Polícia Militar
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Ouvidor é acusado de fazer pressão contra prisão de manifestantes

Júlio César Fernandes Neves falou a delegado que este poderia responder por abuso de autoridade; suspeitos foram detidos com rojões, pregos e gasolina

Alexandre Hisayasu, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2017 | 13h54

SÃO PAULO - Três manifestantes detidos durante os protestos na Avenida José Pinheiro Borges, em Itaquera, na zona leste de São Paulo, na manhã desta sexta-feira, 28, foram autuados em flagrante por associação criminosa, incêndio tentado e explosão. Todos serão encaminhados para um Centro de Detenção Provisória (CDP). Policiais envolvidos na ocorrência informaram que o Ouvidor da Polícia de São Paulo, Júlio César Fernandes Neves, foi até o 65º Distrito Policial (Arthur Alvim) e teria pressionado o delegado Marcos Luiz Gomes,  responsável pelo caso, para não prender os suspeitos por associação criminosa - o que possibilitaria o pagamento de fiança - , sob o risco de ser acusado por abuso de autoridade.

Segundo informações da Polícia Militar, durante as manifestações contra a reforma trabalhista e da Previdência, por volta das 6h30, Luciano Antonio Firmino, de 41 anos, foi preso após ser surpreendido carregando gasolina, tochas e pregos para obstruir a passagem de veículos na avenida, enquanto Juraci Alves dos Santos, de 57, e Ricardo Rodrigues dos Santos, de 35, foram detidos após atirar rojões contra os PMs. O material usado pelos suspeitos foi apreendido.

Dois manifestantes que filmavam a ação foram levados como testemunhas junto com um homem que passava pelo local.

Os manifestantes chamaram o ouvidor Neves, que foi até a delegacia. Ele nega que tenha pressionado o delegado para não autuar os suspeitos por associação criminosa.

"Eu não pedi nada e nem tenho poder para entrar na convicção do delegado. Apenas o alertei sobre um caso semelhante ocorrido no passado (quando um capitão do Exército, infiltrado, foi preso junto com um grupo de manifestantes que protestavam contra o presidente Michel Temer, em setembro de 2016), em que o delegado responsável prendeu os envolvidos e acabou respondendo por abuso de autoridade", afirmou. "Fiz para evitar que polícia seja acusada de cometer abuso, mas ele que (delegado) fique à vontade."

Neves, que também é advogado, disse que conversou com os presos e que todos "estão bem". "Não estou aqui advogando. A Ouvidoria tem a obrigação de exercer o controle social da atividade policial."

O deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) também foi à delegacia para acompanhar o registro da ocorrência. 

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública informou que "são ínverídicas as declarações do ouvidor. Em nenhum momento o delegado responsável pela prisão de manifestantes detidos, em setembro do ano passado, respondeu por abuso de autoridade". A pasta afirmou que os acusados respondem a processo na Justiça.

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