Otimismo enganoso

Não vale a pena nos fiarmos na opinião condescendente do mercado financeiro

Luís Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

12 Junho 2017 | 03h00

A Goldman Sachs teve de enfrentar a ira de manifestantes recentemente, após ter comprado títulos do governo venezuelano com valor de face de US$ 2,8 bilhões. Quem protestava em frente à sede do banco em Nova York dizia que essa transação dá fôlego a um governo que reprime a população e despreza os princípios de uma sociedade democrática. É difícil a vida de quem espera que operadores do mercado financeiro levem em consideração princípios éticos e valores morais. Não é assim que funciona. O sonho de qualquer trader é estar vendido quando o mundo acabar. Mas, se ele acha que o mundo vai se transformar num lugar melhor, ele sempre pode mudar de mão e ficar comprado. Não há juízo de valor, não há imperativo moral. Trata-se de um jogo baseado estritamente em regras objetivas. Se o Brasil for invadido por um tsunami gigantesco e se transformar num enorme golfo, os melhores restaurantes de Londres estarão repletos com traders que estavam “short” em títulos brasileiros, ganharam uma fortuna e celebrarão a certeza de bônus multimilionários. No caso da Goldman, certamente ninguém pensou em ajudar o governo venezuelano. É só um negócio. O banco gastou apenas US$ 865 milhões para comprar títulos que prometem pagar muito mais do que isso.

A velocidade com que o mercado financeiro toma decisões o impede de fazer reflexões mais elaboradas. Na pressa, é necessário avaliar os países emergentes de forma comparativa, o que induz à construção de quesitos estanques aos quais se atribui uma valoração – como se estivéssemos num concurso de escolas de samba. Também aqui não cabe perplexidade. O mercado, como se sabe, funciona com a lógica de um rebanho e é absolutamente crucial não estar no contrafluxo. Na analogia famosa de Keynes, não se trata de saber quem é a candidata mais bonita do concurso de beleza, mas de antecipar quem os jurados escolherão como vencedora. Uma análise mais profunda, portanto, pode ser contraproducente. Nessas condições, o terreno é fértil para a proliferação de chavões, simplificações e preconceitos. Em passagem pelo Brasil, o estrategista para mercados emergentes do Bank of America mostrou-se otimista com a crise brasileira. As reformas estavam em curso, mas houve “um soluço”, nos diz. Elas podem demorar um pouco mais, mas serão aprovadas e todos seremos felizes no fim. Falou, também, da expansão de crédito, cujo pico, segundo ele, se deu em 2010 (o pico foi em setembro de 2015, segundo o Banco Central), da nossa dependência em relação a commodities (que, na verdade, pesam pouco no Produto Interno Bruto – PIB) e de uma inexistente reforma do sistema tributário. Ou seja, o fato de ele desconhecer o Brasil não o impede de ter opiniões fortes sobre nós. Nada de errado nisso. O sorriso na foto do jornal sugere que tem montado posições ganhadoras.

A conclusão é de que é preciso ter cuidado com um certo otimismo que o mercado financeiro sustenta sobre o momento atual. A própria tese de que as reformas são inevitáveis merece reparo. É sempre bom lembrar que elas não são populares. Se avançam, tropegamente, é porque o governo usa um arsenal de favores para convencer os parlamentares. Com a crise política, este poder será alocado não para aprovar reformas, mas para manter o presidente da República no cargo. Aqui também o jogo é pesado e prevalecem interesses objetivos. Não vale a pena nos fiarmos na opinião condescendente do mercado financeiro. Ele não tem uma agenda para o Brasil. Não será ele a nos resgatar do pântano ético em que nos chafurdamos. A tarefa de construir um novo país é nossa, indelegável.

*Economista, foi diretor de política monetária do Banco Central e professor da PUC-SP e da FGV-SP. E-mail: luiseduardoassis@gmail.com

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