Pagamento móvel por aproximação começa a chegar

Tecnologia que permite fazer compras aproximando o smartphone de um terminal de vendas dá seus primeiros passos no País; para analistas, desconhecimento por clientes e lojistas e falta de vantagens 'palpáveis' emperram popularização do meio de pagamento

Thiago Sawada, O Estado de S. Paulo

27 Junho 2016 | 05h00

Em breve, esquecer a carteira em casa não será o começo de um dia problemático – ao menos se o celular estiver no bolso. Instituições financeiras e empresas de tecnologia começam a testar serviços de pagamento móvel no Brasil, tentando aposentar os cartões de plástico de crédito e débito.

É o caso, por exemplo, do Samsung Pay: o serviço da sul-coreana que usa o smartphone como cartão iniciou testes no País na última semana – a empresa não diz quando o serviço poderá ser usado por usuários comuns. Com propostas semelhantes já em ação nos EUA, Apple e Google ensaiam a chegada do Apple Pay e do Android Pay por aqui, sem datas de lançamento previstas.

A promessa de acabar com o cartão de plástico, porém, está longe de acontecer. O processo esbarra em questões de hábitos dos consumidores e a adição de mais um elo – as empresas de tecnologia – na cadeia de pagamentos, hoje dividida entre bancos, bandeiras e adquirentes – as chamadas “maquininhas”. 

As tentativas para acabar com o cartão de plástico não são recentes. “Faz dez anos que se fala que o cartão vai ser substituído pelo telefone, mas até pouco tempo não havia tecnologia para esta migração”, diz o diretor de cartões do Itaú Unibanco, Rubens Fogli. 

Bem perto. A nova tecnologia com potencial para deixar os cartões de plástico para trás responde por NFC – comunicação por proximidade, na sigla em inglês. O protocolo permite que aparelhos compatíveis transmitam dados entre si ao estarem bem perto um dos outros. Não se trata de algo novo – o NFC foi padronizado em 2003 –, mas seu uso cresceu à medida que se tornou padrão para o pagamento digital, sendo embutido em celulares e incentivado pela expansão dos serviços de Apple, Samsung e Google.

A forma de pagamento é simples, e funciona mesmo se o smartphone estiver offline. Para começar, o usuário deve cadastrar em um app os dados de seu cartão. Na hora da compra, a autenticação é feita no smartphone, por meio de senha ou impressão digital. A operação acaba ao aproximar o celular de um terminal habilitado com NFC. 

Nos Estados Unidos, essa “nova fase” dos serviços de pagamento móvel é recente: o Apple Pay chegou ao mercado em outubro de 2014, enquanto Samsung e Google lançaram seus serviços no país em setembro de 2015. Procurados pelo Estado, Apple e Google não quiseram se pronunciar. Já a Samsung diz ter 5 milhões de usuários do Samsung Pay nos EUA e na Coreia do Sul, movimentando US$ 500 milhões nos primeiros seis meses de operação. 

O mercado americano ainda é pequeno: segundo a consultoria eMarketer, no ano passado 23,2 milhões de pessoas movimentaram cerca de US$ 8,7 bilhões nos EUA por meio de pagamentos com smartphones – o que representa apenas 0,2% dos US$ 4,35 trilhões estimados em transações feitas em loja no mesmo período. O dado da eMarketer, porém, inclui pagamentos feitos via apps. Mas o potencial é alto: a consultoria estima que, em 2019, as transações nos EUA saltem para US$ 210,5 bilhões, com 70 milhões de usuários. 

Entraves. Para chegar até lá é preciso superar diversas barreiras: a primeira é tornar o NFC conhecido. Segundo estudo da consultoria Accenture feito com 4 mil pessoas nos EUA e no Canadá, mais da metade dos consumidores já sabem que o telefone pode ser usado como dispositivo de pagamento – só 8%, porém, utilizam esses serviços. 

Mas não basta apenas conhecer o pagamento móvel: é preciso ver utilidade nele. “Enquanto o setor não explicar por que pagar com o smartphone é melhor do que usar cartões de plástico, o hábito do usuário não mudará”, diz Victor Lima,responsável pela área de dispositivos móveis da Concrete Solutions.

Para o vice-presidente de varejo do Banco do Brasil, Raul Moreira, uma vantagem do NFC é trazer conforto e agilidade para pequenas transações. “Ainda há muitas operações que são feitas com papel moeda, como comprar jornal e pagar um táxi”, diz Moreira. Desde março de 2015, o BB oferece no app Ourocard-e a opção de pagar compras aproximando o smartphone de um terminal. Nas compras abaixo de R$ 50 não é preciso usar senha. 

Ecossistema. Outro entrave para a popularização do pagamento móvel é o alto preço de celulares habilitados com NFC. No mercado brasileiro é difícil encontrar aparelhos com a tecnologia por menos de R$ 1 mil. Na maioria dos casos são dispositivos lançados há pelo menos três anos, como o Samsung Galaxy S3. No geral, só modelos mais recentes são compatíveis com NFC – a Apple, por exemplo, só incluiu o NFC em seus aparelhos no iPhone 6, lançado no fim de 2014. 

“Não vou conseguir atender o meu público se o padrão depender de smartphones de última geração”, avalia André Turquetto, diretor de produtos da Alelo. Há aqui um efeito cíclico, que pode dar fim a esse obstáculo: o crescimento do pagamento móvel pode aumentar a escala na produção de celulares com NFC que, por sua vez, pode impulsionar o uso do smartphone como cartão.

Na outra ponta da transação – o lojista –, o Brasil tem uma vantagem considerável com relação aos EUA. No mercado americano, mais da metade dos terminais só aceita transações com tarja magnética. Por aqui, cerca de 80% das 4,4 milhões de maquininhas estão habilitadas para transações por aproximação, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).

“Decidimos preparar a rede para aceitar o NFC de forma estruturada quando a tecnologia amadurecesse”, diz Danilo Caffaro, vice-presidente de produtos da Cielo. Porém, a compatibilidade não é uma garantia de que tudo vai dar certo: para efetuar a transação, as maquininhas precisam estar conectadas à internet, sendo dependentes da qualidade da conexão móvel oferecida pelas operadoras do País. É necessário também educar os vendedores. “Muitos estranham que esse tipo de pagamento seja possível”, diz o diretor do Bradesco Cartões, Cesário Nakamura. 

Negociações. Hoje, quando se faz uma compra com cartão de crédito, o dinheiro percorre uma longa jornada. Os bancos emitem os cartões e oferecem crédito para os clientes. As bandeiras, como Visa e Mastercard, processam as transações e os adquirentes (mercado liderado por Cielo e Rede) entregam os valores aos lojistas. Em cada etapa, um pequeno porcentual do valor da compra é descontado. Com os pagamentos feitos por smartphones, mais um elemento entra na cadeia: as empresas de tecnologia. 

Para dar início a seus serviços por aqui, Apple, Samsung e Google precisam propor um modelo de negócios satisfatório para todas as partes. É justamente aí que os serviços têm emperrado. Segundo fontes ouvidas pelo Estado, a Apple têm tido dificuldades para chegar a um acordo. As taxas propostas pela empresa do iPhone seriam muito altas.

Ainda segundo as fontes, a Samsung teria saído na frente na corrida por ser menos agressiva nas negociações que sua rival. A sul-coreana parece mais interessada em usar o pagamento móvel como um diferencial para vender seus smartphones. Com um sistema menos maduro, o Google, por sua vez, ainda está em conversas iniciais com o setor. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.