REUTERS/Gonzalo Fuentes
REUTERS/Gonzalo Fuentes

Governo Trump alerta que OMC precisa passar por reforma

Presidente dos EUA chegou a dizer que, se a OMC o freasse em qualquer tentativa de adotar uma política mais protecionista, poderia simplesmente deixar a entidade

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2017 | 18h47

GENEBRA - Num discurso que soou como um alerta para muitos diplomatas em Genebra, o governo de Donald Trump deixou claro que a Organização Mundial do Comércio (OMC) precisa passar por uma reforma e que terá de "funcionar melhor" no futuro.

A declaração foi feita pelo representante dos EUA na OMC, Christopher Wilson, durante o Conselho Geral da entidade nesta quarta-feira. Ao tomar a palavra, ele insistiu em descrever o momento como sendo marcado por um "desafio institucional". 

Durante as eleições, Trump chegou a dizer que, se a OMC o freasse em qualquer tentativa de adotar uma política mais protecionista, poderia simplesmente deixar a entidade. Sempre cauteloso, o brasileiro Roberto Azevêdo, diretor da OMC, optou por não responder diretamente a Trump e apenas disse que iria aguardar até que a nova política comercial americana fosse implementada. 

O Estado apurou que, em encontros entre embaixadores americanos e Azevedo, os representantes da Casa Branca evitaram ameaçar sair da entidade, o que foi recebido como um alívio por parte dos demais negociadores. 

Mas, ainda assim, a Casa Branca deixa claro agora que não vai aceitar a OMC em seu estado atual. "A OMC tem de funcionar melhor", disse o representante americano, sem dar detalhes. 

Para ele, deve haver uma "nova forma de lidar com as negociações", numa referência indireta ao impasse de quase duas décadas na Rodada Doha. Para ele, A OMC necessita encontrar uma "forma melhorar de considerar a relação entre comércio e desenvolvimento". Entre diplomatas americanos, a ideia de retomar um processo no estilo da Rodada Doha deve estar descartada. 

Outro alvo da crítica americana é o sistema de solução de disputas na OMC, considerado como uma espécie de tribunal do comércio mundial. "O sistema precisa funcionar melhor", disse. "Ele deveria funcionar como deveria funcionar", insistiu, ainda sem dar detalhes ou fazer suas propostas. 

Negociadores consultados pelo Estado interpretaram o alerta como um recado direto a decisões que, na visão dos americanos, teriam sido "injustas" contra os interesses exportadores do país.

De acordo com Wilson, o governo americano está "engajado em uma profunda avaliação sobre o futuro da OMC". 

Azevedo não respondeu aos comentários da delegação americana. Sua assessoria, porém, indicou que há um reconhecimento que o debate sobre o comércio passa "por uma fase de transição". 

Protecionismo - Dados até agora colhidos pela OMC revelam de fato que, em 2017, houve o salto nas barreiras dos EUA contra importações, seguindo uma tendência contrária entre todos os demais países que passaram a adotar uma postura de abertura comercial. 

O que ainda preocupa é a decisão do governo Trump de examinar a possibilidade de impor restrições contra bens importados a partir de argumentos de segurança nacional. Para solicitar um levantamento sobre o assunto, a Casa Branca alega que a indústria siderúrgica dos EUA estaria ameaçada pelas importações chinesas, ao ponto até mesmo de não conseguir produzir níveis suficientes de aço em caso de um conflito militar. 

Sob esse argumento, portanto, a ideia é de que barreiras para proteger a indústria nacional americana estariam justificadas do ponto de vista da segurança do país.

Durante a reunião do G-20, no início do mês, Azevêdo esteve pela primeira vez diante do presidente americano, Donald Trump. Ele usou seu discurso para falar sobre a necessidade de se manter mercados abertos e promover uma globalização inclusiva diante do chefe da Casa Branca.

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