Pacote de Obama não é ousado, mas é viável

Obama assume a presidência dos Estados Unidos na terça-feira já com um pacote de medidas de alívio fiscal e investimentos de US$ 825 bilhões entregue ao Congresso. Tem pressa. Está governando antes de governar. Sabe que a economia americana mergulhou na recessão e arrasta o mundo com ela.Não é um plano ideal, apenas 3% do PIB, mas é o único viável e realista no momento. Criticam-no por não ser ousado. Como prometeu na campanha presidencial. Mas Obama sabe que precisa da aprovação do Congresso até meados de fevereiro, quando entra em recesso. E, a cada dia que passa, aumenta o desemprego, já de 2,5 milhões no ano passado; a demanda recua e a recessão se aprofunda. Ele poderia ter proposto um conjunto mais ambicioso de obras públicas, mas não há muitos projetos prontos para serem executados. Faltou iniciativa nos dois mandados do governo anterior que se acomodou, satisfeito com um crescimento médio de 3,5% a 4%. PLANO PODE MELHORARO plano pode ser acrescido de novas propostas, estas sim mais ambiciosas. Isso poderia ser feito diretamente ou por meio da bancada democrata,que está pedindo mais desonerações e estímulos tributários, além dos US$ 250 bilhões destinados agora. Lawrence Summers, que lidera a equipe de transição, responde às criticas dizendo que o governo está aberto a ideias e sugestões. Na verdade, com o pacote, o governo poderá contar com mais. Será US$ 1,175 trilhão, pois restam utilizar US$ 350 bilhões do socorro ao sistema financeiro que o Congresso aprovou há alguns meses a pedido de Bush.BERNANKE CRITICABen Bernanke, presidente do Fed (banco central americano), criticou a intenção de Obama de praticar antes uma política fiscal mais agressiva, mais gastos, em lugar de continuar destinando recursos aos bancos, às instituições financeiras e às seguradoras. Ainda nos últimos dois dias, o Citibank e o Bank of America foram ao governo. Não se sabe se outros mais irão.No pacote do novo governo, os US$ 350 bilhões continuarão sendo destinados a isso, embora a própria equipe econômica admita que talvez seja preciso mais reforço. Isso, no entanto, será feito com outra operação a ser proposta ao Congresso. Os US$ 825 bilhões serão aplicados rapidamente em obras públicas, na criação de emprego, no auxílio aos desempregados, na educação, na assistência médica, na saúde, nos mutuários com risco de perder suas casas.No fundo, a equipe econômica trabalha com outro valor, US$1,2 trilhão; mencionou-o, mesmo, mas logo o retirou de circulação devido a reações do Congresso. Continua em pauta, porém. Agora, é projetar obras, como a China faz. O importante é que, com esse pacote, Obama deixou bem claro que pretende fazer já a partir dos primeiros dias de governo: usar dinheiro do governo para estimular ao máximo a demanda interna e criar empregos."Temos de por de novo o povo a trabalhar", declarou na sexta-feira, ao falar a operários de uma indústria.Temos de criar empregos, no mínimo 3,5 milhões nos próximos dois anos.MELHORA, MAS VAI DEMORARO novo presidente procurou, na sexta-feira, evitar otimismo excessivo. Nada de dizer que está resolvido "A recuperação não virá da noite para o dia. Mesmo com essas medidas que estamos tomando, as coisas podem piorar antes de melhorar. Eu quero que todos sejam realistas." Vai demorar, mas quanto? Um trimestre, dois? Os economistas estão cautelosos.Não se pode esperar muito em curto prazo, dizem. Os primeiros efeitos só começarão a ser sentidos no segundo trimestre, tempo necessário para que os recursos dos incentivos tributários cheguem às mãos dos consumidores e eles voltem a comprar. Isso poderá ser apressado se o governo conseguir reconquistar a confiança perdida no último ano, quando a crise se instalou sob o olhar complacente da equipe de Bush. SOZINHO É POUCOObama mostra que está convencido de que sua prioridade concentra-se na área econômica e não na de política internacional.A crise interna pode ser fatal, com terrível repercussão mundial.O seu plano está aí. Não é ambicioso, nem ousado. É simples, pragmático,realista, viável. É o começo.E esse começo, ao contrário dos governos anteriores, começa no começo e não alguns meses depois de sua posse. Na verdade, mesmo antes de assumir. Para ser exato,iniciou o governo - não a governar - na quinta-feira, quando anunciou o seu plano e o expôs a crítica da sociedade, dos economistas e do Congresso. Ele está aí, antecipado, para ser debatido e aprovado. Os seus efeitos positivos na abalada economia mundial não vão depender só de Obama, nem somente dos Estados Unidos. Vão depender de que os outros países desenvolvidos sigam o mesmo caminho com políticas fiscais recomendadas até pelo Fundo Monetário Internacional, que estimulem seus mercados, para recompor o que está sendo destruído pela recessão.

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