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Brasil está atrasado em comparação a seus pares na discussão sobre meio ambiente, diz Luciane Moessa. Arquivo Pessoal

País está atrasado na discussão sobre o impacto da economia na biodiversidade, diz especialista

Luciane Moessa foi a única latino-americana a participar da redação do escopo técnico da força-tarefa TNFD, que discute o impacto da atividade econômica na natureza e tem o apoio de gigantes do setor financeiro

Karla Spotorno, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 07h00

A brasileira Luciane Moessa, consultora e sócia da Soluções Inclusivas Sustentáveis, foi a única latino-americana a participar com representantes da ONU, governos, empresas privadas, terceiro setor, instituições financeiras globais da redação do escopo técnico que trata do impacto das atividades econômicas à biodiversidade.

A iniciativa é uma força-tarefa chamada TNFD (ou Taskforce on Nature-Related Financial Disclosures), que busca dar transparência aos riscos produzidos pelas atividades de empresas e instituições financeiras ao capital natural. Em outras palavras, a sigla discute o impacto da atividade econômica na biodiversidade e como reverter as perdas causadas à natureza, que afetarão a vida e a atividades humanas. 

Lançado há poucos meses, o documento conversa com a agenda ainda mais ampla da COP 15 da Biodiversidade, que vai começar na China em poucas semanas.

A TNFD é ainda pouco conhecida no Brasil e tem, globalmente, apoio direto de gigantes do setor financeiro. Entre eles, Citibank, Credit Suisse, BNP Paribas, Rabobank e Axa, a maior seguradora da Europa.

Nesta entrevista, Luciane Moessa, que fez pós-doutorado na USP sobre Sistema Financeiro e Desenvolvimento Sustentável, diz que o Brasil está atrasado em comparação a seus pares na força-tarefa. Com isso, poderá perder espaço no comércio exterior, assim como já afastou o dinheiro de investidores estrangeiros.

Ela participa nesta quarta-feira, dia 25, da Conferência Brasil Verde que o Estadão realiza até sexta-feira. Para conhecer a programação, clique aqui. Abaixo, trechos da entrevista.

O que é a TNFD?

A TNFD é uma iniciativa catalisada por dois programas do sistema ONU (PNUD e UNEP-FI) e duas organizações do terceiro setor (Global Canopy e WWF), a partir do apoio de atores-chave do sistema financeiro, de alguns governos, sobretudo europeus, e grandes corporações. Em síntese, busca desenvolver recomendações para o mercado financeiro e o mundo corporativo identificarem e gerenciarem riscos, dependências, impactos positivos e negativos e oportunidades relacionados à biodiversidade ou capital natural em razão de suas atividades, especialmente de seus portfólios, no caso do setor financeiro.

Qual o maior desafio quanto à transparência de questões envolvendo a biodiversidade e os negócios?

O principal é a ausência de métricas universalmente pactuadas para medir o estágio de degradação dos ecossistemas. Essas métricas são necessárias para definir metas em relação a como devemos atuar para restaurar e conservar esses ecossistemas, de forma que a vida humana continue sendo viável em nosso planeta. O segundo maior desafio é não haver bases de dados completas para estabelecermos uma referência e aí serem definidas essas metas. A falta de padronização e a existência de lacunas podem ser preenchidas, desde que exista um esforço conjunto de governos, instituições científicas, organizações internacionais, terceiro setor e setor privado. O terceiro desafio é que, mesmo com as limitações das bases de dados existentes, pouquíssimas organizações divulgam quaisquer informações - e, quando o fazem, não é de forma padronizada.

Qual a diferença entre TCFD e TNFD? Há sinergias entre as duas forças-tarefa?

A TCFD tratou de riscos e oportunidades relativos à agenda climática, ao passo que a TNFD trata de biodiversidade, água doce, solo, oceanos e atmosfera. Existem muitas conexões entre as duas agendas, sendo o Brasil um exemplo clássico disso, pois a principal causa de emissão de gases com efeito estufa no País é o desmatamento. As mudanças climáticas, sejam as crônicas, ou os desastres em si, são uma das principais causas de perda da biodiversidade e o desmatamento é apenas um exemplo de como a degradação de ecossistemas as acentua. O desmatamento não só libera carbono do solo, como altera o regime de chuvas, como está sendo claramente sentido no Sul e no Sudeste brasileiros, em razão da alta no desmatamento da Amazônia desde 2019.

