Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Pacote de estímulos do BCE virá, mas nos termos da Alemanha

Banco Central Europeu deve lançar um grande programa de afrouxamento quantitativo nesta quinta-feira, mas governo alemão irá ditar as regras e exigir o compartilhamento de riscos entre os países

Economist.com

21 de janeiro de 2015 | 09h53

 LONDRES - Quando o conselho administrativo do Banco Central Europeu (BCE) se reunir nesta quinta-feira, dia 22, uma decisão histórica será tomada. Entre os bancos centrais, apenas o BCE se absteve de um grande programa de afrouxamento quantitativo exigindo a criação de dinheiro para comprar obrigações soberanas com o objetivo de incentivar o crescimento e a inflação. 

As motivações econômicas para o afrouxamento quantitativo na zona do euro são irresistíveis: a fraca recuperação econômica que se seguiu à recessão de mergulho duplo na Europa está vacilando; a inflação entrou em território negativo e as expectativas de inflação para o longo prazo também caíram de maneira preocupante. O presidente do BCE, Mario Draghi, parece determinado a adotar algum tipo de afrouxamento quantitativo, mas terá de fazer concessões na forma de compartilhar os riscos entre os bancos centrais nacionais da zona do euro para que sua política econômica seja adotada.

Os especialistas esperam um programa de compra de obrigações soberanas de cerca de € 500 bilhões (US$ 580 bilhões) a ser anunciado nesta quinta-feira. Qualquer coisa abaixo disso vai provavelmente desapontar os mercados - que já esperam uma jogada do BCE adotando o afrouxamento quantitativo, provocando o enfraquecimento do euro, por exemplo. 

A necessidade de comprar obrigações do governo decorre da escala de intervenção necessária por parte do BCE. O banco central quer aumentar o balanço patrimonial do sistema do euro (formado pelo BCE e os 19 bancos centrais da zona do euro) de € 2,2 trilhões para € 3 trilhões. Desde o ano passado o banco já adota uma forma de afrouxamento quantitativo por meio da compra de ativos privados, principalmente obrigações cobertas, uma forma de dívida particularmente segura emitida pelos bancos, e também alguns valores mobiliários vinculados a ativos. 

As compras desse tipo podem chegar a cerca de € 200 bilhões no decorrer de um ano. Mas o montante de obrigações cobertas válidas e disponíveis, de aproximadamente € 1 trilhão, é pequeno diante do valor do endividamento soberano, que supera € 6 trilhões. Houve momento em que pareceu que o BCE poderia comprar obrigações corporativas convencionais, mas parece ter decidido que o mercado carece de liquidez para operar nessa escala.

Mas um grande programa de compra de obrigações é difícil de organizar numa união monetária onde há 19 governos nacionais em lugar de um governo federal, com grande variação em sua credibilidade, que vai de AAA no caso dos alemães até a falta de credibilidade dos gregos. Tudo indica que Draghi terá de ceder diante das estipulações apresentadas por Jens Weidmann, diretor do Bundesbank alemão, para conseguir a aprovação do afrouxamento quantitativo. 

Principalmente, as compras de dívidas soberanas não serão feitas de acordo com o habitual arranjo de compartilhamento de risco do BCE, dentro do qual os 19 bancos centrais nacionais da zona do euro compartilham proporcionalmente as eventuais perdas de acordo com a dimensão de suas economias. Normalmente, o Bundesbank arcaria com um quarto das eventuais perdas do BCE. Mas, nesse caso, cada banco central deve ser o principal responsável pela compra das obrigações do próprio país, arcando com as eventuais perdas como se fossem suas.

Isso é um bom acordo para o Bundesbank, porque as obrigações alemãs são muito seguras. Mas trata-se de uma ruptura em relação aos precedentes e algo que será visto como insatisfatório por muitos membros do conselho administrativo. A concessão é necessária porque, nessa ocasião, a chanceler alemã Angela Merkel está defendendo Weidmann. Trata-se de uma situação bem diferente do conflito anterior entre Weidmann e Draghi em 2012, envolvendo a política (não utilizada) de "transações monetárias diretas", um compromisso condicional para a compra de obrigações de países sitiados pelos mercados, algo que deu força à promessa de Draghi de fazer "tudo que for necessário" para salvar o euro. 

Merkel teme que o afrouxamento quantitativo possa levar governos irresponsáveis, como os de Itália e França, a adiar ainda mais as reformas estruturais indispensáveis. A chanceler também teme que as compras feitas por meio da abordagem habitual de compartilhamento de risco criaria na prática os "eurobonds", obrigações emitidas conjuntamente com risco compartilhado mutuamente entre os países membros, situação à qual ela se opõe vigorosamente.

Também será necessário encontrar uma maneira de lidar com o problema da Grécia, que pode optar nas eleições de 25 de janeiro por um novo governo que busque alguma forma de alívio na cobrança da dívida, tentando voltar atrás nas reformas. Uma solução possível pode ser estipular que as obrigações soberanas sem credibilidade só sejam compradas se o país envolvido respeitar os termos do programa de resgate da zona do euro (o programa aplicado à Grécia deve chegar ao fim no final de fevereiro).

Talvez os mercados não se atenham a tais detalhes sujos em meio à euforia por saber que o afrouxamento quantitativo está finalmente chegando, injetando dinheiro na economia da zona do euro e sinalizando o compromisso do BCE de impedir a queda da inflação. A maioria dos membros do conselho do BCE defenderá contrariada que é melhor obter um afrouxamento quantitativo considerável, de acordo com esses moldes, do que uma dose muito menor ligada aos termos habituais de compartilhamento do risco. 

O efeito do afrouxamento quantitativo adotado pelo conselho também pode ser mais forte, como se espera agora, se as obrigações compradas forem conservadas até atingirem a maturidade. Mas um pacote nesses termos criaria um precedente infeliz, pois seria a encarnação da própria fragmentação dentro da zona do euro que o BCE tenta combater. Isso vai aumentar o perigo de o tão esperado programa de afrouxamento quantitativo ter chegado tarde demais para impedir o deslize rumo a uma mentalidade deflacionária./TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

© 2015 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados.

Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

Tudo o que sabemos sobre:
theeconomisteuropaalemanha

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.