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País atrai até pequeno poupador da Ásia e fatia de estrangeiro na dívida é recorde

Taxa de juro elevada e boas perspectivas para a economia atraem investidores para o Brasil, aumentando a valorização do real

Leandro Modé, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

A parcela de investidores estrangeiros na dívida pública interna do Brasil nunca foi tão alta. Em julho, dado mais recente disponível, eles detinham o equivalente a 9,4% dos papéis (algo como R$ 150 bilhões). Há um ano, eram 7% e, em 2006, menos de 2%. Embora não haja estatísticas disponíveis, é possível afirmar, com base em fontes do governo e de bancos, que grande parte do avanço recente se explica pelo apetite dos asiáticos.

Essa é uma das razões que ajudam a entender o processo de valorização do real em relação ao dólar nos últimos anos. Sexta-feira, a moeda americana fechou a R$ 1,718, o que representa uma queda de 1,43% no ano. O tema tornou-se uma das principais preocupações do governo por causa do efeito potencialmente negativo sobre as exportações (mais informações na pág. B4).

Depois de enorme frustração com o Brasil na década de 80, em decorrência de calotes e da instabilidade da economia, chineses, coreanos e, principalmente, japoneses "redescobriram" o País.

O primeiro fator a atraí-los nos dias de hoje é a segurança com que o Brasil é visto no mercado financeiro. Em 2008 e 2009, o País conquistou o chamado grau de investimento das três principais agências de classificação de risco do mundo (S&P, Moody"s e Fitch). Trata-se de uma espécie de selo de qualidade, que indica que a probabilidade de um devedor não honrar seus compromissos é pequena.

O segundo é a rentabilidade, sobretudo dos ativos de renda fixa. Esses papéis seguem a taxa básica de juros brasileira (Selic), a maior do mundo tanto em termos nominais (10,75% ao ano) quanto reais (cerca de 6% ao ano, descontada a inflação).

O terceiro ponto diz respeito às boas perspectivas de crescimento do País nos próximos anos, em decorrência, entre outros fatores, da exploração do pré-sal e da realização das Olimpíadas e da Copa do Mundo. Esse cenário beneficia as empresas voltadas para o mercado interno e, por tabela, suas ações na Bolsa.

Por fim, há uma variável que o País não controla: a remuneração dos investimentos nos países desenvolvidos está baixíssima desde o estouro da crise global, em 2008. Para tentar estimular suas economias, EUA, União Europeia e Japão têm mantido juros próximos de zero.

Nesse contexto, bancos brasileiros se organizam para atender a demanda no continente (mais informações na pág. B5).

Financiamento. Para um país como o Brasil, que precisa de pesados investimentos, o expressivo interesse de estrangeiros é mais do que bem-vindo. Deve ser comemorado, dizem especialistas. "É uma forma de usufruir de poupança externa sem aumentar a vulnerabilidade do País", define o diretor de gestão e estratégia da Bradesco Asset Management e ex-secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy.

O Brasil tem um problema estrutural de falta de poupança, necessária para bancar os investimentos. Por isso, historicamente, em momentos de forte crescimento econômico, importou dinheiro do exterior. Nas contas públicas, isso aparece no chamado déficit em conta corrente.

Nos 12 meses terminados em julho, esse buraco estava em US$ 44 bilhões, o equivalente a 2,24% do Produto Interno Bruto (PIB). As estimativas do mercado e do Banco Central (BC), que são convergentes, apontam para cerca de 2,60% do PIB no fim do ano. Mas, nos próximos anos, o mercado avalia que vai crescer.

O departamento econômico do Itaú Unibanco, por exemplo, projeta uma alta para 4,9% do PIB em 2012. Os economistas da instituição avaliam que não há razões para preocupação justamente por causa da disposição do mercado global de financiar o Brasil - ou seja, o rombo seria coberto sem grandes traumas.

Em geral, os investidores "aceitam" um déficit (para um país com as características do Brasil) em torno de 4% do PIB. A partir daí, começam a se preocupar, desvalorizando a moeda local.

Terça-feira, uma emissão do Tesouro deu nova demonstração do apetite por ativos brasileiros. Dos US$ 500 milhões captados, US$ 50 milhões vieram da Ásia. "A demanda dos asiáticos foi seis vezes superior à oferta", disse Douglas Chen, responsável pela renda fixa internacional da Itaú Securities em Nova York.

 

 

 

 

 

 

 

 

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