Felipe Rau/Estadão - 26/3/2019
Com retomada lenta, milhares de pessoas continuam procurando emprego Felipe Rau/Estadão - 26/3/2019

País deve andar em passo lento, mesmo com reformas

Efeitos da recessão, perda de produtividade e incertezas políticas freiam retomada; ambiente externo pode retardar ainda mais a recuperação

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2019 | 05h00

Apesar do avanço da agenda de reformas e da queda na taxa básica de juros (Selic), a economia continua patinando e não há sinais de uma recuperação acelerada no médio prazo. Há quem projete crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no ano que vem ainda abaixo dos 2% – após o 0,8% esperado para 2019.

A destruição provocada pela recessão, com empresas indo à falência e milhões de trabalhadores saindo do mercado, a perda de produtividade, as incertezas políticas que travam o investimento e o freio na economia internacional formam o cenário adverso para o Brasil.

“Nossa retomada é realmente frustrante e o ponto preocupante é que o mundo pode retardar ainda mais a recuperação”, diz o economista Thiago Xavier, da Tendências Consultoria. A empresa projeta alta de 2% no PIB para 2020 e 2,6% para 2021 – número superior aos 2,5% previstos pelo mercado, segundo o Relatório Focus, do Banco Central.

“Os 2,6% parecem uma luz de aceleração, considerando que são três anos (2017, 2018 e 2019) de PIB na faixa de 1%. Mas, se a gente analisa o período mais longo, vê a dificuldade para sair da crise”, acrescenta Xavier. Cálculos da Tendência apontam que, apesar de o PIB poder voltar ao patamar pré-crise em 2021, o PIB per capita alcançará esse nível apenas em 2023. 

Economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani está entre os mais otimistas do mercado, com alta de 2,5% para 2020 e 2,5% para 2021 – segundo o Focus, o crescimento médio esperado para o ano que vem é 2,2%. Padovani afirma que se trata de uma recuperação lenta, mas sólida, e que ela não pode ser considerada uma retomada normal, dado o grau de devastação que a recessão deixou, principalmente em segmentos como da construção pesada e de óleo e gás.

Ainda de acordo com Padovani, estudos indicam que reformas estruturais levam até dez anos para consolidar seus efeitos na economia. “Estamos criando condições para que, no futuro, a atividade vá bem, mas não tem uma relação automática”, diz. “Temos de avançar muito no ambiente de negócios, o que inclui tributos mais simples e qualificação de mão de obra, para estar num voo de cruzeiro mais perto de 4% ao ano.”

Uma melhora no nível de investimentos também é apontada como essencial para acelerar o ritmo da economia. Hoje, os investimentos são da ordem de 15% do PIB. O economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília, afirma que esse número teria de ir para 23% para que o País pudesse crescer entre 4% e 5%. “Vai crescer pouco nos próximos dois anos, porque falta demanda. A política fiscal é contracionista; a monetária começou a ficar levemente expansionista agora e o cenário externo é ruim”, diz.

A economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), da Fundação Getúlio Vargas, destaca que o fator mais forte para o aumento do investimento no País – e também do PIB – é um ambiente de previsibilidade e confiança. 

Apesar de a incerteza ter recuado recentemente, diz ela, ainda está em patamar elevado. O índice de incerteza da economia, calculado pelo Ibre, recuou com a aprovação da reforma da Previdência na Câmara, passando de 119 pontos em junho para 108,4 em julho, ainda próximo de 110 pontos, considerado o nível de “incerteza elevada”. “Tem várias reformas em discussão, mas falta uma agenda.

A reforma tributária, ninguém sabe como será. O investidor está cauteloso”, diz Silvia.

Para a economista, um dos principais entraves ao crescimento – e que pode colocar o Brasil em uma posição complexa semelhante à do México – é a perda de produtividade. “O México conseguiu toda uma estabilidade macroeconômica, abriu sua economia, mas a produtividade não veio.” Segundo Silvia, isso ocorreu porque empresas pouco produtivas acabaram sobrevivendo devido a ineficiências microeconômicas.

