''Ouvi falar do assunto na aula de geografia''

Geração pós-estabilidade não sabe o que é inflação

, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

Os tempos de inflação alta e descontrolada são uma vaga referência histórica para uma geração que cresceu com o Plano Real. "Sei que antigamente os preços variavam muito num mesmo dia", conta Juliana Rossi, que completou 15 anos em abril, a mesma idade que o real vai fazer em 1º de julho."O professor de geografia já falou um pouco sobre o assunto", recorda Beatriz Camargo, também de 15 anos, que estuda com Juliana no primeiro ano do ensino médio no Colégio Augusto Laranja, em São Paulo.As meninas não viveram uma época em que o freezer horizontal era um item presente em várias casas, por causa da necessidade de se estocar alimentos. "Você tinha de fazer aquelas compras enormes porque no fim do mês o reajuste era de até 80% nos preços", diz o professor da Faculdade de Informática de Administração Paulista (Fiap), Marcos Crivelaro. Outro motivo que levava essa corrida aos supermercados era o tabelamento de preços, que por vezes causava desabastecimento do comércio. "O controle de preços desarticulou a oferta e fez com que várias mercadorias fossem vendidas com ágio. Nessa época eram comuns os açougues que trabalhavam de portas fechadas", lembra o professor de economia da Universidade de São Paulo (USP) Heron do Carmo. Na véspera da implantação do Plano Real, em junho de 1994, a inflação medida pelo IPCA estava ao redor de 50% ao mês, segundo cálculos de Crivelaro. No ano seguinte à criação do plano, em 1995, a inflação mensal média foi de 1,7%. Em maio deste ano, a variação foi de 0,47%.Um dos principais efeitos do controle da inflação foi o surgimento de um consumo mais consciente no País, por causa do estabelecimento de um referencial de preços, na hora da compra. "O processo de compra, por conta da inflação acelerada, tinha pouca racionalidade", afirma o economista da FGV Projetos, Fernando Blumenschein. A estabilidade de preços trouxe também ganhos econômicos. "Os restaurantes, na época da inflação, tinham de mudar o cardápio a cada 15 dias. Isso envolve recurso, tempo e perda de recurso produtivo", explica.O perfil dos investimentos também mudou nos últimos 15 anos. Ativos que eram comprados para proteger o patrimônio , como imóveis, terras e carros, deram lugar ao investimento produtivo. "As pessoas passaram a utilizar menos esses meios e se preocuparam mais em investir", diz Blumesnchein.Essas mudanças já foram assimiladas por boa parte da população, que vai poder planejar seu futuro num cenário de inflação controlada. Graças à estabilidade econômica, o Brasil começa a perceber a entrada de novos produtos financeiros. "Vamos ver alguns modelos que já existem lá fora, como financiamento longo, por causa da taxa de juros baixa", diz Crivelaro.A melhor distribuição de renda, induzida pelo plano, também vai contribuir para isso, diz o economista. Gradativamente, o acúmulo de poupança da população permitirá que compras menores sejam feitas à vista. "Indiretamente, isso resolve vários problemas porque faz com que a inadimplência caia e os juros diminuam", explica. Atualmente, tanto Juliana quanto Beatriz são um exemplo dessas mudanças em relação à referência de preços. Juliana prefere comprar sempre à vista, para obter desconto. Já Beatriz mostra que acompanha os preços no mercado. "No ano passado, uma latinha de milho, por exemplo, custava R$ 0,49 e hoje sai por R$ 1", observa.

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