Fernando Scheller/Estadão
Com ofertas em português, outlets em Miami se especializaram em atender turistas brasileiros, seu maior público entre os estrangeiros Fernando Scheller/Estadão

Outlets de Miami sentem o peso da crise no Brasil

Brasileiros abandonam o ‘quem converte não se diverte’ e adotam cautela

Fernando Scheller, enviado especial, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2015 | 17h42

MIAMI - O que se pode fazer quando seu principal cliente perde metade do poder compra em cerca de dois anos? É exatamente essa pergunta que Miami está se fazendo em relação ao Brasil, país que lidera a lista de visitantes internacionais à região. Entre os prejudicados pela crise econômica e pela disparada da cotação do dólar no Brasil, os shoppings de desconto - ou “outlets” -, que tanto atraíram turistas para Miami nos últimos anos, são agora justamente os mais afetados.

Os dias de frenesi nos outlets de Miami - mesmo no gigantesco Sawgrass Mills, com suas cinco “avenidas” que somam 350 lojas - parecem ter ficado para trás. Os brasileiros continuam vindo à região, apesar de ter uma pequena queda de 3% no número de visitantes no ano passado - a primeira em mais de 20 anos, segundo o Miami Conventions and Visitors Bureau. Nos outlets, porém, a retração foi muito superior, especialmente nas lojas que sempre lucraram por serem as preferidas dos brasileiros. 

Há relatos de lojistas de Miami que tiveram as vendas cortadas pela metade. Desde o início do ano, segundo o Banco Central, os brasileiros reduziram em 25% os gastos com compras fora do País (o dado compila as transações com cartões de crédito no exterior). Em agosto, porém, o BC apontou um freio mais forte dos gastos, que caíram 46% em relação a 2014.

O Estado foi ao Sawgrass Mills duas vezes na semana passada e, segundo turistas brasileiros, o ainda movimentado shopping nem sequer lembra os dias de “explosão” vividos entre 2011 e 2013. Com o dólar a R$ 1,70, a R$ 2 ou até a R$ 2,50, a disputa pelas melhores mercadorias era ferrenha. A fila na Victoria’s Secret, antes separada por fitas como nos aeroportos, hoje desapareceu por completo. Também ficou fácil comprar na Gap e na Tommy Hilfiger, que sempre atraíram uma legião disposta a revirar suas pilhas de ofertas.

Não é muito difícil encontrar famílias brasileiras fazendo compras no Sawgrass, mas o português não é mais o idioma que domina. Cedeu lugar ao espanhol. Ao abordar uma família que carregava duas malas de compras e mais uma sacola pensando se tratar de brasileiros, o Estado foi informado que os visitantes eram paraguaios. Segundo o escritório de turismo de Miami, os turistas do Chile e da Colômbia também são “emergentes” na cidade.

Enquanto no Sawgrass o Brasil ainda tem presença relativamente forte - há muitos funcionários de lojas que falam português, assim como sinalização e promoções direcionadas ao público brasileiro -, em outros shoppings é bem mais difícil encontrar alguém falando português. A reportagem ficou uma hora no Dolphin Mall, em Miami, e só encontrou duas famílias brasileiras. Uma delas não carregava nem sequer uma sacola de compras.

Poder aquisitivo. Quem se especializou em fazer compras nos outlets está sentindo a queda no poder aquisitivo em dólar. A família Toste, do bairro do Tatuapé, em São Paulo, está tão acostumada a rodar os shopping da Flórida que até desenvolveu uma técnica para não se perder. Pai, mãe, filho, filha e genro se comunicam por walkie talkies - um para os “meninos” e outro para as “meninas”.

O Estado encontrou o aposentado Joel Martins Toste Sobrinho, de 61 anos, enquanto ele esperava que a mulher e a filha saíssem da Victoria’s Secret. Depois de uns 20 minutos lá dentro - com a ajuda do filho Bruno, que é o tradutor oficial da família -, elas não compraram quase nada. “Está tudo muito caro”, justifica-se dona Heidi. O filho explicou melhor: há dois anos, era possível comprar quatro cremes por US$ 35; hoje, dois custam US$ 18.

“Houve uma inflação em dólar. A gente percebe isso também”, diz Bruno, que é turismólogo. É o efeito da roda da economia: há alguns anos, enquanto o Brasil surfava uma onda de prosperidade que não se revelou duradoura, os Estados Unidos estavam em crise. Agora, a situação se inverteu. “Uma lata de Pringles (batata frita) custava US$ 1. Agora está US$ 1,50.”

