Bryan R. Smith/AFP - 18/03/2020
Bryan R. Smith/AFP - 18/03/2020

O perigoso otimismo dos mercados financeiros

Apesar das atenuantes aos riscos econômicos da guerra, o Brasil ainda é vulnerável aos choques externos negativos

*Claudio Adilson Gonçalez, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2022 | 04h00

E m artigo anterior, chamei a atenção para três fatores atenuantes dos efeitos da guerra da Ucrânia sobre a nossa economia: o saldo positivo na balança comercial de petróleo e derivados, a possível melhora dos termos de troca (relação entre os preços das exportações e das importações) e a migração de parte da demanda externa de papéis russos para brasileiros.

Mas eu falava em atenuantes, não no otimismo que vem se observando no mercado financeiro. Poucos esperavam que em apenas duas semanas o real se valorizasse cerca de 7%, o índice Bovespa subisse 5% e os juros no mercado futuro caíssem tão expressivamente como caíram.

Os mercados financeiros internacionais também parecem indiferentes aos riscos econômicos da guerra, principalmente quando se leva em conta que o conflito tem sido muito violento e tende a durar mais do que se esperava.

Carmen Reinhart, economista-chefe do Banco Mundial e estudiosa de crises financeiras, alerta que “o contágio às vezes funciona de maneiras misteriosas”. Embora o sistema financeiro até agora tenha sofrido apenas pequenos abalos em vez do que ela chama de “contágio rápido e furioso”, Reinhart continua preocupada com os efeitos em cascata desse conflito.

Na medida em que Vladimir Putin radicaliza suas ações bélicas e o Ocidente aumenta as sanções, o risco de default da dívida externa soberana da Rússia cresce. Estima-se que a exposição total dos bancos estrangeiros a esses papéis chegue a cerca de US$ 120 bilhões. Não é o suficiente para desencadear uma crise financeira sistêmica, porém, está longe de ser desprezível.

Mas os problemas econômicos dessa guerra parecem mais graves no lado real da economia do que no financeiro. Além dos óbvios impactos sobre o mercado de petróleo, é importante lembrar que, em números aproximados, Rússia e Ucrânia juntas respondem por 30% das exportações mundiais de trigo, 25% de paládio, metal importante para as indústrias eletromecânicas, químicas e farmacêuticas, e 20% de fertilizantes, além de serem importantes supridores mundiais de milho, níquel e platina.

Além disso, há que considerar que essa guerra ocorre quando o mundo ainda enfrenta problemas com as cadeias de produção, com inflação e juros crescentes e com a covid teimosamente em ação em vários países, principalmente na China.

Já o Brasil, apesar das atenuantes anteriormente destacadas, ainda é muito vulnerável a choques externos negativos. Descontando o zigue-zague provocado pela pandemia, a economia brasileira saiu da recessão para a estagnação, a inflação e os juros ainda estão crescendo, não foram feitas as necessárias reformas estruturais e as regras fiscais estão sendo seguidamente desrespeitadas para atender a interesses eleitoreiros. E a julgar pelas pesquisas, dificilmente haverá correção de rumo após as eleições.

*Economista e diretor-presidente da MCM Consultores, foi consultor do Banco Mundial, subsecretário do Tesouro Nacional e chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.