Em quais países, a TNFD já está implantada ou mais debatida? Quais empresas e instituições financeiras estão envolvidos nessa discussão?

A TNFD é uma iniciativa global, mas existe maior adesão a essa agenda no Reino Unido e na União Europeia, com destaque para França, Holanda e Suíça. O World Business Council for Sustainable Development, que é uma iniciativa empresarial, está envolvido desde o início. O PRI (Principles for Responsible Investment), associação que reúne instituições financeiras como fundos de pensão, gestoras de investimentos, e a UNEP-FI, que reúne bancos e seguradoras de todo o mundo, fazem parte do comitê estratégico. Grandes bancos e seguradoras da Europa, dos EUA, alguns da América Latina, da Ásia e África também vêm participando. O diálogo com reguladores financeiros e governos também existe. Destaco ainda a participação da OCDE e do World Economic Forum. Mas, na fase que se inicia em setembro, o protagonismo é do setor privado, em parâmetros a serem estabelecidos pela comunidade científica. Na primeira etapa, encerrada em junho, destaco como participantes brasileiros o CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável) e o BNDES. Aqui na Europa, dentre muitos outros exemplos, destaco Axa, Rabobank, Credit Suisse, Citibank e BNP Paribas.

O Acordo de Paris foi um marco na questão do clima. Há algum outro sendo desenhado para a questão da biodiversidade?

Espera-se que a COP 15 da Biodiversidade, que vai ocorrer na China alcance dois objetivos complementares. Um é a definição de métricas para apurar perda, recuperação da biodiversidade e dos habitats em que as espécies vivem. O outro é a definição de metas para restauração/conservação - que devem ser, então, levadas em conta por governos, empresas e instituições financeiras, para que cada uma faça sua parte, dentro do que está ao seu alcance, seja geográfico ou financeiro.

Quão inserido nesta discussão está o Brasil?

As instituições brasileiras - sobretudo as financeiras - estão tão envolvidas quanto quiseram estar até agora. Ao desenvolver um trabalho de engajamento com o setor em 2020, estive dialogando e apresentando a iniciativa a todas as maiores associações do mercado financeiro (abrangendo bancos, seguros, fundos de pensão e gestoras de investimentos), e conversando diretamente com algumas delas, seja por terem participação grande no mercado, seja por serem líderes na agenda ESG. Algumas pioneiras aproveitaram a oportunidade de ter essa participação mais direta - e a Febraban participou como observadora, além de ter intermediado nosso contato com o CEBDS.

A TCFD é discutida por poucos agentes econômicos no País, ainda que já esteja na agenda de reguladores brasileiros. Há expectativa de as duas forças-tarefas serem debatidas e implantadas conjuntamente?

Quanto ao compasso brasileiro, de fato, estamos atrasados nas duas agendas. Gostaria muito de ver isso se acelerando, seja por razões ambientais, seja por razões socioeconômicas. Quanto mais a gente deixa de acompanhar as tendências globais, mais se aprofunda no isolamento - tendência que já está clara em termos de mercado financeiro, com a fuga de investimentos, e pode vir a afetar o comércio exterior num futuro muito breve, se o Brasil não mudar de rumos na agenda ambiental.

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Pandemia é lembrete de que erramos com a natureza, diz diretor de fundo global para o meio ambiente

Diretor de Programas do Fundo para o Meio Ambiente Global, Gustavo Fonseca, abriu a Conferência Brasil Verde 2021, realizada pelo ‘Estadão’, em parceria com Ambipar Group

Felipe Siqueira , O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 11h30

Primeiro a palestrar na Conferência Brasil Verde 2021, evento realizado pelo Estadão, em parceria com Ambipar Group, o Diretor de Programas do Fundo para o Meio Ambiente Global (GEF, na sigla em inglês), Gustavo Fonseca, afirmou que a pandemia de covid-19 é um lembrete de que a humanidade está no “caminho errado globalmente” sobre o modo como lida com a natureza. 

“Esse conflito entre natureza e sistemas econômicos está causando um surto global de doença zoonótica que é apenas uma de várias nos últimos anos e, provavelmente, é uma das várias que vão aparecer no futuro, se a gente continuar nessa trajetória”, disse.  

