Pacote fiscal de Bush chega tarde, dizem especialistas

Medidas para reanimar economia começarão a ter efeito só no fim do ano

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

O pacote do governo George W. Bush para estimular a atividade econômica e o afrouxamento da política monetária pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) serão insuficientes para evitar um forte desaquecimento do país no primeiro semestre de 2008. Segundo analistas, as duas ações começarão a ter efeito prático no dia-a-dia dos americanos apenas entre o fim deste ano e o início de 2009. "São estímulos necessários, mas chegam tarde", sintetiza Christian Menegatti, economista-chefe para Estados Unidos do Roubini Global Economics (RGE) Monitor. "Já estamos em recessão, como mostraram dados recentes sobre emprego, vendas no varejo e construção de imóveis." O economista-chefe do Unibanco, Marcelo Salomon, explica que há um tempo para que medidas fiscais e monetárias se traduzam em números positivos. Uma redução (ou elevação) da taxa básica de juros, por exemplo, tem impacto no custo do crédito para o consumidor, na melhor das hipóteses, seis meses mais tarde. E isso varia de país para país. "O lado bom é que, nos Estados Unidos, as políticas monetária e fiscal costumam reagir com rapidez aos estímulos, pois a economia é flexível", diz Alessandra Ribeiro, economista da Tendências Consultoria. "O mercado de trabalho, por exemplo, não é tão regulado e burocrático como o do Brasil." Ainda assim, ela concorda com os colegas sobre o efeito prático das medidas para reanimar a atividade. "O mérito que elas têm é de fazer com que uma eventual recessão seja rápida", comenta. Então, o governo Bush demorou demais para agir? Os especialistas acham que não. Para eles, a rapidez da desaceleração econômica é que surpreendeu. "Nem mesmo os analistas projetavam uma deterioração tão profunda do mercado imobiliário e um impacto tão forte dessa deterioração no resto da economia", pondera Menegatti. "Ninguém conseguiu prever as ramificações da bolha imobiliária", completa Salomon. Os dados sobre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA mostram claramente a rapidez com que a situação piorou. A economia cresceu 3,8% no segundo trimestre de 2007, 4,9% no terceiro e, pelas projeções da Tendências, desacelerou para cerca de 1,5% ou menos no quarto. No primeiro trimestre deste ano, o ritmo, também segundo a Tendências, deve ter caído ainda mais, para a casa de 0,5%. Outras instituições financeiras são mais pessimistas. O banco de investimentos Goldman Sachs, um dos primeiros a prever recessão, projeta um crescimento negativo de 1% nos dois primeiros trimestres de 2008.Por isso, os analistas avisam que recuperação, mesmo, só a partir de 2009. "A atividade deve melhorar um pouco no segundo semestre deste ano, mas num ritmo insuficiente para compensar a queda do PIB nos dois primeiros trimestres", observa Menegatti. O presidente que assumir a Casa Branca no ano que vem terá à sua espera o grande desafio de recolocar a maior economia do planeta nos trilhos. FRASESChristian MenegattiEconomista do RGE Monitor"São estímulos necessários, mas chegam tarde"Alessandra Ribeiro Economista da Tendências Consultoria"O lado bom é que, nos Estados Unidos, as políticas monetária e fiscal costumam reagir com rapidez aos estímulos"

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