No Brasil, investimentos mal alocados, subsídios e regimes tributários especiais, como o Simples, também podem limitar os efeitos das reformas estruturantes. “Para o País crescer 3%, sem o mundo ajudar, tem de ter reformas mais severas”, acrescenta Silvia, que projeta alta de 1,8% para 2020 e 2% para 2021.

Série de entrevistas: Por que o Brasil não cresce?

Esta reportagem abre conteúdo especial que será publicado pelo Estado. Uma série de entrevistas vai abordar as dificuldades de recuperação do PIB, começando por José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados e secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 1995 e 1998.

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Medidas para acelerar PIB entram no debate

Política monetária mais expansionista e incentivos no mercado imobiliário poderiam dar fôlego à economia, dizem especialistas

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2019 | 05h02

Diante da lentidão da recuperação econômica, medidas que acelerem o ritmo do Produto Interno Bruto (PIB) – e aliviem a situação de 13 milhões de desempregados – começam a ganhar espaço no debate. O próprio governo federal adotou uma delas ao anunciar, no mês passado, a liberação do saque de R$ 500 das contas do FGTS.

Economista-chefe da consultoria LCA, Bráulio Borges defende como estímulo econômico a redução mais significativa da taxa básica do juros (Selic). Em julho, o Banco Central cortou a Selic pela primeira vez desde março de 2018, passando a taxa de 6,5% para 6%.

Segundo Borges, como o País está em seu terceiro ano consecutivo com inflação abaixo da meta e as projeções indicam que deverá continuar assim até 2020, a taxa de juros deveria estar mais baixa, impulsionando consumidores e investidores a tomarem crédito e, assim, movimentarem a economia. 

“O próprio BC já reconheceu, em ata, que a incerteza na economia é contracionista e desinflacionária. Feita a constatação de que a inflação está abaixo na meta, o BC deveria ter respondido a isso”, diz Borges. Ainda de acordo com o economista da LCA, o governo agiu corretamente ao liberar o saque do FGTS, mas o impacto da medida no PIB pode ser neutralizado pela crise argentina.

O economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, também afirma que a política monetária é o grande instrumento econômico, mas diz também haver “um pouco de espaço” para medidas de incentivo no mercado imobiliário.

O professor da Universidade de Brasília José Oreiro defende um descontigenciamento do Orçamento do governo para estimular a demanda. Para ele, ainda assim, seria possível manter a relação entre dívida e PIB estabilizada ao aumentar o PIB.

O economista Thiago Xavier, da Tendências, afirma que acelerar os projetos de concessão na área de infraestrutura seria uma medida bem-vinda.

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‘Crise ambiental é uma ameaça gigante’

Para o economista José Roberto Mendonça de Barros, um boicote ao agronegócio por causa dos incêndios na Amazônia é um risco importante ao PIB

Luciana Dyniewicz e Cátia Luz, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2019 | 05h00

Ao menos por enquanto, os brasileiros terão de se contentar com uma economia avançando a uma taxa anual inferior a 3%. Para um crescimento mais vigoroso, será preciso consolidar a situação fiscal e aguardar as concessões de infraestrutura – que não vão decolar em menos de um ano. Até lá, porém, medidas de intervenção estatal que aliviem a situação dos mais pobres são bem-vindas, segundo José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados.

“É difícil olhar essa situação (de crise) e dizer: ‘Vou esperar as reformas fazerem efeito’”, diz o economista, que foi secretário de política econômica entre 1995 e 1998. Para ele, a crise ambiental é um risco de fato ao já fraco crescimento econômico. “A ameaça é gigante.” A seguir, trechos da entrevista.

A taxa básica de juros (Selic) caiu, a reforma trabalhista passou, a da Previdência está encaminhada, e a economia continua estagnada. O que acontece?