Apesar do efeito duplamente negativo - preços mais altos e real desvalorizado -, a família não pretende voltar ao Brasil com malas vazias. “Comprei um relógio de US$ 600. Mas no Brasil ele sai por R$ 3,9 mil. Ainda fiquei no lucro”, diz Sobrinho. Além disso, o aposentado disse que já havia comprado dólar há algum tempo, então a aquisição saiu menos de R$ 2,4 mil.

Mesmo quem planejou a viagem com bastante antecedência - como um grupo de 42 pessoas vindo de Carlópolis, no norte do Paraná - está fazendo bem as contas. Os tempos do “quem converte não se diverte” ficaram para trás. Hoje, a ordem é decidir comprar só o que, mesmo multiplicando por quatro, continua valendo a pena. Para Fabiano Alpheu Barone Barbosa, 43 anos, que organizou a viagem do grupo, o afã do turista brasileiro pelas compras esfriou. 

Funcionário aposentado do Banco Central, Carlos Salomão, de 64 anos, visita a Flórida pela terceira vez em três anos. Desta vez, dedicou-se a passeios diferentes. “Fui a Sarasota, Tampa e curti Orlando sem ir a parques. Foi uma surpresa, foram lugares agradabilíssimos”, diz ele, que viajou ao lado da esposa, Maria Aparecida, e de um casal de amigos. Segundo Salomão, uma palavra jamais associada a brasileiros em outlets está cada vez mais na moda em Miami: cautela. “Não é só o que está ocorrendo agora, mas também o medo do futuro. E se 2016 for pior? Não dá para sair comprando.”

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Cidade tem concorrência dentro e fora dos EUA

No mercado americano, Miami tem perdido espaço para Las Vegas; fora do país, concorre com países como Canadá e África do Sul

O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2015 | 17h59

O dólar a R$ 4 está dificultando o passatempo preferido dos brasileiros em Miami: encher as sacolas de compras em shoppings de desconto. Embora a cidade esteja tentando atrair brasileiros ao enfatizar seus aspectos culturais e naturais, a CVC - maior agência de turismo do País - está sentindo uma migração para outros destinos. No primeiro semestre, a queda no total de turistas do Brasil para Miami foi de 15%, na comparação com igual período do ano passado.

Segundo o diretor de produtos internacionais da CVC, Adriano Gomes, as companhias aéreas sentiram o baque da redução do interesse do brasileiro pelo destino e mexeram rapidamente nas tarifas para Miami. No caso da Azul, o valor das passagens em dólar, que era de US$ 800 no início do ano, hoje está em US$ 400. Ou seja: paga mais barato quem comprar agora do que quem se planejou desde o início do ano. O problema de Miami é que outros destinos também entraram na competição pelo turista brasileiro.

Embora seja possível comprar uma passagem para Miami hoje por R$ 1,6 mil, a própria CVC está vendendo pacotes para Las Vegas com voo a R$ 1,2 mil. Além de oferecer atrações mais baratas, bancadas pelos hotéis, Las Vegas também tem outra vantagem sobre a maior parte dos destinos americanos: o preço da hospedagem. “A diária é mais cara em Nova York e vai caindo de preço nos demais destinos: Miami é mais barato, Orlando ainda mais e Las Vegas é a mais em conta de todas.” 

Historicamente, os preços dos hotéis em Las Vegas são baratos porque a intenção da cidade é que as pessoas economizem na diária para deixar dinheiro nos cassinos. No entanto, quem não se interessa por jogo de azar pode fazer de Vegas um destino de férias barato. Ao contrário do que ocorreu com Miami, Vegas cresceu dentro da CVC este ano. “No primeiro semestre, a alta foi de 31%. Las Vegas já é o terceiro destino dos EUA, atrás de Miami e Nova York.”

Outros destinos que estão ameaçando a liderança de Miami na preferência dos brasileiros são aqueles cujas moedas também sofreram em relação ao dólar. “Nosso fluxo para o Canadá subiu 30% este ano, pois o dólar canadense hoje está 25% abaixo do valor do americano”, diz Gomes. 

O mesmo, segundo ele, ocorre com a África do Sul. O real, que hoje só vale US$ 0,25, ainda compra dois rands sul-africanos.

