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Otimismo, mas nem tanto

Economia em marcha lenta exige rumo claro do novo governo. Até lá, cautela

Cida Damasco, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2018 | 05h00

Disposição para ver as coisas pelo lado bom e esperar sempre uma solução favorável, mesmo nas situações mais difíceis. Essa é a definição clássica de otimismo, que consta dos bons dicionários. Na economia, podemos dizer que se aplica a um tipo de abordagem que se faz hoje das perspectivas para os próximos anos, com a chegada ao poder de Jair Bolsonaro, do superministro Paulo Guedes e seu time de liberais. Por essa visão, clareado o cenário político e escalada uma equipe econômica de pensamento homogêneo e imagem respeitável, é só deixar rolar e aguardar a solução dos problemas. 

Os indicadores projetados para 2019, por exemplo, dependendo das lentes com que são examinados, poderiam até justificar esse tal otimismo. Crescimento em torno de 2,5% no ano que vem, um ponto acima do previsto para 2018, inflação de novo rondando os 4%, portanto dentro da meta oficial, juro básico subindo de 6,5%, o nível mais baixo da história, para as vizinhanças de 8%, desemprego em queda, mesmo lenta, dos atuais 11,7% da força de trabalho para algo ainda na casa dos dois dígitos. Sem contar os recordes de pontuação nas bolsas de valores e a manutenção do dólar em níveis bastante razoáveis, depois dos sobressaltos pré-eleitorais. 

Em resumo, um quadro que caracteriza uma economia pronta para dar uma arrancada. Certo? Em termos. A completa desarrumação das finanças públicas, tanto no nível federal como nos Estados e municípios, pode impedir que a decolagem observada nos últimos dois anos seja abortada e, em consequência, pode provocar uma nova parada na economia brasileira. Principalmente se o novo governo demorar a definir sua estratégia econômica, em especial para o ajuste fiscal e para a reforma da Previdência, se as outras alas da gestão Bolsonaro não cerrarem fileiras em torno dessas propostas -- mais ainda, se não houver habilidade e eficiência na negociação com o Congresso. 

Por isso mesmo, a divulgação do PIB do terceiro trimestre, na sexta-feira, foi acompanhada de várias advertências. O tom de especialistas que avaliaram os resultados do período pode ser interpretado como de "otimismo cauteloso". Evidente que a situação da atividade econômica, expressa nos números do PIB, é razoável -- ainda que seja necessário descontar a chamada "base de comparação" favorável, como costumam dizer os economistas, para relativizar resultados. Para uma economia que enfrentou a "quase" maior recessão da história -- os dados revisados do IBGE tiram esse qualificação do período recente --, crescer 1% num ano, 1,5% e 2,5% nos dois seguintes certamente é motivo para alívio. Ainda mais em meio ao tremor que sacudiu o País depois do impeachment de Dilma Rousseff. 

Mas, por trás desses grandes números, há vários sinais que recomendam não embarcar numa onda de otimismo desenfreado. Vamos a cinco deles: 1) O PIB subiu apenas 3,3% em relação ao fundo do poço de 2016 e está 5% abaixo do seu ponto mais alto, em 2014; 2) O consumo das famílias respondeu, em parte, a estímulos ocasionais, como a liberação de recursos do PIS-Pasep; 3) Os investimentos tiveram um salto no terceiro trimestre, mas principalmente sob efeito de mudanças de regras no Repetro, o regime de tributação no setor de petróleo e gás; 4) A construção civil, termômetro importante da atividade econômica, completa 18 trimestres de baixa; 5) E, por fim, o cenário internacional ameaça se complicar, com a perda de fôlego das economias de alguns países industrializados e os desequilíbrios no fluxo de comércio provocados pela disputa entre Estados Unidos e China.

Circula nas redes sociais uma série de posts com críticas a quem espera pelo pior na era Bolsonaro. Um dos mais recorrentes prega a torcida a favor do novo governo, porque "se o o piloto errar, o avião cai com todos os passageiros". Provocações de internet à parte, o fato é que apenas torcer a favor não resolve. É verdade que, em relação à economia, os indicadores recentes de confiança empresarial e dos consumidores revelam um certo otimismo. Mas, para que o otimismo persista e a confiança produza efeitos concretos em termos de consumo e investimento, Bolsonaro e sua turma têm de agir rápido. Afinar não só seu discurso, mas principalmente suas propostas reais para a economia. 

CIDA DAMASCO É JORNALISTA

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