Temos de olhar dois vetores. Um é o grau de destruição da crise. O ponto de partida é muito ruim. É como estar atolado na lama. Não é fácil começar a andar. O segundo é que, apesar de muitas peças pró-aquecimento estarem sendo colocadas, faltam duas fundamentais: a consolidação da percepção de que a crise fiscal está ficando para trás – a aprovação da Previdência na Câmara é um passo fundamental, mas não é o único – e o aumento de investimento. O investimento está em 15% do PIB. Tem de ir pelo menos para 22%. A resposta para o investimento voltar tem a ver com concessões de infraestrutura. Por outro lado, aquela expectativa favorável depois da eleição se reverteu fortemente. Isso tem a ver com o começo atabalhoado do governo. À medida que as expectativas se frustraram, emerge a situação atual. São quase 13 milhões de desempregados, 5 milhões de desalentados e 25 milhões de pessoas que não trabalham em tempo integral, mas gostariam. Aí fica fácil entender porque a venda de bens de consumo não decola.

Tínhamos um pouco desse cenário em 2018 e, mesmo assim, a previsão era de um PIB maior. 

Houve frustração e erro (dos economistas), diga-se de passagem pelo terceiro ano seguido. Entre a eleição e a virada do ano, cansei de escutar gente entusiasmada dizendo ‘vou gastar mais’. Não era construir uma fábrica nova, mas, nessa situação ruim, se você relança um produto, já está gastando. Com a velocidade que foi a expectativa, ela também caiu.

Por quê?

Não consigo ver outra explicação que não seja pelo começo muito atabalhoado do governo, pela falta de experiência.

Isso passou?

A parte mais atabalhoada, sim, mas aí entra outra questão. Li mais de uma vez, não tenho informação de fonte primária, que o governo e o Ministério da Economia resolveram só colocar em cima da mesa a Previdência. Para não atrapalhar a reforma, não se fez mais nada. Ficou um vazio. Você fica esperando acontecer uma coisa, que muita gente equivocadamente achava que até maio se resolveria. Essa frustração também postergou gastos. Estamos em agosto e agora estão anunciando privatizações. Mas, até agora, não saímos da Previdência. Estava claro, já em maio, que o ano seria perdido para o crescimento. 

Segundo o Relatório Focus, o PIB vai crescer 0,8% em 2019 e 2,2% em 2020. Reformas não são suficientes para impulsionar um crescimento mais forte? 

Por ora, não, mas isso não será para sempre. Para retomar um crescimento melhor, precisamos consolidar a parte fiscal um pouco mais, para que as pessoas tenham convicção de que de fato vai melhorar, e que não é apenas uma promessa. A segunda questão são as concessões, obras de infraestrutura. O ministro da Infraestrutura (Tarcísio de Freitas) disse que projetos maiores só a partir do fim do primeiro semestre de 2020. Portanto, o ano que vem ainda vai ser moderado. Pode melhorar depois porque, em todo o mundo, o que emprega mesmo é a construção. Mas dá para dizer que a volta vai ser muito lenta. Precisaremos de mais tempo para ter um crescimento de 3% sustentável. 

Nada pode ser feito até lá para aliviar a situação dos 13 milhões de desempregados?

Tem de fazer alguma coisa. Mas não qualquer coisa, porque tem um aperto fiscal. Por exemplo, existem municípios de 100 mil habitantes que poderiam ter projetos de esgoto concedidos para a iniciativa privada. Além disso, sempre é possível fazer programas de intervenção direta para (reduzir) a pobreza absoluta. Eles são relativamente baratos. É difícil olhar essa situação e dizer: ‘Vou esperar as reformas fazerem efeito’. Suspeito que tenha um conflito existencial na equipe econômica, que, na sua maioria, é excessivamente liberal. Tenho impressão que é menos por falta de recurso e mais por essa coisa conflituosa (que não se faz nada).

A crise ambiental pode ter impacto relevante na economia?

