Joédson Alves/EFE
Até agora, a equipe econômica reconhece um déficit de R$ 161,623 bilhões em 2020. Joédson Alves/EFE

Pacote anticoronavírus já é suficiente para levar rombo nas contas a R$ 220 bilhões

Apenas as ações propostas pela equipe do Ministério da Economia podem resultar em despesa adicional de ao menos R$ 33,1 bilhões

Idiana Tomazelli, Adriana Fernandes e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 20h39

BRASÍLIA - As medidas já anunciadas pelo governo para conter os impactos econômicos do novo coronavírus no País são suficientes para levar as contas públicas a um rombo de R$ 219,7 bilhões. Segundo apurou o Estadão/Broadcast, as novas projeções para o desempenho da economia em 2020 devem drenar R$ 25 bilhões em receitas dos cofres da União, enquanto as ações adotadas pela equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, resultam em uma despesa adicional de ao menos R$ 33,1 bilhões.

Os impactos não param por aí, uma vez que o governo ainda pode precisar reforçar o caixa do Ministério da Saúde num momento que os casos de covid-19 ainda crescem em ritmo exponencial no Brasil. Além disso, algumas medidas anunciadas, como o pagamento dos primeiros 15 dias de auxílio-doença pelo INSS em caso de segurado contaminado pelo novo coronavírus, não tiveram o gasto potencial divulgado.

A equipe econômica também tem sofrido pressão para elevar os gastos, uma vez que o reconhecimento pelo Congresso Nacional do estado de calamidade pública no País dispensa o governo de cumprir a meta fiscal, que prevê déficit de R$ 124,1 bilhões. Técnicos já precisaram alertar internamente que a calamidade não dá “salvo conduto para gastar ou deixar de arrecadar” e têm pedido cálculos de impacto mensal de cada proposta e sugestão de medida compensatória.

Nesta sexta-feira, 20, em coletiva para apresentar o relatório do Orçamento, o secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, explicitou a mensagem e defendeu o teto de gastos, mecanismo que limita o avanço das despesas à inflação. “Mantemos na íntegra o teto de gastos. Não há mudança no teto de gastos com esse reconhecimento da calamidade”, afirmou.

Até agora, a equipe econômica reconhece um déficit de R$ 161,623 bilhões em 2020. O número representa o quanto as despesas vão superar as receitas este ano. O valor é bem maior do que a meta, mas ainda se baseia em parâmetros velhos, quando eram esperados um crescimento de 2,1% na atividade este ano e um valor médio de US$ 52,70 no preço do barril do petróleo no mercado internacional. Essas previsões derreteram para 0,02% e US$ 41,87 respectivamente, e o resultado será menos dinheiro ingressando no caixa da União.

Segundo apurou a reportagem, o novo parâmetro de PIB deve tirar cerca de R$ 20 bilhões da previsão de receitas da União, enquanto o preço menor do petróleo afetará em R$ 10 bilhões a receita bruta com royalties (desse valor, R$ 5 bilhões desfalcarão os cofres federais, e o restante deixará de ir para os Estados).

Do lado da despesa, o governo já anunciou um aumento de R$ 3,1 bilhões nos gastos com o Bolsa Família, para colocar dentro do programa 1,2 milhão de famílias que hoje estão na fila de espera, e outros R$ 15 bilhões para conceder um auxílio emergencial de R$ 200 mensais a trabalhadores informais e autônomos que forem afetados pela crise. Com a menor circulação de pessoas, por recomendações sanitárias, a demanda por bens e serviços tem diminuído bastante, e esses trabalhadores são os mais vulneráveis por não contarem com uma rede de proteção.

O governo também vai gastar R$ 10 bilhões com uma compensação aos trabalhadores da iniciativa privada que tiverem jornada e salários reduzidos durante a crise. Outros R$ 5 bilhões serão investidos numa antecipação de R$ 200 para pessoas com deficiência que ainda estão na fila de espera do benefício assistencial de baixa renda, o chamado BPC.

Waldery disse que o governo vai tentar recompor algumas receitas que precisaram ser retiradas do Orçamento, como os R$ 16,2 bilhões que seriam obtidos com a privatização da Eletrobras. O projeto de lei que abre caminho para a operação ainda não foi aprovado no Congresso. “Continuaremos trabalhando para, tão logo possível seja feita a privatização da Eletrobras”, afirmou.

Segundo o secretário, a equipe econômica vai divulgar periodicamente o “status fiscal” da União diante das medidas adotadas para frear a crise. Ele não detalhou qual será a frequência desse anúncio.

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Brasil entra em estado de calamidade pública por covid-19

Decreto foi aprovado nesta sexta-feira por senadores e publicado no Diário Oficial da União; situação vale até o fim do ano

Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 13h01

BRASÍLIA -O Congresso Nacional publicou no Diário Oficial da União, nesta sexta-feira, 20, o decreto de calamidade pública no País. O pedido,feito pelo governo do presidente Jair Bolsonaropara permitir aumento de gastos no combate ao novo coronavírus, foi aprovado por deputados e senadores.Até quinta-feira, 19, os dados apontavam sete mortes pela covid-19 no Brasil.