Segundo ele, é apenas por meio de uma retomada verde no mundo pós-covid que será possível mitigar os riscos de novos eventos pandêmicos globais. Ele acredita que será necessário que os setores público e privado tenham agenda que atenda ao menos três tópicos principais: sociedade mais equitativa, positiva à natureza e neutra em carbono. 

Além dessas práticas terem papel fundamental para melhorar a relação da humanidade com a natureza, olhando especificamente para o Brasil, Fonseca ressalta que uma retomada verde é o único trilho possível para o País ser competitivo globalmente. 

“O setor privado está atento à percepção negativa que o Brasil tem internacionalmente, principalmente em questões ambientais e sociais da Amazônia. Essa perspectiva negativa é altamente prejudicial para o País. Não só do ponto de vista reputacional, mas também para o desenvolvimento de negócios e atração de capital para projetos que são indispensáveis para o desenvolvimento sustentável”, explicou. 

Além disso, o especialista destacou que o território brasileiro já sofre com os efeitos das mudanças climáticas, que devem piorar. Segundo ele, há pesquisas que mostram grande possibilidade de correntes oceânicas em territórios brasileiros sendo afetadas, além de inundações em regiões mais úmidas, ventos extremos no País e até mesmo eventos de neve na Região Sul. Esse último tipo de evento pode resultar, como ressaltou Fonseca, em colheitas mais fracas, com resultado direto em preços de produtos.   

O diretor do GEF reforçou que o Brasil não está no caminho certo para cumprir metas ambientais, afirmando que o País não desenvolveu uma estratégia nacional integrada de longo prazo para atingir suas metas climáticas. "Por outro lado, em uma nota um pouco mais animadora, algumas reformas no setor de infraestrutura, juntamente com a liderança da comunidade empresarial, o trabalho das ONGs, das organizações da sociedade civil na agenda climática, oferecem oportunidades importantes para se trabalhar uma recuperação verde no Brasil”, disse. 

O GEF, grupo do qual Fonseca faz parte, foi criado às vésperas da Eco-92, conferência realizada no Rio de Janeiro, em 1992, sobre o clima, e apoia convenções internacionais, como de biodiversidade, além de atuar no enfrentamento de problemas de desertificação e degradação da terra. 

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Agenda de biodiversidade enfrenta falta de métricas padronizadas e de investimento em pesquisa

Especialistas discutiram a importância da conservação do capital natural em painel da Conferência Brasil Verde, que o Estadão realiza até sexta-feira

Heloísa Scognamiglio , O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 14h45

 

A agenda do mundo corporativo e do mercado financeiro que trata da conservação da biodiversidade traz inúmeros desafios. Entre os principais, está a ausência de métricas padronizadas e universais para medir o estágio de degradação do meio ambiente, que permitiriam o estabelecimento de metas sobre como é preciso agir para restaurar e conservar os ecossistemas. Outra dificuldade é a falta de investimentos em pesquisa e desenvolvimento, que são essenciais para a inovação e o crescimento sustentável da economia. 

As reflexões foram expostas no primeiro painel desta quarta-feira, 25, da Conferência Brasil Verde 2021, evento online realizado pelo Estadão. Com mediação da jornalista da Agência Estado Karla Spotorno, o debate contou com a presença de Augusto Corrêa, secretário executivo da PPA - Parceiros Pela Amazônia; Guilherme Faleiros, analista de seleção e aceleração da AMAZ e do Idesam; e Luciane Moessa, sócia-fundadora da Soluções Inclusivas Sustentáveis (SIS)

Única latino-americana a participar da força-tarefa TNFD (Taskforce on Nature-Related Financial Disclosures), que reúne representantes da ONU, governos, empresas, instituições financeiras e terceiro setor para discutir os impactos da atividade econômica no capital natural, Luciane Moessa explicou que a agenda de biodiversidade é tão urgente quanto a agenda climática. “Os sinais de degradação são evidentes, precisamos saber o que temos que fazer para que a sobrevivência dos seres humanos no planeta continue viável”, disse. 

Ela explicou que o mercado financeiro, que já é muito cobrado em relação a impactos socioambientais, criou a iniciativa como uma forma de destacar os riscos e as oportunidades da agenda de biodiversidade. A intenção, segundo Luciane, é que, na COP 15 da Biodiversidade, que vai ocorrer na China, se alcance um acordo para a definição de métricas para apurar como está a degradação ambiental e, a partir dessas métricas, sejam traçadas metas de restauração e de conservação da natureza. A ausência de métricas é apontada por ela como um dos grandes desafios da agenda de biodiversidade. 