O agronegócio, na sua essência, tem uma boa pegada ambiental. Ainda tem dificuldades, mas tem um caminho onde já existem práticas sustentáveis. O nó da questão é a Floresta Amazônica. A maior parte dos incêndios são de atividades ilegais, grilagem, invasão em terra pública ou do índio. Isso é um horror para o agronegócio. No mundo inteiro, até na China, o consumidor quer saber o que está comendo, de onde o alimento veio e como foi produzido. Duas semanas atrás, o presidente da Cofco (estatal chinesa de processamento de alimentos) falou que vai comprar mais do Brasil, mas que só fará isso se tiver sustentabilidade na produção. Falou doze vezes a palavra sustentabilidade. A ameaça é gigante e a visão de que é um problema com ONGs está totalmente desconectada. Estamos acumulando condições de voltar a crescer. Ainda assim, nada está garantido. Pode piorar por causa do cenário internacional, da crise argentina e de problemas de boicote ao agronegócio brasileiro. Esse risco existe. Não é invenção.

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‘O Brasil não vai voltar a crescer 3% ao ano’, diz Marcos Lisboa

Sem bônus demográfico e com produtividade estagnada, única saída para o País é acelerar a agenda de reformas

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2019 | 05h00

As reformas estruturantes do País estão andando devagar – daí a lentidão na recuperação econômica –, e a única medida que o governo pode tomar para que o PIB cresça de forma mais expressiva é acelerar essa agenda. Ainda assim, a economia brasileira não vai mais repetir números superiores a 3%, pois a população não cresce mais como antes, segundo o economista Marcos Lisboa, presidente do Insper. “Tudo indica que o Brasil não vai voltar a crescer 3% de forma sustentável. O que a gente aprendeu no passado é que, se a gente consegue sinalizar que o Brasil está enfrentando com rigor a questão fiscal, isso dará maior segurança sobre o futuro da economia”, diz ele, que foi secretário de política econômica entre 2003 e 2005. 

A seguir, os principais trechos da entrevista.

As reformas estão avançando, mas ainda não há um resultado prático na vida das pessoas...

Opa, parou de piorar.

Não deveríamos esperar um resultado mais significativo?

Não. Fizemos muito pouco até agora. Olha a questão do déficit dos Estados. O que fizemos para resolver isso? A agenda está andando muito devagar.

Dando mais velocidade às reformas, sairemos da estagnação?

Tem de fazer muita reforma. Primeiro: o Brasil vai crescer menos daqui para frente. O Brasil tinha uma população que crescia 4% ao ano. Agora cresce menos de 1%. Se você quer crescer 3%, a produtividade tem de crescer 2%. A produtividade do Brasil não cresce isso há 40 anos. Uma série de intervenções pioraram a produtividade. A incerteza sobre os investimentos aumentou. Você começa o projeto e não sabe quais serão suas obrigações. Olha o fracasso das concessões dos aeroportos no governo Dilma. A área de infraestrutura não consegue investir hoje no Brasil. Segundo: desde o segundo governo Lula, você voltou a fechar a economia. Terceiro: em vez de fazer reforma da Previdência lá atrás, o Brasil começou a inventar maneiras de aumentar a arrecadação para fechar as contas. Em vez de se fazer reformas para corrigir problemas estruturais e de aceitar as regras da competição – que é melhor ter acesso a máquinas mais eficientes do exterior, porque isso ajuda a produtividade interna, fomos pelo caminho oportunista. O problema foi ficando maior e o ambiente de negócios, pior.

Mas aumentar a velocidade das reformas é suficiente para o Brasil crescer mais?

A sociedade não quer fazer reforma. A culpa é nossa. Como não fizemos a reforma da Previdência dos Estados agora? A parte tributária: o setor privado resiste, porque grupos isolados têm receio de pagar mais. Abertura comercial: setores de bens de capital resistem.

Se há necessidade de reformas, mas a sociedade resiste, não há outra saída que não um PIB de 1%?

