Os velhinhos resistem e vendem ainda como novos

Preço é o principal argumento que justifica no mercado a longevidade de alguns veículos cujas idades variam de 12 a 54 anos

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

O mercado automobilístico brasileiro nunca esteve tão movimentado em termos de lançamento de modelos produzidos no País e importados. Entre as novidades que chegaram recentemente estão o Citroën C3 Picasso, o Audi A1, o Chery QQ, o J3 e a nova versão do Renault Sandero. Eles ampliaram a lista de mais de 500 modelos e versões à venda no País. Apesar dos constantes lançamentos, veículos com idades que vão de 12 anos a 54 anos resistem e alguns são campeões de venda nos seus segmentos.

Com poucas alterações no desenho original, modelos como Astra, Classic, Clio, Fiorino, Gol G4, Golf, Kombi, Mille, Palio, Ranger e S10 demonstram bom fôlego de vendas no confronto com novatos. O preço é o principal argumento da longevidade, característica do mercado brasileiro replicada apenas em alguns países em desenvolvimento, como Índia e China.

Somados, esses veículos representam quase 15% das vendas do mercado total de automóveis e comerciais leves de janeiro a maio, de 1,35 milhão de unidades. O retorno para as empresas é gratificante. "São modelos que se vendem pela relação custo-benefício e pela qualidade, sem necessidade de investimentos em campanhas publicitárias", resume Ricardo Dilser, assessor técnico da Fiat.

A morte de vários deles já foi anunciada, mas em alguns casos será lenta. O Mille, lançado há 21 anos, vendeu mais de 30 mil unidades neste ano. Modelo mais barato do mercado - custa R$ 23,2 mil na versão duas portas -, deverá sair de linha em 2014, quando a Fiat iniciará a produção de um compacto na fábrica que está construindo em Pernambuco.

Aos 15 anos, o Palio deverá ser renovado no segundo semestre. Enquanto isso, a versão antiga já vendeu 39 mil unidades, mais que os novatos Chevrolet Agile e Renault Sandero. Por muitos anos, foi o segundo automóvel mais vendido no País, atrás apenas do Gol. Nos últimos meses perdeu fôlego e atualmente ocupa a oitava posição.

Mille e Palio são produzidos apenas no Brasil, mas a marca tem ao menos mais um caso de vida longa de produto na Itália. Em sua primeira versão, o 500 ficou à venda por 18 anos.

Segundo Wim van Acker, sócio da consultoria americana The Hunter Group, "nos Estados Unidos e na Europa ocidental, dificilmente um carro fica tanto tempo no mercado por causa da concorrência". Em mercados em desenvolvimento como Brasil, China, Índia, Polônia e Rússia é mais comum.

"Quanto mais tempo um modelo fizer sucesso, maior rentabilidade ele terá, pois os custos já foram pagos", acrescenta Dilser. Ele acredita, contudo, que de agora em diante os modelos não vão sobreviver por tanto tempo. "O mercado exige cada vez mais novidades". Para ele, mesmo que os nomes sejam mantidos, o carro deverá ser totalmente renovado num prazo de pouco mais de dez anos.

Estratégia. Virou estratégia no Brasil as empresas lançarem um produto novo e manter o antigo em produção, ao menos por alguns anos. O Mille soma suas vendas com o Uno, lançado em maio de 2010. Juntos, venderam 107,9 mil unidades neste ano, ficando atrás apenas do Gol, que contabiliza números da versão nova e da antiga, a G4 ,que contribuiu com 20% das 117,8 mil unidades comercializadas até maio.

O gerente de marketing de produto da Volkswagen, Henrique Sampaio, ressalta que o consumo do G4, lançado em 2005, mas seguindo a geração do "Gol bolinha" de 1994, é maior em cidades do interior e junto à frotistas. O preço, a confiabilidade no produto e o valor de revenda são itens que mais pesam na aquisição.

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