Helvio Romero/Estadão
Helvio Romero/Estadão

Padaria virou dívida com agiota

Clébio de Lima, 28 anos, e sua família sempre foram um exemplo para a comunidade. Ele foi o primeiro dos moradores do conjunto Vilares da Serra a entrar na faculdade. Arranjou um bom emprego e até comprou um carro. Casado e pai de dois filhos, inspirou outros moradores a acreditar que eles também poderiam um dia se formar. Depois de conseguir o diploma em Ciências da Computação, chegava a ganhar R$ 3 mil por mês - um bom salário para a realidade do Ceará, frisa ele. Até o início de 2014, as ofertas de empresas não paravam de chegar. Era possível até escolher onde trabalhar. 

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2015 | 10h48

Como tudo ia bem, na economia e na vida, ele decidiu realizar um sonho no ano passado: virar empreendedor. Usou a rescisão do último emprego e, com um sócio, abriu uma padaria numa avenida que fica a cerca de 500 metros de sua casa. O investimento era alto, mas ele acreditava no potencial da ideia. Sem condições de conseguir um empréstimo em um banco, resolveu se arriscar: para completar o investimento, tomou R$ 13 mil emprestados de um agiota. A microempresa, que tinha custos fixos mensais de R$ 10 mil, entre aluguel, funcionários e despesas como água e luz, não durou um ano com as portas abertas.

Nos primeiros meses, tudo parecia ir bem. Ele chegava a vender entre 300 e 400 pães por dia. Desde o início de 2015, as coisas começaram a piorar rapidamente. Além de a população ter menos dinheiro para gastar, chegaram dois concorrentes: de repente, o bairro, que não tinha padaria nenhuma, passou a ter três. Os resultados foram piorando ao ponto que, trabalhando 12 horas por dia, Lima não ficava com nada depois de arcar com as despesas. Com as contas em casa se avolumando, cortou o mal pela raiz. Em abril, fechou as portas definitivamente.

A primeira providência foi começar a reduzir seu endividamento - afinal, os juros cobrados pelos agiotas podem fazer a dívida dobrar em questão de meses. O carro foi consumido pelo negócio que não deu certo. Para não ter de arcar com o aluguel, esvaziou rapidamente o ponto. Parte dos equipamentos foi vendida, enquanto outra foi devolvida a fornecedores. Mas ainda sobrou um balcão refrigerado - no qual eram expostos bolos e tortas -, que está no tempo, ao lado de sua casa, diante de um terreno baldio. Ao entrar na casa da mãe, precisa se desviar do misturador de massa. “Ainda quero empreender, é meu objetivo. Mas tenho de planejar melhor.”

Não há vagas. No momento, o foco de Lima é pagar as contas e se livrar dos agiotas. Já começou a mandar currículos e a ligar para ex-colegas, mas a situação do mercado de trabalho piorou muito. Passa o dia na internet em busca de oportunidades, mas até agora não foi chamado para uma entrevista. Quase não há vagas e, quando uma aparece, há diversos candidatos na disputa. Diante da realidade atual, já aceitou que provavelmente ganhará bem menos do que R$ 3 mil quando uma oportunidade surgir.

Lima mora nos cômodos que construiu em cima da casa da mãe. É Elizete, 51 anos, quem segura as contas nesses tempos difíceis. Ela acredita que o estudo vai ajudar o filho a se recolocar. Professora do 3.º ano do ensino fundamental, ela primeiro criou o filho e depois formou-se em pedagogia e geografia. Fez especialização em psicopedagogia e se prepara para um mestrado. Elizete não acha que o fracasso do projeto da padaria foi em vão: “Não foi um sucesso, mas ficou a experiência”.

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