Não vou fazer previsão. Se o País quiser um crescimento de 3% sustentável, tem de fazer reformas, o que implica perdas para alguns grupos. O Brasil hoje é o resultado de uma sociedade que acha normal a distribuição de benefícios: política de proteção regional, barreiras comerciais, incentivos tributários... A boa notícia é: não tem problema novo. Todos esses problemas já existiam antes, alguns há 20 anos, como o da Previdência. Quanto mais demora, pior a situação fiscal. A conversa de abertura comercial começou, mas não andou. Tem muitas medidas que estão na mão do secretário de Comércio Exterior (Marcos Troyjo) que poderiam estar sendo tomadas, como redução de restrições não tarifárias.

A agenda micro está parada?

Isso podia estar andando. A grande degradação do País é (nas áreas) tributária, de comércio exterior e de previsibilidade para investimento em infraestrutura. A da infraestrutura está andando mais. O ministro Tarcísio de Freitas está fazendo um trabalho de normalizar o processo. Se acertar, vai ser um salto para o país.

Mas as concessões devem demorar para impulsionar o PIB, não?

Nada é rápido. Esse tipo de agenda de reforma para crescimento demora muitos anos. A Inglaterra fez a reforma rápido, com (a primeira-ministra Margaret) Thatcher. Foram três anos de sofrimento, mas depois o crescimento foi rápido. Austrália e Nova Zelândia preferiam fazer essa agenda lentamente para não criar muita dor no caminho. Mas tiveram seis, oito anos de crescimento medíocre.

Para aliviar essa situação no curto prazo, não se deve adotar alguma medida?

Deve-se acelerar a agenda de reformas.

Mas as reformas não vão ter impacto já. Enquanto isso, há 13 milhões de desempregados...

Não sei o que fazer nesse caso. Estamos atrapalhando a redução do desemprego ao demorar para fazer o ajuste. Consigo imaginar várias medidas que estimulam no curto prazo, mas que vão piorar a economia no médio prazo.

Liberação do FGTS prejudica no curto prazo?

Está batendo um pouco de ansiedade porque o diagnóstico estava otimista. Tudo indica que o Brasil não vai voltar a crescer 3% de forma sustentável nos próximos anos. O que a gente aprendeu no passado é que, se a gente consegue sinalizar que o Brasil está enfrentando com rigor a questão fiscal, reduzindo gastos obrigatórios e enfrentando a situação dos Estado, isso dá maior segurança sobre o futuro da economia. Isso auxilia a retomada da produção e do emprego.

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‘O Brasil precisa de um impulso fiscal’

O economista Eduardo Giannetti diz que 'trapalhadas - ambientais, de relações exteriores e de voluntarismo primitivo do presidente - atrapalham economia brasileira'

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2019 | 04h00

A situação “desesperadora” da economia brasileira, que enfrenta a recuperação mais lenta desde pelo menos os anos 80, exige “medidas ousadas”, segundo o economista Eduardo Giannetti. “As circunstâncias requerem certa flexibilidade e criatividade”, diz ele, que sugere a venda das participações minoritárias do BNDES em empresas como uma forma de levantar recursos para concluir obras paradas pelo País. A proposta, acrescenta, daria um impulso no nível de atividade e emprego, mas não ainda não resolveria o problema da estagnação.

Giannetti afirma que, para isso, também é preciso reduzir o nível de incertezas, mas as falas do presidente Jair Bolsonaro não têm ajudado nesse aspecto. A seguir, trechos da entrevista.

O sr. tem estudado as recuperações no Brasil após recessões. Essa é a mais lenta da história brasileira. O que a diferencia?

