ESG

Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

Imagem Elena Landau
Colunista
Elena Landau
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Os vilões

Quando a conciliação é falsa, não adianta Gounod, porque nem Ave Maria faz milagre

Elena Landau*, O Estado de S. Paulo

03 de julho de 2020 | 04h00

No mundo do meu neto não existem mais bandidos e mocinhos. São os vilões e os heróis. Com três anos conhece todos os personagens de Os Vingadores. O bem continua na sua luta contra o mal. Mas ele também não abre mão das histórias que nossas avós contavam: Chapeuzinho Vermelho e Os três Porquinhos. O lobo é a maior ameaça e o pai o grande herói que bota o “lobo para correr”.

Resolvi reler A psicanálise dos contos de fadas, de Bruno Bettelheim. Na introdução, ele diz que os personagens dos contos não são bons ou maus ao mesmo tempo, como somos na realidade. Na cabeça de uma criança a pessoa é boa ou má. Ambivalências devem esperar até que uma firme personalidade se desenvolva e que se possa entender as diferenças entre pessoas e situações.

Imediatamente pensei na polarização nos debates na mídia. Da saúde à saída da crise, não há espaço para dúvidas. O mundo do Twitter eliminou as dissonâncias ou dúvidas. Eu mesma, muitas vezes, me pego caindo nessa armadilha. Respostas rápidas, dadas sem refletir sobre a ponderação de alguém que não faz parte da minha tribo.

Lembrei de um depoimento do 1.º violino da Filarmônica de Berlim. Sua afinidade com o maestro é importantíssima, porque é o líder da orquestra. Ele contava da dificuldade de, depois de décadas sob a batuta de Van Karajan, se adaptar a novos maestros com visões distintas sobre a música. Depois das dificuldades iniciais, percebeu que pessoas sentem a mesma música de modo diferente. Não de modo distorcido ou errado, mas apenas diferente. E ao aceitar isso, alargou seus horizontes. Deveria ser óbvio, mas sua fala me comoveu. Senti inveja dessa abertura para o desconhecido.

O atual radicalismo das opiniões, dificulta o engajamento do cidadão, e, vai cada vez mais, se traduzindo em palavras de ódio, dogmas, quase que uma religiosidade política.

O perigo é ver essa violência saltar do mundo virtual para a realidade. Viralizou esta semana a imagem de um casal em St. Louis, nos EUA, apontando suas armas contra um ato antirracista pacífico. Não há nada na 2.ª emenda à Constituição americana que ampare a ameaça desse casal contra os manifestantes. E, ainda assim, as imagens foram retuitadas por ninguém menos que o presidente Trump.

A raiva estampada no rosto da mulher é chocante e reveladora. Não pude deixar de pensar na música do Chico, As Caravanas, cuja letra alerta que, filha do medo, a raiva é a mãe da covardia. 

A sociedade começa lentamente a reagir contra o discurso de ódio. O movimento que elegeu Trump e Bolsonaro pode estar se esgotando. Redes sociais reagiram, banindo comunidades de apoio ao presidente americano, suspenderam sua conta e vídeos da campanha atacando imigrantes foram tirados do ar. 

Grandes marcas retiraram anúncios do Facebook porque não querem ver seus produtos anunciados ao lado de conteúdos impróprios. O perfil Sleeping Giants, que atua também no Brasil, busca suspender contas e patrocínio a perfis que compartilham conteúdo ofensivo. E vem obtendo sucesso.

Com o avanço do inquérito do STF sobre fake news, mais de 2.000 vídeos de apoio a Bolsonaro, defendendo a intervenção militar, com mensagens antidemocráticas foram apagados por medo de serem incluídos no processo. 

Falta o passo seguinte: a construção de diálogo nas redes. A divergência nem sequer se estabelece, porque a missão de cada lado é desqualificar o oponente. Mesmo que para isso usem slogans sem nenhum sentido, como classificar seu adversário de “liberal fascista”. Um oximoro a juntar os que defendem a liberdade de todas as formas com os querem sufocá-la em todas suas expressões. Não é usada por ignorância, mas como estratégia. Passar uma ideia forte, ainda que errada.

A crise humanitária gerada pela pandemia, que deveria criar uma convergência pelo bem comum, parece ter ampliado o diálogo de surdos. A OMS faz seguidos apelos pela união: “não combateremos o vírus com ideologia”. A conversa é difícil porque os caminhos sugeridos não são os mesmos, diagnósticos também não. Essas visões distintas não se conversam, afastando possibilidades de enriquecimento mútuo. 

As palavras comunistas e fascistas são usadas sem nenhuma relação com seu significado, mas criam o campo de oposição que as redes buscam. As ideias de centro não encontram espaço nesse tiroteio. É como no mundo infantil, onde nuances não cabem nas narrativas. Bom ou mau. Generoso ou sórdido. Vilão ou herói. Petista ou bolsonarista. Nada no meio.

Quebrar esse padrão requer persistência e honestidade. Se o esforço de ouvir o outro não for genuíno, não se convence ninguém. Acuado pela prisão de Queiroz, Bolsonaro abandonou a virulência do cercadinho. Saiu do “morreu, e daí?”, para fazer, pela primeira vez, uma homenagem aos mais de 50 mil mortos pelo vírus. Seu novo estilo foi inaugurado em uma live, com Guedes ao lado, quando pediu ao sanfoneiro, dublê de presidente da Embratur, que tocasse Gounod, em tributo aos que se foram. Mas, quando a conciliação é falsa, nem Ave Maria faz milagre.

*ECONOMISTA E ADVOGADA 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.