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Capital das compras tem de se reinventar

Novos pacotes de viagem para brasileiros são mais variados e incluem passeios a praias, visitas a museus e a áreas culturais como Little Havana

O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2015 | 18h09

A professora universitária Maria Nazareth Mota, 61 anos, já foi tantas vezes a Miami que quase perdeu a conta. Na maior parte das vezes, no entanto, nem viu tanto a luz do sol. Passou a maior parte do tempo sob as lâmpadas dos outlets. Na semana passada, ao viajar de Manaus a Miami com amigas, resolveu mudar o roteiro. Começou devagar, com um minicruzeiro de três dias nas Bahamas. “Tem tanta coisa perto daqui, é mais do que compras”, disse ela ao Estado, no corredor do shopping de descontos preferido dos brasileiros na cidade, o Sawgrass Mills.

Dessa vez, porém, a professora disse ter sido econômica. Levou apenas duas bolsas da Calvin Klein, a US$ 67 cada uma. “Meus filhos usam no dia a dia e, um ano mais tarde, elas já estão velhas”, justificou-se. Das lojas de bolsas que mais gosta, como Michael Kors e Kate Spade, ela tentou manter distância - justamente para não gastar além da conta. “Nem passei por lá, primeiro porque as bolsas estão uns R$ 1,2 mil. Com o dólar a R$ 4, está ficando muito caro para nós brasileiros.”

Tirar os brasileiros dos outlets e propor novas atividades - culturais, artísticas ou ao ar livre - é justamente o que o Miami Convention and Visitors Bureau está tentando fazer. O turismo é um dos pilares econômicos da cidade, e metade dos visitantes vem de outros países. O Brasil é o país que mais envia turistas para Miami. No ano passado, apesar da queda de 3% em relação a 2013, mais de 730 mil brasileiros estiveram na cidade. 

Como as compras vêm sendo o principal fator de atração dos brasileiros a Miami há bastante tempo, a cidade está tentando mudar rapidamente. Nos novos pacotes para a região de Miami estão sendo incluídos passeios em praias, visitas a museus recém-inaugurados e também áreas culturais como Little Havana.

Consultoria. O Miami Convention and Visitors Bureau está presente há 20 anos no Brasil. Para trabalhar a imagem da cidade, a entidade contratou uma empresa de relações públicas e uma consultoria para ajudar as agências de viagem a montar pacotes mais variados. “Infelizmente, para os nossos parceiros de varejo, a receita será prejudicada pelo dólar a R$ 4. Mas, ao continuar a atrair os brasileiros, conseguimos manter o movimento dos hotéis e dos restaurantes”, disse o vice-presidente executivo do Miami Visitors Bureau, Ronaldo Aedo.

Um dos fatores que atualmente pesam a favor de Miami é o preço das passagens aéreas. Como houve expansão agressiva da oferta nos últimos anos - há voos diários saindo de 12 cidades brasileiras -, os preços tiveram de cair com a redução da demanda.

“As companhias aéreas estão sendo obrigadas a se adaptar, é a mágica da competição”, explicou Aedo. A entidade também acompanha as negociações da isenção de vistos para turistas brasileiros nos EUA. Segundo o vice-presidente do escritório de turismo, a redução da burocracia ajudaria muito a atrair visitantes. 

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'Sacoleiros' somem dos outlets

<span style="line-height:1.6">O quiosque do outlet Sawgrass Mills onde trabalha a brasileira Priscila Gomes, de 32 anos, deixa claro quem é seu público-alvo ao exibir, bem claramente, a palavra “perfume” na fachada. O trio de atendentes - incluindo o dono, que é israelense - fala português para garantir que o principal público não fique desatendido caso Patrícia saia para almoçar ou tomar um café. Durante os anos de bonança, até 2014, entrava dia e saia dia, chegava um sacoleiro, que revendia produtos no Brasil, e levava 20 ou 30 perfumes de uma vez. </span>

O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2015 | 18h12

Embora os brasileiros continuem a circular pelo shopping, ainda que em menor número, a alta do dólar acabou de vez com o modelo de negócio dos sacoleiros. Se o cliente comum já fica em dúvida na hora da compra, os sacoleiros, que precisavam obter uma boa margem de lucro sobre os produtos para pagar as despesas da viagem, desapareceram de vez. Caiu a venda do pequeno quiosque de perfumes e também a renda de Priscila, que recebe um valor fixo por hora e uma comissão pelas vendas totais. “O movimento diminuiu muito, muito mesmo, especialmente neste ano”, diz a vendedora.

