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Outra crise global?

Se vier nova crise equivalente à de 2008, tanto os sistemas fiscais dos países como os grandes bancos centrais não estarão nas mesmas condições para enfrentá-la

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2018 | 17h00

Por toda parte pipocam advertências de que nova recessão mundial pode estar em formação, como um furacão sobre o Caribe, em rápido deslocamento para a costa da América do Norte. Quando isso acontece, quem estiver na trajetória prevista pelos especialistas tem de se preparar sob risco de não ter amanhã.

A matéria de capa da revista The Economist da semana passada leva o título: A próxima recessão (The next recession). É o mesmo aviso apresentado na edição de quarta-feira do Financial Times pelo mais renomado colunista mundial de Economia, Martin Wolf.

Previsões e advertências não garantem que essa recessão seja inevitável. Mas se ela vier, poderá produzir grandes estragos em economias fragilizadas por enormes rombos fiscais, como a do Brasil.

O crescimento da economia dos Estados Unidos vem sendo de 4% ao ano. Até agora, essa puxada aconteceu principalmente pela redução da carga tributária das empresas nos Estados Unidos. Mas esse efeito já perdeu a maior parte de sua força.

Também não se vê a mesma força de tração que a locomotiva chinesa mostrara até recentemente. Seu PIB está em desaceleração; seu setor produtivo, altamente endividado; e a guerra comercial com os Estados Unidos tende a tirar muito de sua potência. O Fundo Monetário Internacional ainda prevê bom crescimento global para este ano, de 3,7%, mas adverte para a tendência a gradativa redução desse valor.

O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) já aumentou os juros nada menos que oito vezes desde 2015 e promete continuar. Esse corte da ração de moeda começa a incomodar, entre outras razões, porque valoriza o dólar e tira competitividade do sistema produtivo dos Estados Unidos. O presidente Donald Trump deixou de lado pruridos de não interferência e reclamou que “o Fed enlouqueceu”, como declarou há 11 dias.

O Fed não quer apenas abater uma inflação iniciante. Quer, também, derrubar os preços dos ativos financeiros que continuam altos demais.

A principal razão para a enorme procura de ativos por trás dessa alta é a existência de dinheiro demais girando nas economias à procura de oportunidades. E uma das razões pelas quais os mercados estão inundados de capitais é a megainjeção de moeda pelos grandes bancos centrais a partir da crise de 2008. Foi quando se atiraram às compras dos títulos que estavam sendo despejados das carteiras e criando ondas seguidas de pânico.

As principais bolsas de valores não param de subir. Nos últimos três anos, Nova York avançou 47%; Frankfurt, 14%; Londres, 11%; e Tóquio, 24% (veja gráfico acima). E continuam em alta apesar das advertências de que os P/L (relação preço/lucro) estão altos demais.

Outra perigosa demonstração de obesidade é o enorme peso do passivo do consumidor global. Como pontua Martin Wolf, “a dívida agregada das famílias, das empresas não financeiras e dos governos nos países com setores financeiramente importantes está atualmente em mais de US$ 167 trilhões, ou mais de 250% do Produto Interno Bruto global”. Esse excesso de peso tende a deixar essas famílias vulneráveis à alta dos juros. E, se dançarem elas, dançarão também os credores.

Se vier nova crise equivalente à de 2008, como os analistas parecem antever, tanto os sistemas fiscais dos países como os grandes bancos centrais não estarão nas mesmas condições de então para enfrentá-la. O Banco Central Europeu, por exemplo, ainda não começou a aumentar os juros. Seu balanço continua empanturrado de títulos. Se vier a ser obrigado a absorver ainda mais, teria de infringir limites legais para esse tipo de operação. E o Fed continua com mais de US$ 4 trilhões.

Os fatores adversos não se restringem à economia. A proliferação de movimentos nacionalistas e protecionistas ao redor do mundo tende a aumentar as incertezas e a solapar a confiança. Se o sistema global não tiver a mesma capacidade de resiliência demonstrada a partir de 2008, os mais fracos acabarão por sofrer mais pelo ajuste que, se as previsões se confirmarem, será inexorável. Essa crise ainda nem mostrou as caras e, no entanto, Argentina, Turquia e Itália já estão batendo os pinos.

A grande fragilidade do Brasil é a enorme precariedade das contas públicas. É, outra vez, o governo gastando muito mais do que arrecada. O próprio processo de ajuste, se ele acontecer no próximo governo, poderá ser atropelado por uma crise dessas.

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