Pacote corta salário e aumenta impostos

Governo procura piscinas de helicóptero em bairros nobres para tentar obrigar moradores[br]a pagar mais impostos

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2011 | 00h00

GENEBRA

O plano de austeridade impostos sobre os gregos exigirá da população, empresas e da administração pública uma verdadeira transformação de mentalidade nos próximos anos. Na prática, as medidas significarão que os gregos pagarão um mês a mais de seus salários em impostos. Mas, acima de tudo, forçará contribuintes e o Estado a criar e manter uma nova relação.

Com 12 milhões habitantes, a Grécia soma oficialmente apenas 5 mil cidadãos que admitem que ganham mais de US$ 150 mil por ano. As estimativas do governo é de que, na realidade, o número de cidadãos com renda superior a US$ 150 mil seria de pelo menos 60 mil pessoas e que, no total, há US$ 65 bilhões por ano em arrecadação que não conseguem entrar nos cofres do Estado.

Entre as medidas anunciadas pelo governo estão mais impostos sobre itens de luxo, como iates, casas com piscinas e carros. A esperança do governo é de arrecadar apenas com isso mais de 2,3 bilhões só em 2011.

Piscinas escondidas. Apenas 300 casas do bairro nobre de Atenas, o Kifissia, admitem ter piscinas. Na realidade, seriam mais de 20 mil. O governo começou a usar helicópteros para identificar as piscinas. Mas, de um dia para o outro, explodiram as vendas de materiais para cobrir piscinas, num país conhecido por seu céu azul. A cobertura mais vendida tem sido justamente a que, vista do alto, pode ser confundida como um gramado.

Um número de telefone foi colocado à disposição daqueles que aceitam denunciar a evasão fiscal por parte de um conhecido, vizinho ou inimigo. Mais de 100 médicos já foram denunciados, desde que a hotline entrou em vigor no início do ano.

Outra reforma será a da aposentadoria. Uma série de profissões terá de ter suas condições de trabalho equiparadas aos demais trabalhadores. Hoje, 600 profissões diferentes, entre eles radialistas e padeiros, tem o direito de se aposentar com 50 anos.

Pela nova lei, todos se aposentarão com 65 anos de idade, o que reduzirá gastos com pensões em mais de 1 bilhão por ano até 2015.

Cortes. Mas o pacote também significará cortes dolorosos para milhares de pessoas. Os salários públicos serão reduzidos em 15%. 150 mil postos de trabalho serão suprimidos na administração pública, com a esperança de economizar 2 bilhões até 2015.

Os investimentos feitos pelo Estado serão reduzidos em 850 milhões por ano. O setor de saúde será um dos mais afetados, com cortes de 310 milhões por ano. Fornecedores de hospitais estão sendo pagos com títulos do Tesouro grego, em uma espécie de reconhecimento de que o Estado está quebrado e que apenas pagará suas dívidas em meados da década. No total, o governo já usou papéis da dívida em 5 bilhões para pagar seus fornecedores.

No setor militar, os cortes serão de 300 milhões em média por ano, até 2013.

Em seu ultimo discurso antes da votação do pacote de arrocho, o primeiro-ministro George Papandreou adotou um tom de tragédia para justificar seu plano. "O colapso econômico significaria que teríamos de fechar hospitais, escolas e cortar pensões em até 80%", disse.

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