Alex Brandon/AP
Alex Brandon/AP

Pacote de US$ 2 trilhões é significativo, mas não evitará a recessão

Economistas dizem que dois dos principais problemas permanecem: consertar a crise da saúde e dar dinheiro às pessoas a tempo.

Heather Long, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 11h00

O Congresso e a Casa Branca acabaram de aprovar um pacote de ajuda de US$ 2 trilhões para combater efeitos do coronavírus na economia – é o maior pacote na história americana até agora.

A boa notícia é que a maior parte do dinheiro será destinada aos trabalhadores, pequenos empresários, hospitais e governos estaduais e locais. A má notícia é que não será suficiente para impedir uma recessão. E é uma questão ainda em aberto se o país poderá evitar uma depressão econômica, coisa que não se vê desde a década de 1930.  "De qualquer forma, esse é um enorme pacote de estímulos. Uma coisa que ele não pode parar é a recessão que está se aproximando", disse James McCann, economista global da Aberdeen Standard Investments.

Olhando para trás e para Grande Recessão, os economistas consideram a resposta do Congresso muito lenta, mesquinha e focada nas grandes empresas de Wall Street. Muitos analistas dizem que o Congresso merece algum crédito por fazer melhor desta vez. Esse pacote de ajuda é mais do que o dobro dos US$ 830 bilhões que o Congresso aprovou em 2009. Ele surgiu em poucos dias e é muito mais direcionado a uma parcela centralizada da população.

Aproximadamente um quarto do dinheiro será destinado a grandes empresas, incluindo bilhões destinados à Boeing e às companhias aéreas, mas os americanos de classe média e baixa renda estão na lista para receber cheques de US$ 1,2 mil (a quantia será um pouco maior para aqueles que cuidam de crianças). É provável que os pequenos empresários obtenham acesso a doações de US$ 10 mil e milhões em empréstimos, e há dinheiro adicional reservado para os desempregados.

Mas os economistas dizem que dois dos principais problemas permanecem: consertar a crise da saúde e dar dinheiro às pessoas a tempo.

Constance Hunter, economista-chefe da KPMG, prevê que leve pelo menos de 6 a 10 semanas para que o governo consiga distribuir uma quantia significativa do dinheiro para a população. É muito tempo para trabalhadores demitidos e proprietários de pequenas empresas sem dinheiro para esperar. Isso torna menos provável que eles se recuperem rapidamente. "Não há um botão mágico de reinício para a economia", disse Constance. "Antes que o dinheiro chegue, haverá muitos danos colaterais à economia. Isso dificultará que ela se restabeleça." 

O país está optando por paralisar grande parte da economia para salvar vidas, talvez até centenas de milhares de vidas, segundo uma estimativa. Os Estados Unidos precisam controlar a pandemia antes que a vida cotidiana e os negócios possam voltar a algo remotamente normal. Ainda é uma grande incógnita quanto tempo isso levará. 

Fim do isolamento

O presidente Trump apresentou a ideia de que as pessoas retornem ao trabalho por volta de 12 de abril. No entanto, as autoridades de saúde pública não pensam que isso seja uma previsão realista e voltar muito cedo pode causar um segundo aumento nos casos e mortes por coronavírus, forçando mais paralisações.

O líder do Senado, Mitch McConnell, republicano do Kentucky, declarou na quarta-feira que "esse nem sequer é um pacote de estímulo, é um socorro de emergência". Economistas concordam com isso. Esses US $ 2 trilhões não se destinam a impulsionar a economia, mas, sim, a tentar compensar as pessoas pelo que poderia ser US$ 2,5 trilhões em negócios e salários perdidos nas próximas semanas. E esse é o melhor cenário. As perdas serão mais profundas se a pandemia durar até junho.

Para evitar uma depressão, os pagamentos de ajuda precisam chegar aos trabalhadores e empresários com rapidez suficiente para evitar uma reação em cadeia em que uma pessoa para de trabalhar e desencadeia outra falência e outra perda.

James Bullard, um economista notável e chefe do Federal Reserve Bank de St. Louis, apresentou uma previsão terrível do que está por vir para o país nos próximos meses: ele estima que 46 milhões de americanos fiquem desempregados (30% dos trabalhadores) e a produção econômica tenha um declínio sem precedentes de 50%.

Mas Bullard está esperançoso de que a economia se recupere no segundo semestre de 2020. Ele compara isso a dirigir um carro a 100 km/h na estrada e depois ter de desacelerar para passar por uma pista com obras. A esperança é que o carro possa retomar rapidamente a velocidade anterior depois desse trecho, mas isso não é garantido. "Não basta o Congresso aprovar algo ou o Fed colocar novos programas em prática para preservar a liquidez, é, na verdade, a execução desses programas" o que importa, disse ele. 

Para verificar a realidade do que está acontecendo com a economia americana, ligue para um pequeno empresário. Quase todos lhe dirão que os negócios estão em severo declínio - ou paralisados - e eles não têm ideia de quando isso vai mudar. Nos últimos dias, a maioria desses proprietários conversou com todas as pessoas possíveis - bancos, seguradoras, políticos, amigos, clientes, funcionários dos serviços de apoio às pequenas empresas - sobre a obtenção de um empréstimo ou auxílio. Mas todo mundo está esperando para ver o que o Congresso faz primeiro, deixando os empresários com medo de ficar sem dinheiro antes que a ajuda chegue.

John Russell fundou a pequena empresa de tecnologia Webconnex em 2008, mas ele diz que essa crise é ainda mais difícil do que a de 12 anos atrás, porque é muito incerto quando isso terminará ou se a recuperação será rápida ou lenta. Sua empresa produz um software acessível para captação de recursos e eventos e processou quase US $ 1 bilhão em pagamentos com cartão de crédito no ano passado. Quase todos os eventos de 2020 foram cancelados, deixando quase nenhum dinheiro como receita.  “Se nós não recebermos ajuda por meio do pacote aprovado no Congresso, não temos outra saída a não ser fazer demissões em massa”, disse Russel, um cofundador da Webconnex, que emprega 41 pessoas. “Nossa equipe é como nossa família. Para nós, 100% do nosso foco está em garantir esses empregos.”

Russel fez cortes no orçamento. Despesas com publicidade e cartões de crédito foram eliminadas. A empresa conseguiu dar fim ao contrato de aluguel em Sacramento que vai até o fim do mês. Todas as viagens foram canceladas. Essas decisões já estão reverberando na economia, cortando rendimentos de outros negócios. Se ele tiver que recorrer às demissões, assim como vários restaurantes e hotéis tiveram que fazer, Russel sabe que a dor será ainda maior. Mas um empréstimo robusto parece arriscado nesse momento por conta das incertezas.

É uma história semelhante para muitos dos Estados e cidades que foram duramente atingidos pela pandemia até agora. O governador de Nova York, Andrew Cuomo, democrata, está furioso com o último pacote do Congresso, dizendo que cerca de US$ 4 bilhões em ajuda não são suficientes, já que o estado tenta combater o vírus e reforçar o número de profissionais de saúde e segurança durante a crise. "Estou dizendo que esses números não estão corretos", disse Cuomo a repórteres.

Não existe um manual econômico sobre como lidar com essa crise de saúde. O Congresso e a Casa Branca fizeram uma primeira tentativa de ajuda, mas a maioria dos economistas prevê que outras medidas serão necessárias. E a única coisa que realmente vai mudar isso é acabar com a pandemia. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.