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Os tropeços da indústria

Quem se deteve sobre os números do setor em abril deve ter se impressionado ou com o desempenho fraco nestes quatro meses do ano ou com tropeços mais sérios de algumas áreas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2019 | 21h00

Qualquer um está sujeito a tropeços ao longo de um caminho. Um jeito é olhar para eles como causados por fatores logo ali: o buraco não identificado a tempo, a pedra no meio da rua ou, então, a trombada com um piloto descuidado de patinete elétrica. Outro jeito é olhar para as causas encobertas, como a postura errada, a idade chegando, certa tendência ao desequilíbrio ou, então, a pura e simples desatenção.

Com os tropeços da indústria nacional é a mesma coisa. Quem se deteve sobre os números do setor em abril, divulgados na terça-feira, deve ter se impressionado ou com o desempenho fraco nestes quatro meses do ano ou com tropeços mais sérios de algumas áreas.

Foi a tragédia de Brumadinho, que levou à suspensão das minas de ferro em Minas Gerais; foi o desemprego e a queda de renda que estreitaram o consumo interno; foram as incertezas semeadas com o emperramento das reformas; foi a recaída recessiva dos argentinos, que derrubou em 43,8% as exportações brasileiras para eles em abril; ou, então, é o clima de guerra comercial produzido pelo governo Trump.

Mas esses são buracos e pedras no caminho que serão removidos ou não estarão mais lá dois ou três passos adiante. O problema é o desequilíbrio estrutural do organismo, sempre sujeito a fubecadas fatais, seja qual for o imprevisto que aparecer pela frente.

Em alguns aspectos, a vulnerabilidade da indústria brasileira não é muito diferente da existente em todo o Ocidente, que enfrenta implacável concorrência do setor produtivo asiático, graças aos custos muito mais baixos, especialmente no quesito mão de obra e no que vem junto com ele, como contribuições previdenciárias e outros encargos sociais. Se a indústria do Primeiro Mundo não está aguentando o tranco, é natural que países emergentes, como o Brasil, passem por algo parecido.

Analistas identificados com o setor reclamam do insuportável custo Brasil; do câmbio desfavorável, que barateia o produto importado e encarece o nacional; dos juros altos demais; do sistema tributário caótico; da incerteza jurídica e das já conhecidas mazelas na condução da política propriamente dita.

Mas esse não é todo o filme. A indústria brasileira está mal acostumada com excessiva proteção; com pacotes de bondade que vêm a seu socorro a cada derrapada, especialmente com a perpetuação de tratamentos tributários de exceção, como os sucessivos Refis. Além de excessiva, essa proteção é discriminatória, não só porque tende a beneficiar mais o produto acabado do que o intermediário, mas, também, porque produz tratamentos especiais a determinados grupos em detrimento de seus concorrentes, como tanto aconteceu com a política de créditos subsidiados do BNDES.

O setor não vem acompanhando a corrida tecnológica em direção à indústria 4.0, é exportador marginal e está quase totalmente alijado das cadeias globais de produção e distribuição.

A falta de acordos comerciais, também resultado da política protecionista, é agora obstáculo de transposição mais difícil, num momento em que as grandes potências estão engajadas numa guerra comercial que denuncia ou reduz o livre fluxo de mercadorias e serviços. Se é para consertar as mazelas da indústria, então é preciso coragem tanto para olhar os tropeços com mais realismo como para agir sobre as causas mais profundas.

CONFIRA

» O mergulho do petróleo

Há 6 semanas, as cotações do petróleo tipo Brent atingiam o pico dos US$ 74,04 por barril. Na ocasião, o fator de alta foi o agravamento da crise com Irã depois do ataque a petroleiros sauditas no Golfo Pérsico. Mas, de lá para cá, as cotações mergulharam e, nesta quarta-feira, chegaram a resvalar para os US$ 60,65, uma queda de 17% desde então. O fator baixista é a desaceleração da economia mundial, mas o detonador da maior baixa foi a revelação dos estoques recordes de óleo cru nos Estados Unidos.

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