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País esbarra na baixa competitividade

Falta de eficiência barra a participação do País no comércio global; em crise, indústria derrapa e não contribui para um resultado melhor

Ian Chicharo Gastim, O Estado de S. Paulo

15 Dezembro 2015 | 03h00

Após o Brasil encerrar 2014 com o pior déficit na balança comercial desde 1998, com um saldo negativo de US$ 3,93 bilhões, projeções do relatório Focus, do Banco Central, indicam para um superávit de US$ 15 bilhões neste ano. A melhora das contas externas, porém, pouco tem a ver com um aumento da participação do País no mercado externo via exportação e, sim, com uma retração no volume das importações.

Com a recessão na economia e a escalada do dólar, as compras no exterior recuaram 23,1% no acumulado do ano até novembro, em relação ao mesmo período de 2014, enquanto as vendas internacionais registraram queda menor, de 14,9%, segundo dados do Ministério da Indústria e Comércio Exterior (MDIC). 

“Esse saldo positivo na balança tem um gosto amargo. Não foi a competitividade que melhorou o resultado. O saldo positivo foi causado por fatores degenerativos”, afirma o professor da Universidade de Brasília (UnB) Jorge Arbache. 

Com a ausência do País nas cadeias globais de valor, que são o conjunto de atividades necessárias à produção e para a entrega do produto ao consumidor, o economista avalia que a valorização do dólar, que acumula alta de 40% no ano, tem efeito apenas “tópico”, como para exportadoras de commodities.

No caso da maior exportadora de cobre refinado do País, a Paranapanema, a valorização cambial está compensando a retração do mercado interno. Com a recessão no País, que derrubou setores que demandam muito cobre, como a construção civil, a empresa direcionou sua produção para o exterior. A fatia subiu para 56% neste ano, ante 37% em 2014. “Nossa moeda de custo é o real. Estamos mais competitivos”, diz o presidente, Christophe Akli.

Segundo o executivo, a redução do preço do cobre, que caiu abaixo de US$ 5 mil por tonelada pela primeira vez desde a crise de 2008, não afetou a companhia. “Quem leva o prejuízo são as minas, nós agregamos valor ao transformar o cobre em vergalhões, fios, tubos”, diz Akli.

Mais que a questão do dólar, a razão da Paranapanema ter sucesso no comércio exterior está relacionada justamente com a capacidade da empresa em agregar valor ao seu produto. E esse é, justamente, um dos gargalos da competitividade brasileira.

Segundo ranking do Fórum Econômico Mundial, o Brasil teve o pior desempenho entre as 140 nações incluídas na lista global de competitividade em 2015. Ao cair 18 posições, o País chegou a 75ª colocação, sendo superado por outros emergentes como México e Índia.

A fraca competitividade do País, dizem especialistas, explica a pouca participação do Brasil no comércio exterior. De acordo com dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), a fatia brasileira caiu para 1,2% em 2014, ante 1,3% em 2013. Para se ter uma ideia, o melhor momento do Brasil nas exportações internacionais desde 2005 foi em 2011, quando respondia por 1,4% da fatia total do bolo do comércio global. 

“Países como a Tailândia e a Malásia têm fatias maiores que a nossa. Isso é reflexo de quão desproporcional é nossa competitividade”, diz o economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rafael Cagnin.

Na visão do professor da Universidade de São Paulo (USP), Celso Grisi, fatores como infraestrutura logística ineficiente e o chamado ‘custo Brasil’, que engloba a alta carga tributária e a pesada burocracia, são gargalos que derrubaram a competitividade brasileira. “Para conquistar mercados, precisamos deslocar concorrentes e isso requer investimento. Mas como investir num cenário de crise e restrição ao crédito?”, indaga.

Indústria. A fraca participação do Brasil no comércio exterior também se relaciona com a queda na participação da indústria nas exportações, avalia Rafael Cagnin, do Iedi. O peso dos manufaturados caiu de 53% em 2005 para 34% no ano passado, com o aumento da participação de combustíveis, minérios e produtos agrícolas, que passaram a ser o principal grupo de bens, com 40% de participação.

“A retração dos manufaturados nas exportações é mais um reflexo da crise da indústria nacional”, explica Cagnin.

Além de encarar um forte recuo nas vendas e na produção, a indústria ainda foi impactada com um aumento de custos em função do aumento da energia, que acumula alta de quase 50% em 2015, e dos preços dos insumos importados. O resultado foi um agravamento da crise no setor. Segundo um levantamento do Iedi, com base em dados fornecidos pela OMC, o indústria brasileira respondeu por apenas 0,61% dos manufaturados no comércio global, ante 0,85% há dez anos.

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