‘País caminha para câmbio controlado’

Para Nathan Blanche, da Tendências Consultoria, o problema da economia não está no câmbio 

Leandro Modé e Raquel Landim, de O Estado de S. Paulo,

31 de outubro de 2010 | 22h41

Um dos maiores especialistas em mercado cambial do País, o empresário e sócio da Tendências Consultoria, Nathan Blanche, avalia que o Brasil está a caminho de um "câmbio controlado" depois das medidas adotadas pelo governo para conter a valorização do real.

"Há um processo de cupinização do tripé macroeconômico. É esse tripé que permite o crescimento sustentável do País", disse Blanche ao Estado. Ele afirma que "o problema da economia não está no câmbio" e que não está ocorrendo desindustrialização.

Existe uma guerra cambial?

Não. A única batalha é com a China, que tem 45% do PIB de poupança e, portanto, força para influir na formação da taxa de câmbio e na sua competitividade. O país calibra os preços relativos não só pelo câmbio, mas também pelos salários. É um regime capitalista para fora, mas controlado por dentro. Portanto, a única distorção no mercado hoje é o yuan.

Mas os Estados Unidos estão despejando uma montanha de dólares no mercado. Isso não é uma distorção?

Não. É totalmente legítimo o que os EUA e a Europa estão fazendo. O Brasil não faria diferente se estivesse em crise. É preciso fazer movimentos anticíclicos. A função do governo é exatamente, em um momento como este, usar políticas quantitativas, monetárias e fiscais.

Se o diagnóstico do ministro Guido Mantega, de que há guerra cambial, está errado, as medidas recentes também estão erradas?

As medidas iniciais do governo na crise foram muito corretas. O Banco Central foi um pilar da salvação, porque fez política anticíclica e liberou R$ 80 bilhões dos compulsórios. Houve um benefício fiscal para certos setores quando se percebeu que o Brasil ia para a recessão.

Mas qual é a sua avaliação sobre a alta do IOF?

Acho que o governo não pensou em cima da guerra cambial. Isso faz parte de um contexto geral. Não quero mais falar em ortodoxia e heterodoxia – não existem mais essas barreiras –, mas de uma mentalidade intervencionista. Está havendo uma ‘cupinização’ dos fundamentos do tripé macroeconômico, que permite o crescimento sustentável do Brasil. Estão mexendo no regime cambial e na política fiscal. E o regime de metas de inflação é incompatível com câmbio controlado.

Na sua opinião, o Brasil tem hoje um câmbio controlado?

Estamos indo nessa direção. Já tem uma flutuação suja, muito bem feita pelo BC, para amenizar as volatilidades. É impossível uma economia conviver com volatilidade de 5%, 10%, 15% ao mês. O BC suavizou, mas não mudou a tendência. Agora, quando você pega recursos fiscais e começa a comprar câmbio, quando gasta R$ 35 bilhões para carregar as reservas, quando injeta dinheiro na economia. O BC termina sendo uma "Geni" do mercado, porque tem de subir os juros.

A alta do IOF é eficaz ou distorce o mercado?

É óbvio que distorce. Não consegue, porque existem mecanismos de ajustes. Mas, no momento em que os mercados chegarem à conclusão que esse câmbio vai ser controlado, sai de perto! O movimento vai ser brusco. Por enquanto, não está incomodando e as operações estão sendo feitas. Agora, que existe impedimento existe.

O real está sobrevalorizado?

O problema não está no câmbio. Existe um descasamento entre o PIB potencial e o que crescemos hoje. Não temos poupança para isso. O consumo público cresce extraordinariamente e capitais subsidiados entram para investimento. O câmbio que está aí é o que a gente merece. O que salva a balança e dá espaço para tudo isso é a China. É o superávit de US$ 80 bilhões gerado pelo agronegócio e pelo setor mineral.

Existe desindustrialização?

Não. A indústria representa 25% do PIB. O Brasil é igual aos EUA: o que importa é o consumo interno. O País só exporta 10% do PIB, os outros 90% é mercado interno. As indústrias estão batendo o recorde de produção, de emprego, de renda, de crédito. Esse câmbio está errado? O que está errado é a base desse crescimento.

O Brasil perde ou ganha com uma valorização do yuan?

Sou contra o câmbio fixo da China. A reivindicação mundial – e a China não é brincadeira, já é a segunda maior economia – de que acabe esse protecionismo é certa. De outro lado, todos os países com "commodity currency" (moedas que acompanham a variação das commodities) podem ver o tiro sair pela culatra. E o Brasil faz parte desse grupo. Quando valorizar a moeda, aumentará a renda dos chineses. Qual é a primeira coisa que um povo com uma renda per capita de US$ 2,5 mil vai fazer? Aumentar o volume no prato. As commodities devem subir e valorizar as moedas desses países.

Assumindo que o governo deveria fazer algo para evitar a valorização do real, que tipo de medida seria adequada?

Primeiro, um fundo soberano equalizador de influxo cambial, mas nos moldes do Chile, que faz com poupança pública e não com emissão de dívida. O governo tem de comprar os excessos que estão vindo – esperamos US$ 18 bilhões para este ano e US$ 25 bilhões para 2011. Mas, fora isso, vamos tomar medidas positivas. Vamos abrir a economia. Não temos de exportar tudo. O mundo hoje é uma montadora de eficiência. É preciso baixar as tarifas e liberalizar as regras do mercado de câmbio. Quem ficar, ficou. E poucos setores hoje não são competitivos. Os recursos estão vindo porque o País tem reservas, produção, futuro. Se infringirmos as regras de mercado, isso desaparece. Temos de ser como a Austrália, que desde 1983 capta 4% do déficit em conta corrente.

Qual é, então, a tendência para o câmbio?

Se formos pelo mercado, a tendência é o real valorizar. Mas a reversão chegará, via mercado, com o movimento suavizado pelo BC. Nada na vida só valoriza. O mercado vai reverter, sem artificialismos, sem mentalidade desenvolvimentista. Convivemos com isso nas décadas de 70 e 80 e não dá certo.

Então, apesar do IOF, a tendência para o câmbio não será alterada no médio prazo?

Pode reverter, mas aí acabou a estabilização. Continue interferindo no câmbio, não cumpra contratos, use artificialismos tributários, tarifas para importação de produtos. Se fizermos isso, o mercado reverte. Proponho cautela. Esse cupim vai acelerar sua atividade porque câmbio para cima inexoravelmente é taxa de juros para cima.

 

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