Além do quiosque de perfumes, outras lojas do Sawgrass Mill sofreram com a recente cautela dos brasileiros em comprar. A Sunglass Hut, de óculos de sol, viu o movimento cair pela metade no último ano - ao multiplicar o dólar por R$ 4, as pessoas passaram a preferir pagar o produto parcelado no Brasil. As brasileiras também eram 80% da clientela de uma loja da italiana Missoni, localizada em um shopping de luxo de Miami, cujos vestidos custam cerca de US$ 1 mil. Com a valorização do real, as vendas da marca sofreram.

Segundo cálculos do Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV), as roupas representam cerca de 30% de tudo o que os brasileiros compram em mercadorias no exterior. As redes brasileiras de preço mais alto, como Ellus e Richards (da InBrands) e Le Lis Blanc e John John (da Restoque) seriam as primeiras a sentir os benefícios da redução das compras lá fora.

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No Brasil, vendas devem crescer 20% e superar R$ 2,5 bilhões

Parte do aquecimento das vendas é atribuída à transferência dos clientes que compravam marcas estrangeiras no exterior

O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2015 | 18h15

Enquanto os outlets americanos amargam a perda de clientes brasileiros, os shoppings de desconto nacionais relatam aumento das vendas neste ano. A estimativa é vender 20% mais em 2015 e superar a receita de R$ 2,5 bilhões, segundo a Agência Brasileira de Outlets (About), consultoria do setor. 

No Catarina Outlet, em São Roque (SP), as vendas cresceram 20,8% no segundo trimestre em relação aos três meses anteriores, somando R$ 71,8 milhões. A JHSF, dona do empreendimento, diz que os números estão 50% acima das projeções. “O setor de outlets cresce na crise. O brasileiro não quer abrir mão das marcas que gosta, mas busca preços melhores”, disse Christian da Cunha, diretor-presidente da unidade de shoppings da JHSF.

O outlet ainda é um formato novo no varejo brasileiro. O shopping mais antigo, o Outlet Premium, em Itupeva (SP), foi inaugurado em 2009. Naquele ano, recebeu 3 milhões de visitantes, número que saltou para 5,5 milhões em 2014 e deve chegar a 6 milhões em 2015, segundo Alexandre Dias, presidente da General Shopping, que administra 16 shoppings (3 outlets), entre eles o Outlet Premium.

A empresa não abre dados financeiros por unidade, mas Dias afirma que as vendas nos outlets seguem crescendo, enquanto o consumo esfriou nos shopping centers. Ao todo, existem oito outlets em operação no Brasil. Os donos dos outlets atribuem parte do aquecimento das vendas a uma migração dos clientes que faziam compras no exterior para as lojas no Brasil. “Não vale mais a pena viajar para fazer compras com o dólar a R$ 4. Um tênis da Nike de US$ 190 sai por R$ 800. O mesmo modelo está R$ 350 no Brasil. E dá para parcelar”, disse Dias. 

Essa percepção se reflete em números. A JHSF diz que as marcas estrangeiras vendem 35% mais este ano nos seus shoppings - a empresa também é dona do Cidade Jardim. “A TAM era o nosso maior concorrente”, diz Cunha.

Em parte, os preços mais competitivos das lojas brasileiras se devem à manutenção de um estoque adquirido com o dólar mais baixo. A Adidas, por exemplo, que tem 15 lojas no Brasil, estima que o prazo entre fabricar e vender um produto pode chegar a um ano. Logo, alguns dos produtos importados que estão nas prateleiras foram comprados com o dólar de um ano atrás, de R$ 2,48, 35% abaixo da cotação atual. Com a reposição dos estoques, o preço tende a subir no País.

Com o bom desempenho dos shoppings nesse formato, novos empreendimentos devem ser lançados. Até 2016, seis outlets devem abrir as portas, segundo estimativas da About. O primeiro será inaugurado na quinta-feira no Rio, pela General Shopping. O número poderá ser ainda maior. Três donos de projetos de shoppings contrataram a consultoria About para avaliar se podem converter os projetos em outlets. / MARINA GAZZONI E CAIO SPECHOTO, ESPECIAL PARA O ESTADO

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