É a primeira vez que o Brasil entrará em estado de calamidade desde o início dos efeitos da Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2000. O decreto não depende de sanção presidencial e passará a ter força de lei, estabelecendo a calamidade pública até o fim deste ano.

No Senado, aproposta foi aprovada nesta sexta-feira, 20, em uma sessão virtual - a primeira da história nesse formato. O Senado desenvolveu um sistema para votar projetos emergenciais remotamente durante a crise e afastar o risco de disseminação da doença. Desde semana passada, diversas reuniões presenciais no Congresso foram canceladas.

Foram 75 votos favoráveis, dados verbalmente um a um, como era antigamente antes da instalação de painéis eletrônicos no Congresso. Não houve votos contrários. O aplicativo de votação automática para as reuniões remotas ainda não ficou pronto.

Com o decreto, o governo não será mais obrigado a cumprir a meta de resultado primário para o ano, ou seja, a de um déficit de R$ 124,1 bilhões. Isso significa que não precisará bloquear recursos para fechar as contas nesse patamar. Estimativas mais atuais apontam rombo de aproximadamente R$ 200 bilhões em 2020 por causa dos efeitos da pandemia. 

O Ministério da Economia esclareceu esta semana que a medida só impacta a meta fiscal e não livra a União de cumprir o teto de gastos (mecanismo que proíbe que as despesas cresçam em ritmo superior à inflação) ou a regra de ouro (que impede o financiamento para pagamento de gastos correntes, como salários).

O decreto estabelece a criação de uma comissão de deputados e senadores para acompanhar as ações desenvolvidas durante o estado de calamidade. O colegiado deverá realizar uma audiência pública com o ministro da Economia, Paulo Guedes, a cada dois meses. A reunião poderá ser feita à distância.

Senador com coronavírus participa de sessão remota para votar decreto

Mesmo diagnosticado com coronavírus, o senador Prisco Bezerra (PDT-CE) participou da sessão remota do Senado, nesta sexta-feira, 20, para votar o decreto de calamidade pública.

O parlamentar confirmou que está com a doença na quinta-feira, 19. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e o senador Nelsinho Trad (PSD-MS) também estão com a doença, mas não participaram da sessão. Trad está hospitalizado.

"Eu não poderia deixar de participar deste momento histórico e meu voto é sim", disse Bezerra, agradecendo aos colegas por desejarem melhoras. O senador está em quarentena.

Outros parlamentares também estão em isolamento, mesmo sem registro da doença. Um deles é Jorginho Mello (PL-SC), que também participou da sessão virtual. Ele está em quarentena após ter participado da comitiva presidencial nos Estados Unidos e tido contato com autoridades diagnosticadas com coronavírus.

Sem decreto de calamidade, bloqueio seria de R$ 37,5 bilhões

O governo informou nesta sexta-feira, 20,que se o decreto de calamidade pública não fosse aprovado pelo Congresso Nacional, seria necessário efetuar um bloqueio de R$ 37,553 bilhões em gastos no orçamento neste momento.

O contingenciamento seria necessário para tentar atingir a meta de um déficit primário (despesas maiores do que receitas, sem contar juros da dívida pública) de até R$ 124,1 bilhões em 2020. A meta consta na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) deste ano.

Nesta sexta-feira (20), porém, o Senado Federal aprovou o projeto de decreto legislativo que reconhece o estado de calamidade pública no país em razão da pandemia de coronavírus. Com isso, o governo não precisará mais cumprir a meta fiscal e poderá efetuar os gastos necessários para combater a pandemia do coronavírus, e seus efeitos na economia.

Sob estado de calamidade pública por conta do novo coronavírus, o rombo das contas públicas está sendo inicialmente estimado em R$ 161,623 bilhões em 2020, informou há pouco o Ministério da Economia.

A pasta ressaltou, porém, que as demais regras fiscais, como o teto de gastos (que limita o avanço das despesas à inflação) e a regra de ouro (que impede a emissão de dívida para bancar despesas correntes, como salários), estão mantidas e precisam ser respeitadas.

O déficit ainda pode ser maior neste ano porque as projeções de receitas e despesas ainda consideram parâmetros macroeconômicos defasados. A estimativa de crescimento da economia, por exemplo, estava em 2,1%. O governo já indicou, porém, que vai revisá-la para 0,02%, como antecipou o Estadão/Broadcast. Um relatório extemporâneo pode ser lançado para ajustar as estimativas de gastos e arrecadação.

O secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, afirmou nesta quinta-feira (19) que as estimativas para o déficit das contas do governo, em 2020, serão "sempre revisadas e informadas ao mercado e ao público em geral". Ele não explicitou, porém, em qual periodicidade isso será feito.

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