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Os sacolejos da economia lá fora

Nesta semana, o mercado internacional mergulhou no pessimismo e isso exigirá dinamismo do novo governo

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2018 | 20h30

A maioria dos cenários pintados pelos observadores para o novo governo Bolsonaro fala das nossas mazelas fiscais, da enorme carga fiscal, do desemprego, da péssima infraestrutura e, também, do potencial de arranque da economia a ser proporcionado pelos setores do petróleo e do agronegócio. Mas não leva em conta ou passa por cima das questões externas, que podem mudar tudo.

Nesta semana, o mercado internacional mergulhou no pessimismo. Os investidores fugiram do risco e se entocaram, o dólar se valorizou, os juros subiram, os preços das commodities, especialmente os das metálicas e do petróleo, deslizaram e as bolsas do mundo inteiro sofreram baixas fortes.

Embora a principal economia do mundo ostente boas estatísticas macroeconômicas (avanço do PIB para este ano de 2,9%, inflação de 2,5% e desemprego de apenas 3,7%), prevalecem prognósticos mais cautelosos a respeito do comportamento do setor produtivo mundial, como os que foram anunciados nesta quarta-feira pela OCDE, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (gráfico abaixo).

Os mais pessimistas vinham advertindo para um quadro provável de recessão e, alguns deles, para uma crise parecida com a de 2008. Os demais, inclusive a OCDE, apostam em que tudo não passará de alguma desaceleração, a começar pela do crescimento do PIB e do emprego.

Além de apontar para um avanço do PIB mais baixo nos Estados Unidos, na Europa e na China, recente documento do Fundo Monetário Internacional avisou que, na perseguição de lucros elevados, instituições financeiras importantes voltaram a praticar negócios arriscados demais. E esse aviso remeteu ao que aconteceu logo antes da grande crise de 2008, que derrubou os mercados e afundou o Lehman Brothers.

Afora isso, há novo clima de beligerância comercial entre Estados Unidos e China, o risco de turbulências a serem provocadas por um Brexit sem acordo e avaliações recorrentes dos analistas de que as grandes empresas dos Estados Unidos não serão mais beneficiadas com os lucros generosos dos trimestres anteriores. Segue-se que suas ações negociadas em bolsa podem estar caras demais e daí, a baixa.

No mais, muitos analistas advertem para o risco de aumento da inflação mundial. E o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) já passou o recado que se prepara para recolocar volumes importantes de títulos nos mercados, operação que produzirá novas retiradas de dólares, com aumento consequente dos juros.

O novo governo do Brasil está acenando com a nomeação de uma equipe econômica qualificada. Esta é uma condição importante para um bom desempenho, mas não é suficiente. Para que a economia brasileira volte a engrenar, será necessário sucesso mínimo na condução das reformas e no ataque ao rombo fiscal. Sem isso, não haverá recuperação da confiança e, sem confiança, o investimento será vacilante.

Mas isso não é tudo. Se ajustes globais mais duros, como os apontados pelos mais pessimistas acontecerem, dois impactos sobre a economia brasileira podem sobrevir. O primeiro será uma certa alta do dólar no câmbio interno e redução de receitas com exportação de commodities. O segundo, de inevitável retração de investidores internacionais e, com ela, de algum recuo para a retranca dos investidores locais, com impacto sobre a evolução do PIB.

O que resultará dessas variáveis de sinais nem sempre convergentes é de mensuração antecipada difícil. De todo modo, o impacto de uma eventual crise externa sobre a economia brasileira será tão mais confortavelmente suportado quanto maior for a solidez dos fundamentos, especialmente na área fiscal, que a nova administração conseguir garantir.

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