País abre distância em ranking de juro real

Taxa que desconta a inflação projetada para os próximos 12 meses chega a 5,5% ao ano, contra 1,9% da Austrália, a segunda colocada

Leandro Modé, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2011 | 00h00

A elevação da taxa básica (Selic) para 11,25% ao ano fez o Brasil "disparar" no ranking mundial dos juros reais (medida que desconta a inflação). Segundo levantamento da Cruzeiro do Sul Corretora, a taxa subiu para 5,5%, ante 1,9% da Austrália, a segunda colocada. A tabela também mostra que a maior parte dos países tem, hoje, juros reais negativos.

Isso significa que o investidor que aplica em títulos públicos desses lugares perde da inflação. Nos Estados Unidos, por exemplo, o rendimento em um ano está negativo em 1,2%. Na Inglaterra, a perda chega a 3,1% e, na Venezuela, alcança 7,4%.

"A situação brasileira e de outros emergentes é bem diferente do que está acontecendo nos países desenvolvidos", observa o analista responsável pelo levantamento, Jason Vieira.

O aquecimento da economia em países como o Brasil e a China, pontua o especialista, obriga as autoridades a promover aperto monetário. "A China, que está com o juro real bem baixo (0,7% ao ano), precisará elevá-lo", diz.

Nas nações desenvolvidas, atingidas mais duramente pela crise eclodida em 2008, a necessidade é oposta: usar as armas possíveis para tirar a atividade do marasmo, o que inclui juro menor .

Vieira também lembra que a distância do Brasil para o segundo colocado vem aumentando desde que a Turquia começou a reduzir sua taxa básica. "Até alguns meses atrás, Brasil e Turquia se revezavam na primeira colocação do ranking."

Como a alta de ontem provavelmente foi a primeira de um ciclo, a distância entre o Brasil e o resto do mundo deve aumentar ainda mais ao longo de 2011. Na média, os analistas do mercado financeiro acreditam que a Selic encerrará o ano em 12,25%. Ao mesmo tempo, a inflação tende a cair, justamente por causa do ciclo de aperto monetário.

Por que tanta diferença? Até mesmo no sistema financeiro há uma avaliação de que o juro no Brasil é elevado demais na comparação com o resto do mundo.

"O País precisa trabalhar para ter juros mais baixos no longo prazo", afirma o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Fábio Barbosa, ponderando que o provável ciclo de alta iniciado ontem tem como objetivo principal ancorar as expectativas de inflação.

Nos últimos meses, o mercado passou a projetar inflação mais alta semana após semana. E tais estimativas já superam de longe o centro da meta de inflação, de 4,5% (há uma banda de tolerância de dois pontos porcentuais para cima ou para baixo). Segunda-feira, a expectativa para 2011 estava em 5,42%.

A questão é entender por que o juro aqui é tão mais alto. Há várias hipóteses. A mais aceita entre os economistas considerados ortodoxos diz respeito às contas públicas.

"A política fiscal poderia dar uma contribuição para a monetária", pondera o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa. Neste ano, por exemplo, cada ponto porcentual a mais de superávit primário representa uma redução de gasto público próxima de R$ 40 bilhões - o que reduz a demanda total da economia.

O professor da FGV Paulo Tenani afirma que, entre os fatores que poderiam diminuir o juro real no Brasil, estão as reformas estruturais (como tributária e previdenciária).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.