Ousadia para saber que é hora de mudar

Empreendedor decidiu fabricar cadeiras em vez de seus componentes.

CAROLINA DALLOLIO, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2011 | 03h09

Sucesso mostra que

ele estava com a razão

Em 46 anos de existência, a Flexform já teve tempo de acertar, crescer, patinar, mudar de rumo e crescer ainda mais. A empresa, fundada em Guarulhos, na grande São Paulo, pelo imigrante italiano Ernesto Ianonni, produzia apenas componentes para a montagem de cadeiras. Mas sob a orientação do filho, Pascoal Ianonni, o negócio passou a fabricar a cadeira inteira.

A mudança começou a ocorrer no final dos anos 90, quando Pascoal, formado em administração, percebeu que o negócio da família sofria uma ameaça. "Nós estávamos nas mãos dos nossos clientes. Se aquelas empresas quebrassem ou simplesmente deixassem de comprar nossas peças, não haveria nada a fazer", relata Pascoal.

Por isso, o empresário começou a alterar o modelo de negócio para que, aos poucos, as cadeiras saíssem prontas da Flexform. "Isso significava tornar-se concorrente de nossos próprios clientes", destaca Pascoal. "Teríamos que buscar novos compradores, começar praticamente do zero." Para Ernesto, a estratégia soava como um enorme erro. Já Pascoal, ao olhar para trás, enxerga o seu plano como o principal acerto da história da empresa, a decisão responsável por fazê-la mudar de patamar.

O filho conta com os números a seu favor. Enquanto era fornecedora de componentes, a Flexform vendia seus produtos para pouco mais de dez empresas e faturava cerca de R$ 35 milhões ao ano. Hoje, é líder no mercado nacional, exporta para seis países da América do Sul e deve registrar receita de R$ 155 milhões em 2011 - um crescimento de 26% em relação ao resultado obtido no ano passado.

O sucesso da mudança, porém, custou caro à família porque Ernesto não aceitou a atitude do filho. Pascoal economiza comentários sobre o assunto, mas refere-se ao pai somente como "o fundador".

Chegar ao comando da empresa também teve um preço alto para Pascoal. Para colocar em prática a nova estratégia da empresa e mostrar que estava certo, o empresário exagerou na dose de trabalho. "Ficava aqui 16 horas por dia ou mais."

Com uma crise de estresse, teve de afastar-se da Flexform por dois anos - bem no momento que seu plano começava a deslanchar. "Trabalhar demais foi meu maior erro", admite Pascoal. "Além de ficar doente, minha ausência obrigou a Flexform a adiar o lançamento de produtos e postergar a implantação de outras medidas", relembra o empreendedor.

O filho voltou à empresa em 2009. No ano seguinte, Ernesto vendeu sua parte no negócio e Pascoal, com o apoio da mãe e do irmão, assumiu o controle definitivo. "A sucessão foi um processo que deu certo para a empresa", resume Pascoal.

Atualmente, a Flexform está de cara nova. O negócio ganhou sede moderna, verticalizou todo o processo produtivo e adotou modelo profissional de gestão. Também implantou uma política de benefícios aos funcionários e contratou o Instituto Great Place to Work para melhorar o ambiente de trabalho.

Além disso, a fábrica hoje conta com um laboratório - certificado pelo Inmetro - para atestar a qualidade de seus produtos. A Flexform ainda melhorou o design das cadeiras e lançou novas linhas de produtos - como bancos para as salas de espera dos aeroportos e assentos para estádios. Tudo para tentar aproveitar as oportunidades criadas pela realização da Copa do Mundo no Brasil.

Atualmente, Pascoal diz que consegue equilibrar a vida pessoal com o trabalho. Ele chega na Flexform às 6 horas, toma café da manhã na empresa e costuma voltar para casa pouco depois das 17 horas. Na recepção da nova fábrica, mandou instalar uma placa que diz: "Aqui se trabalha com alegria".

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