Paulo Giandalia/Estadão
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Pacote é só o primeiro passo, diz Rogoff

Para economista, plano do BCE surpreendeu pelo tamanho, mas ainda não é suficiente

FERNANDO DANTAS, ENVIADO ESPECIAL à Suíça, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2015 | 02h05

DAVOS - Para Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), o programa de relaxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês) anunciado nesta quinta-feira, 22, pelo Banco Central Europeu (BCE) foi uma surpresa positiva pelo seu tamanho e características, mas é apenas um primeiro passo na difícil estrada de fazer a zona do euro sair da estagnação com risco deflacionário. Segundo Rogoff, mesmo sendo um passo importante, não é suficiente. "Olhe o que o Japão fez e não foi suficiente; a zona do euro vai acabar fazendo mais".

Em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, Rogoff afirmou que o pacote do BCE foi um pouco melhor do que ele esperava. "Acho que eles realmente foram um pouco além das expectativas de mercado - em geral eles fazem o contrário", disse, referindo-se ao tamanho do programa do BCE, de compra de títulos, incluindo papéis de governos da zona do euro, ao ritmo de 60 bilhões por mês de março de 2015 até o fim de setembro de 2016.

"É o começo de uma longa jornada. Isso não vai resolver os problemas da Europa nem mesmo vai resolver a questão de elevar as expectativas de inflação até 2%. Eles têm de fazer muito mais. Mas era o máximo que eles poderiam caminhar com um passo só", comentou Rogoff. O economista acha que o programa vai funcionar mais pelo canal do câmbio (depreciando o euro, o que aumenta a competitividade internacional dos países da moeda única), com impacto bem pequeno na inflação, que está muito baixa.

"Se o Banco Central Europeu (BCE) não tivesse feito isso, nós talvez víssemos a taxa de juros de países da periferia disparar, porque subitamente as pessoas iriam se perguntar se de fato o Draghi (presidente do BCE, Mario Draghi) iria fazer qualquer coisa que fosse preciso", acrescentou Rogoff.

Para o economista, as taxas de juros dos países da periferia do euro despencaram em antecipação ao QE. "O fato de que a Espanha está tomando emprestado por dez anos a uma taxa inferior à dos Estados Unidos é absurdo, mas é parte desta política", disse.

Limites. Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, por sua vez, disse não acreditar que o programa do Banco Central Europeu tenha um efeito decisivo para impulsionar a economia da zona do euro. Ressalvando que é a favor do QE europeu, Summers listou razões pelas quais a iniciativa na Europa deve ter menos efeito do que os programas similares realizados nos Estados Unidos desde a crise global.

Ele notou que os programas americanos funcionaram melhor quando as primeiras rodadas foram realizadas, tendo um elemento surpresa que é muito importante, ajudando a por em funcionamento mercados financeiros que ainda estavam disfuncionais e gerando efeitos através do canal relativamente desimpedido do mercado de capitais.

Na zona do euro, nenhuma dessas condições está presente. Não há o mínimo elemento-surpresa, depois de anos de programas desse tipo nos Estados Unidos e Japão e exaustivas discussões na Europa sobre a conveniência de fazê-los; o mercado financeiro europeu já foi normalizado há muito tempo, e o canal de crédito no continente é bancário, e não o mercado de capitais. O problema, explicou Summers, é que o sistema bancário europeu, apesar de funcional, está "entupido" por questões regulatórias.

Essa é uma queixa que se ouve muito em Davos. Segundo Ana Botín, presidente mundial do banco Santander, o grupo dos maiores bancos europeus dobrou o capital desde 2007, mas os ativos se mantêm aproximadamente no mesmo nível.

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