Ou ordem na casa, "ou todos de tanga?, diz ministro

Os argentinos vivem dias de extrema tensão, que poderá agravar-se a partir da segunda-feira, dia em que o peso deverá flutuar livremente em relação ao dólar. Esta situação não existe há quase onze anos, já que durante mais de uma década o país viveu sob o regime da conversibilidade econômica, na qual um peso valia um dólar.No último mês, a cotação do dólar foi fixa, mas na proporção de US$ 1,00 para 1,40 peso. A perspectiva, segundo analistas, é que o dólar dispare nas próximas semanas e que em pouco tempo chegue à cotação de US$ 1,00 para 3 pesos. O vice-ministro da Economia, Jorge Todesca, relativizou o comportamento que a moeda norte-americana pode ter nos próximos dias: ?Aquilo que acontecer na primeira semana será pouco representativo da tendência do mercado?.?Todos de tanga?Segundo o vice-ministro ?não temos que olhar as turbulências iniciais, mas, sim, o caminho que estamos percorrendo?. Todesca negou que a decisão de deixar o peso flutuar em relação ao dólar seja ?um pulo em um precipício?. Segundo ele, o governo tem US$ 14 bilhões de reservas, ?o equivalente à metade das importações anuais da Argentina e superior ao valor da base monetária. Além disso, prevemos um superávit comercial de US$ 12 bilhões para este ano?.O governo do presidente Eduardo Duhalde tenta minimizar a tensão, afirmando que a tempestade passará daqui a poucos meses. Todesca afirmou que ?os próximos três ou quatro meses serão verdadeiramente difíceis, mas dali para a frente haverá uma melhora paulatina. Existe uma luz no fim do túnel?.No entanto, Todesca fez um alerta: ?Se a economia não se ordenar, vamos acabar todos de tanga?, em alusão ao desemprego e à pobreza que cresce sem obstáculos no país.DolarizaçãoNos últimos dias, diversos economistas voltaram a pregar a necessidade de dolarizar a economia argentina. Todesca sustentou que os setores pró-dolarização pretendem prejudicar o governo Duhalde. ?Possivelmente, com a dolarização, não ocorressem turbulências iniciais. Mas a adoção do dólar levaria a salários de fome e à paz dos cemitérios?.O economista Manuel Solanet, da Fundação de Investigações Econômicas Latino-americanas (Fiel), considera que ?os argentinos não estão dispostos a poupar em pesos?. Segundo Solanet, a moeda nacional não serve como reserva de valor porque os argentinos não a querem.Restrição da liquidezPara minimizar o impacto da flutuação do peso o governo está tomando medidas de restrições da liquidez para evitar uma compra em massa da moeda americana. O início da flexibilização de ?El Corralito?, como é chamado popularmente o semicongelamento de depósitos bancários, previsto para a próxima segunda-feira, será modesto.Ao contrário do que havia sido anunciado no domingo passado pelo ministro Lenicov, os salários não poderão ser retirados em sua totalidade. Os argentinos somente poderão retirar 1.500 pesos. Além disso, as indenizações trabalhistas ficarão presas e somente poderão ser movimentadas através de cheques ou cartões de débito.TemorO temor do governo era que o dinheiro liberado pudesse ser levado imediatamente pela população para a caça de dólares. O governo Duhalde também conseguiu um acordo com os exportadores de cereais, para que estes não coloquem no mercado US$ 500 milhões que obtiveram com as vendas ao exterior. Em troca deste compromisso, o governo reconhece uma dívida que tem com o setor, relativo à devolução do Imposto de Valor Agregado (IVA).O vice-ministro Todesca também negou que o Fundo Monetário Internacional (FMI) tenha rechaçado o pacote econômico argentino, anunciado no domingo passado. No entanto, depois do anúncio, no qual o governo Duhalde confirmava a flutuação do peso em relação ao dólar ? uma das exigências do FMI ? não aconteceram os esperados comentários de apoio por parte do organismo financeiro.Todesca admitiu que o plano tinha uma credibilidade ?baixa?. Também confirmou que o ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov, vai viajar a Washington, na próxima segunda-feira, para expor aos representantes do FMI os detalhes do pacote econômico. O vice-ministro disse que a ajuda financeira do FMI chegará ?daqui a 30 dias?.PressaA pressa argentina em obter o respaldo financeiro internacional é grande. ?O respaldo político, nós o agradecemos e o reconhecemos, mas este é um momento de passar à ação direta e concreta, porque a situação é muito complexa, e daqui a pouco não haverá tempo para arrependimento?, disse categoricamente o embaixador argentino em Washington, Guillermo González.Diego Guelar, o indicado pelo presidente Duhalde para substituir González na embaixada nos EUA, sustentou que o governo americano ?dará seu apoio? econômico à Argentina ?de forma relativamente rápida?. Guelar admitiu que em Washington existe muita preocupação com situação da Argentina. ?A ajuda externa é, sem dúvida, importante, mas o fator determinante está dentro da Argentina?.Leia o especial

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