André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

País é menos afetado por barreiras de Trump porque vende mais commodities, diz Meirelles

Postura protecionista adotada pelo presidente americano afetará mais a China e o México, porque exportam itens industrializados, afirma o ministro da Fazenda

Adriana Fernandes e Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 03h00

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, avalia que o Brasil é menos afetado pelo protecionismo dos Estados Unidos, pois é um país exportador de commodities. “O Brasil é afetado muito menos. Infelizmente, a maior parte das nossas exportações é de commodities, que não são alvo de países protecionistas”, disse. Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. vê a decisão dos Estados Unidos de sobretaxar as exportações brasileiras de aço e alumínio? É um ataque à indústria brasileira? Qual deverá ser a reação do governo brasileiro na sua opinião?

O governo Trump adotou uma atitude protecionista com a sobretaxa, que prejudica a todos, inclusive a indústria americana, que terá de pagar mais caro pelo aço. Temos de aguardar a publicação da medida para analisar o que deve ser feito com os organismos internacionais e mesmo com o governo americano.

 

Setores da indústria brasileira estão preocupados com o aumento do protecionismo nos EUA e com o impacto nas nossas exportações. Como vê esse cenário?

É um cenário que é de fato negativo para o mundo todo. O protecionismo é negativo. No caso do Brasil, quanto ao protecionismo americano, ele nos afeta bem menos do que em relação a outros países. Um dos mais atingidos, por exemplo, é o México, que tem grande parte da sua atividade industrial voltada para as exportações de componentes para o mercado americano.

As chamadas ‘maquiladoras’. É uma economia que foi desenvolvida nas últimas décadas de forma muito complementar à americana. Afeta muito a China. Talvez numa escala muito menor que o México. No Brasil, afeta muito menos. Infelizmente, a maior parte das nossas exportações é de commodities (matéria-prima básica, como soja, minério e petróleo). Esses produtos não são afetados pelo protecionismo. Eu preferia até estar na situação da China.

 

Recentemente, a Camex resolveu não aplicar medida antidumping em importação de aço alegando interesse público. Essa deverá ser uma tendência para as próximas decisões?

Não necessariamente. Vamos analisar caso a caso. O problema todo é definir: tem dumping (exportação a preços artificialmente baixos) ou não tem dumping. Essa é a discussão. Evidentemente, caso exista um dumping declarado, óbvio e comprovado, aí é outra história, porque nós defendemos o livre-comércio e a livre competição. Mas não subsídio de governo.

Defendemos, inclusive, no âmbito da Organização Mundial de Comércio (OMC), que é o que prevalece, é um comércio justo e sem dumping.

 

Como o sr. vê o futuro da indústria brasileira e que papel as medidas de defesa comercial terão nos próximos anos?

É um futuro muito bom. Baseado não em protecionismo, porque isso já provou que não fez a indústria brasileira de fato progredir. Acho que a indústria brasileira está cada vez mais caminhando para as reformas microeconômicas para ser mais competitiva. E ter mais capacidade de competir. E um exemplo importante é a Embraer que importa muito, exporta muito e é uma das companhias mundiais líderes em tecnologia. Esse é o caminho da indústria.

Os industriais têm toda a razão em dizer que para isso tem de ter condição de competir. E isso não é do dia para a noite. Foi montado um mercado protegido durante décadas. As indústrias estão preparadas para isso e não se pode dizer de um dia para outro que mudou. Não. É preparação que começa com o aumento da produtividade, que é o que estamos fazendo, e termina pela abertura.

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