Pacote americano favorece o Brasil

O governo americano anunciou sexta-feira uma urgente injeção de no mínimo US$ 140 bilhões no orçamento dos consumidores. Não é pouco, 1% do PIB, e terá um repercussão quase imediata, pois será dinheiro nas mãos de quem estava comprando menos com receio da crise financeira e do aumento dos preços dos combustíveis.O mercado financeiro reagiu com certa frieza, mesmo porque o impacto da medida já havia sido absorvido pelo índices quando se falava em US$ 100 bilhões. Mas as perdas provocadas pela crise financeira e a restrição do crédito continuam pesando.Havia na tarde de sexta-feira duas dúvidas: o pacote seria suficiente para levar os americanos a consumirem mais? O Congresso vai aprová-lo em tempo hábil que possa evitar uma retração maior da economia, que já está crescendo abaixo de 2%?As duas dúvidas tinham resposta no pronunciamento de Bush e nas declarações da presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi. Ela afirmou que as medidas podem ser aprovadas em até 30 dias, pois já tinham sido discutidas com Bush, Bernanke e o secretário do Tesouro, Henry Paulson. Todos têm o sentido da urgência.Quanto a Bush, seu recado aos americanos foi claro: o grosso do pacote vem sob a forma de redução de imposto. "Vocês terão dinheiro que poderão usar como bem desejarem, ajudar em suas contas mensais, compensar a alta do preço da gasolina ou cobrir outras necessidades." Mas quanto cada um vai receber a curto prazo? Pessoas ligadas às negociações com o Congresso informavam que seria entre US$ 800 e US$1.600, dependendo do caso. No ataque terrorista de 2001, o estímulo incluía a devolução de impostos entre US$ 300 e US$ 600, mas a elaboração dos cheques demorou cerca de dez semanas, o que será agora evitado. "Deixemos que os contribuintes fiquem logo com o seu próprio dinheiro", disse ele. Outro estímulo. O governo pretende que essa redução de impostos não seja só por três anos, mas permanente, a fim de evitar uma sobrecarga futura. Isto é, os americanos vão pagar menos impostos para poderem consumir mais. Isso até não parece o Brasil?.Resumindo, disse Bush, vamos pôr dinheiro na mão do povo, para que ele compre mais.VAI DAR?A resposta a essa questão ficou no ar, mas os pronunciamentos de Bush, Bernanke e Paulson davam a entender que, se for preciso, virá mais. Além disso, é agora certo que o Fed (banco central americano) vai reduzir a taxa básica de juro em 0,50 ponto, em dez dias, e poderá cortar ainda mais a taxa de redesconto.Esse é um passo decisivo de injetar dinheiro, agora não no sistema financeiro, já em fase de recapitalização, mas diretamente no orçamento dos americanos. É extremamente importante, porque o consumo interno representa algo em torno de 70% do PIB. Haveria também outras medidas em estudo, como reestimular as exportações.Bush deve detalhar essas medidas no fim de mês, quando apresentará o seu tradicional relatório sobre o estado da União. Tudo somado - e pode ser só o começo - permitirá que a economia americana retome o seu ritmo de crescimento no segundo trimestre do ano, pois os americanos sempre anseiam comprar mais, o que vinha, em parte, impulsionando a economia mundial.E PARA O BRASIL?Nós vamos ser beneficiados de várias formas; uma delas é um eventual aumento das exportações, não tanto para os EUA, mas para outros países. Afinal, nossas vendas para os EUA não passaram, em 2007, de irrisórios US$ 23,5 bilhões. Elas representam apenas 25% das exportações totais. Digo irrisória, quase ridícula, porque eles importam anualmente algo em torno de US$ 2 trilhões. É inútil continuar reafirmando que desprezamos o maior mercado mundial.É certo que, se voltarem a crescer, os EUA poderão importar mais do Brasil, mas sempre será pouco, pois há muitos anos estamos perdendo presença naquele mercado. Fomos, e continuaremos sendo, desalojados por outros.Outro benefício para nós será a maior venda para outros países, que sofreriam com retração ou recessão americana.Além da China e outros países asiáticos, há, principalmente, a União Européia, que absorve 29,7% das exportações brasileiras. A economia da zona do euro está em fase de franca retração, vacila em torno de 2%, pois caíram as vendas para os EUA e o Banco Central Europeu, ao contrário do americano, recusa-se a reduzir os juros para estimular a demanda interna, estagnada. Ao contrario, ameaça até aumentá-los. Os europeus agora estão confiando na Ásia e na China, que, por sua vez, confiam nos EUA. Já entenderam o efeito dominó, não? MENOR TENSÃO AJUDA Finalmente, o aumento de consumo nos EUA pode proporcionar mais lucros para empresas, valorização de suas ações na bolsa e menos tensão sobre os índices.Isso dará maior fôlego à bolsa brasileira e aos investimentos externos. Muitos dos dólares que saíram nesta semana, em decorrência de vendas apressadas de títulos do governo e ações, emigraram não por desconfiança, que não existe, mas para compensar perdas no exterior. CALMA AÍ, SENHORES...A ação do governo americano restabelece um pouco de confiança, mas que ninguém se iluda. Vamos ter ainda muita turbulência nos próximos meses. É só ninguém entrar em pânico quando a bolsa paulista recuar 3% ou 4% de um dia para o outro, quando ganhou 43% no ano passado.Calma aí, senhores... Não há tragédia nenhuma, é apenas um ajuste brusco do mercado, em que muitos vão sofrer, mas a maioria apenas perde um pouco do lucro generoso que já havia obtido.

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