Elói Corrêa/Governo da Bahia
Elói Corrêa/Governo da Bahia

Pacote do governo ignora ferrovia em construção na BA

Ferrovia Oeste-Leste, que já consumiu R$ 2,7 bilhões, ficou de fora do plano de concessões lançado esta semana em Brasília

André Borges, O Estado de S. Paulo

10 de junho de 2015 | 22h15

BRASÍLIA - O governo optou por engordar o pacote de concessões com um ferrovia de R$ 40 bilhões até o Peru, mas ignorou uma ferrovia em obras na Bahia que já custou R$ 3 bilhões dos cofres públicos.

Nos discursos oficiais de terça-feira não houve espaço para nem sequer uma citação sobre a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), empreendimento de 1.527 km tocado aos trancos e barrancos pela Valec no Estado da Bahia. O silêncio em torno do projeto e sua ausência no pacote decepcionou o ministro da Defesa, Jaques Wagner, que por oito anos foi governador do Estado baiano. “Estranhei essa ausência, fiquei surpreso. Não tive oportunidade de conversar sobre o assunto, mas gostaria muito que o projeto tivesse entrado no programa”, disse ao Estado. A expectativa de Jaques Wagner é de que o empreendimento possa fazer parte de uma futura rodada de concessões. “Essa é a maior obra de infraestrutura da Bahia. Se não temos o dinheiro para fazer a obra, o melhor seria entrar na concessão. Mas sabemos que para isso é preciso fazer antes uma avaliação, um estudo de viabilidade econômica.” 

O ex-ministro dos Transportes César Borges, que comandou o gabinete do governo baiano, não escondeu certa decepção. “Temos de lutar para incluir a Fiol no pacote. Essa primeira etapa das concessões é a de planejamento, mas outras virão”, disse Borges, que hoje é vice-presidente de serviços e infraestrutura do Banco do Brasil. “A Fiol poderá entrar no programa. Tenho fé nisso, e a Bahia tem o Senhor do Bonfim.” 

Antes de apostas bioceânicas, a ferrovia da Bahia é o empreendimento que, de fato, foi iniciado pelo governo com a pretensão de concretizar o plano de integração logística no País. Com seu traçado de Figueirópolis, no Tocantins, a estrada de ferro se conectaria à Ferrovia Norte-Sul e, desse ponto, avançaria sentido leste, cortando todo o Estado da Bahia, até chegar ao litoral de Ilhéus, onde está prevista a construção de um porto. 

As obras da ferrovia começaram em 2010, do litoral, mas mergulharam num emaranhado de problemas, com contratos superfaturados apontados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e irregularidades no licenciamento ambiental. Por dois anos, ficaram praticamente paradas. Os desarranjos cobraram seu preço. Prevista para ficar pronta em julho de 2013, hoje a Fiol é uma incógnita, sem data de conclusão. Dos R$ 4,2 bilhões previstos para serem aplicados na ferrovia, R$ 2,7 bilhões já foram pagos. Com atrasos e aditivos que brotaram no caminho, o preço total já se aproxima de R$ 5 bilhões. 

Hoje a situação em seus canteiros de obra é de incertezas. Nos primeiros 500 km da ferrovia, entre Ilhéus e Caetité, a execução chega a cerca de 60%, mas um dos quatro lotes do trecho está paralisado. O segundo bloco de 500 km que avança até Barreiras tem apenas 6% de execução e empreiteiras reduziram o ritmo, por conta de atrasos no repasse de recursos para a Valec pagar suas contas. Pior é a situação do terceiro bloco de 500 km, que avançaria até Figueirópolis: nem começou. 

O Estado questionou o Ministério do Planejamento sobre a ausência da Fiol nos planos de concessões. A pasta informou que as perguntas tinham de ser feitas ao Ministério dos Transportes. O ministério declarou apenas que “está com estudo de melhoria de traçado em andamento” nos lotes finais da ferrovia e que “o trecho vai para licitação de obras após o atendimento desses quesitos”. 

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