Comparei os oito episódios recessivos pelos quais o Brasil passou desde 1980. O mais preocupante agora é o tempo que está levando para a economia voltar ao nível pré-crise. Estamos há 20 trimestres desde o inicio da recessão e a economia está 5% abaixo do que era antes. A média das outras sete recessões é oito trimestres. Uma explicação é a queda do investimento em um terço. O setor público, com a crise fiscal, comprimiu os gastos discricionários, acabando com o investimento. O setor privado também não está investindo. Um fator (que explica essa queda) foi o quadro crônico de incerteza política durante o impeachment e após os escândalos ligados à JBS no governo Temer. A incerteza em relação às instituições brasileiras é enorme. Outro ponto é que se tem uma enorme capacidade ociosa. Não tem demanda e não tem perspectiva de que ela volte tão cedo, pela questão do desemprego, que diminui a renda e aumenta a incerteza.

É possível fazer algo para mudar esse quadro?

Estou defendendo uma ideia que não é muito na minha linha de pensamento, mais austero em economia, mas acho que, dada a realidade, faz sentido. Seria razoável e benéfico o BNDES vender suas participações minoritárias em grandes empresas, e o governo utilizar esses recursos para terminar as obras públicas paralisadas. Conversei com Claudio Frischtak, o maior especialista brasileiro em infraestrutura, e ele estima que tenham de 8 mil a 12 mil obras públicas paradas no Brasil. É um escândalo e um absurdo do ponto de vista econômico. A obra está se deteriorando. A grande objeção que ele faz, e que compartilho até certo ponto, é que falta gestão para o governo fazer isso. Mas tem de trabalhar para ter.

A concessão dessas obras não seria mais rápido?

O que puder passar para a iniciativa privada, acho razoável. Mas tem muita coisa que não passa, áreas de saneamento que a iniciativa privada não tem interesse. O País precisa de um impulso fiscal para a economia sair da letargia, e o melhor impulso é esse. A estimativa é que o BNDES tenha R$ 100 bilhões em participações minoritárias. Não vai fazer tudo ao mesmo tempo. O mercado nem tem como absorver. Mas dá para fazer um volume expressivo de recursos rapidamente e iniciar um programa de término de obras.

Acha que tem chance de o governo adotar uma medida assim?

A leitura que faço é que eles têm preferência por recursos para abater dívida. O que não é de todo mal, mas não leva em conta a gravidade do quadro de estagnação. Um impulso fiscal com efeito sobre o nível de atividade e do emprego, especialmente porque são obras que demandam muita mão de obra, é mais interessante neste momento. Há situações desesperadoras em que você precisa de medidas mais ousadas. Agora, isso também não resolve o problema, assim como a Previdência não resolve. O que vai dar condições para um crescimento potencial maior é o aumento da poupança, do investimento e a redução da incerteza institucional. Quando o Bolsonaro começa a interferir na Polícia Federal, começa a falar monstruosidades sobre a Amazônia, isso tudo mina a confiança no futuro e na previsibilidade do País. Se tem algo que prejudica o investimento é essa incerteza. As trapalhadas – ambientais, de relações externas, de voluntarismo primitivo do presidente – atrapalham a economia brasileira.

Economistas apontam que medidas de curto prazo podem prejudicar uma recuperação de longo prazo. O que acha?

Não sou tão fatalista. Há medidas, mencionei uma só, que podem ter impacto. Não são uma tábua de salvação, mas circunstâncias requerem certa flexibilidade e criatividade.

No ano passado, o sr. disse ao ‘Estado’ que a reputação do liberalismo no Brasil poderia ser arruinada se o presidente não tivesse preocupação social. O governo está cuidado dessa questão? A Previdência incluiu medidas para proteger os mais pobres?

Não acho que a reforma da Previdência tenha avançado muito no quesito equidade. Muitos grupos, como militares, conseguiram preservar uma situação privilegiada. Agora, onde o nervo exposto de um liberalismo desastrado começa a aparecer é no campo ambiental. O governo sinalizou para os atores da região Norte uma carta branca. Além do desmonte dos órgãos públicos, do Ibama e do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), tem um efeito demonstração que faz quem está lá na ponta, o grileiro, o agronegócio irresponsável, se sentir legitimado a fazer coisas que sempre desejou e não podia.

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