo Setubal (Global Editora). E-mail: jorge.okubaro@grupoestado.com.brO colunista Celso Ming está em férias.

Jorge J. Okubaro, O Estadao de S.Paulo

19 de fevereiro de 2009 | 00h00

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