Saul Loeb and Ronda Churchill/AFP
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Outra virada de Trump?

Até as eleições dos EUA, em 3 de novembro, o suspense vai castigar o investidor

Fábio Alves*, O Estado de S. Paulo

02 de setembro de 2020 | 04h00

A eleição presidencial dos Estados Unidos deve gerar bastante ruído aos mercados financeiros globais em setembro se as pesquisas de intenção de voto indicarem uma corrida bem mais apertada do que os levantamentos mostraram antes de as convenções nacionais terem confirmado as candidaturas de Donald Trump pelo partido republicano e Joe Biden, pelo democrata.

No último fim de semana, as pesquisas apontaram para uma diferença menor na liderança de Biden. Em junho, o democrata chegou a liderar a disputa com vantagem superior a dez pontos porcentuais sobre Trump. Agora, essa diferença caiu para ao redor de seis pontos, na média das mais recentes pesquisas nacionais. Isso no voto popular, uma vez que, na disputa que realmente importa, a do colégio eleitoral, a eleição está completamente em aberto.

Os investidores temem que uma corrida muito apertada entre os dois candidatos poderá fazê-los reviver uma situação de incerteza aguda: uma eventual recontagem de votos, como aconteceu em 2000 na Flórida durante o pleito entre George W. Bush e Al Gore. E incerteza é o pior cenário para os mercados.

Por causa da pandemia do coronavírus, boa parte dos eleitores vai enviar seus votos pelos correios, não só atrasando o resultado final, como também abrindo espaço para acusações de fraudes na votação, como já sugeriu Trump. É muito provável que o vencedor do pleito não seja conhecido no dia 3 de novembro, data da eleição.

Apesar da descrença após 2016, quando Hillary Clinton foi apontada como a vencedora da eleição até a abertura das urnas, mas acabou perdendo para Trump nos votos do colégio eleitoral, as pesquisas de intenção de voto ainda poderão ser um dos principais fatores de volatilidade nos preços dos ativos neste mês, especialmente no dólar.

O primeiro mandato de Trump foi marcado por gerar um dólar forte, com estímulos fiscais agressivos. Sua política externa, de protecionismo exacerbado, culminando numa guerra de tarifas comerciais com a China, levou os investidores a buscarem o dólar como refúgio. Uma vitória de Biden representaria uma reversão desse protecionismo e da política externa agressiva e impulsiva de Trump, diminuindo a demanda pela moeda americana.

Enquanto a liderança de Biden estava bem mais confortável nos últimos meses, muitos analistas chegaram a prever que o dólar entraria numa tendência global de queda frente às principais moedas internacionais pelos próximos 12 meses. A maior vantagem dele coincidiu com o auge do impacto da pandemia do coronavírus nos EUA, quando milhares de americanos perderam o emprego, a economia entrou em severa recessão e o número de mortes pela doença disparou.

Mas desde que os Estados americanos começaram a relaxar as medidas de distanciamento social, a economia vem ganhando fôlego, o que está ajudando Trump a recuperar o terreno perdido na aprovação do seu governo e nas intenções de voto. A maioria dos analistas projeta um crescimento do PIB americano de 20%, em termos anualizados, neste terceiro trimestre.

Se a retomada da economia prosseguir até a eleição em novembro, mesmo que a pandemia ainda não esteja sob controle, a corrida presidencial poderá ser decidida no último minuto. A implicação disso não será apenas sobre o dólar.

Biden lançou um plano econômico de US$ 700 bilhões que prevê investimentos em infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, favorecendo energias renováveis e limpas. Ele também já avisou que, se eleito, vai reverter a política de redução de impostos de corporações americanas introduzida por Trump, além de aumentar o valor do salário mínimo.

Muitos analistas acreditam que uma vitória acachapante dos democratas – não só Biden eleito presidente, mas o domínio do partido na Câmara dos Deputados e no Senado – seria negativo para o mercado acionário americano.

Por outro lado, uma vitória dos democratas resultaria em alta nas Bolsas e nas moedas de países asiáticos, beneficiados pela redução de atrito com a China, com melhora do fluxo do comércio internacional. Já o foco de Biden em meio ambiente seria negativo, por exemplo, para o Brasil, alvo de críticas internacionais na proteção da Amazônia.

Todavia, já não dá mais para dizer que Trump é carta fora do baralho. Conforme as últimas pesquisas, o controle do Congresso pelos democratas ficou mais difícil, especialmente no Senado, o que limitaria as políticas adotadas numa eventual gestão Biden. Mas até a eleição, o suspense vai castigar o investidor. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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