“Temos a média da temperatura global para medir as mudanças climáticas, mas como medimos como está o capital natural, a água, o ar, o solo, a fauna e a flora? Não sabemos se é possível ser apenas uma métrica ou se serão várias, mas precisamos dessa definição para então estabelecermos metas. Onde estamos agora e onde precisamos estar em dez, vinte anos?”, afirmou. 

Luciane ressaltou, no entanto, que a ação é urgente e deve ser imediata. “Precisamos tentar chegar a acordos para padronizar informações e agir de forma coordenada. Mas, enquanto isso, há muito que se pode fazer. Existem informações da mesma forma, completinhas, de todos os biomas de todas as regiões do planeta? Não. Mas há algumas bases de dados que já existem e podem ser usadas, que o mundo corporativo e o mercado financeiro podem usar para monitorar seus fornecedores. Independentemente de conseguirmos estabelecer as metas agora ou não, todos sabemos os riscos, então não é desculpa para não agir”, alertou. 

Outro obstáculo para a agenda de biodiversidade apontado durante o debate é a falta de investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Para Augusto Corrêa, da PPA, as empresas raramente investem seu capital em estruturação, capacitação e, principalmente, para mitigar os próprios impactos socioambientais. “Vemos muito apetite para investimento, mas vemos pouco capital estrutural. Pouco investimento em pesquisa e desenvolvimento, principalmente de grandes empresas e governos. O grande empresário quer medir resultados mas não coloca os recursos dele para tornar isso possível”, criticou. 

Luciane concordou e acrescentou que o Brasil tem uma biodiversidade enorme e tem um potencial de uso medicinal muito grande. “É um setor extremamente lucrativo, mas quase não temos laboratórios para pesquisar isso. Se tivéssemos essas empresas, fazendo um pouco do que a Natura faz com a pesquisa para o setor cosmético, por exemplo, haveria muito potencial”, afirmou. 

Atuando na Amazônia com a PPA, que trabalha como uma plataforma de fomento a negócios sustentáveis, Augusto Corrêa também apontou os principais desafios para a região em relação à conservação da biodiversidade. A infraestrutura e a dificuldade de acesso a alguns locais dificulta o trabalho da PPA na região. “Não conseguimos oferecer as mesmas oportunidades para todos que estão na Amazônia. Existe a conectividade, mas muitos locais da Amazônia também não têm esse acesso”, afirmou. A questão política, segundo ele, também é um empecilho. “Falamos muito dos números recorde de desmatamento neste governo, mas no governo anterior também houve desmatamento. Precisamos de uma política que atravesse governos”, disse. 

Corrêa contou que a PPA funciona como plataforma colaborativa, olhando para o empreendedorismo de impacto, tendo cuidado com toda a cadeia de valor. Ele conta que, como a PPA conta com 50 membros, entre empresas, fundações e institutos, o maior problema que a equipe encontra é encontrar uma agenda em comum. “Mas o benefício é o valor compartilhado, unir mais atores que possam alavancar iniciativas que não sairiam do papel se tivessem apenas um financiador”, afirmou. 

“Acreditamos que desenvolvimento sustentável é empreendedorismo de impacto, porque gera renda em todas as camadas. Tudo dentro do ciclo virtuoso de conservação da biodiversidade. Olhamos para o todo. Para quem está no topo da pirâmide, mas também para quem está na base, empreendedores individuais, negócios mais incipientes, conectando esses diferentes estágios de negócios para todos participarem do mesmo sistema de desenvolvimento sustentável. Sabemos que estamos chegando ao limite do planeta e isso inclui a biodiversidade, vai afetar a questão da água, do alimento, do desenvolvimento enquanto sociedade”, afirmou. 

Também trabalhando na Amazônia, através da AMAZ aceleradora de impacto, Guilherme Faleiros destacou como o trabalho da organização contribui para a conservação da biodiversidade através do acompanhamento do desenvolvimento de negócios de impacto na região. Ele também afirmou que o conceito de “negócio de impacto” pode ser novo, mas muitos negócios locais já seguem práticas de impacto positivo há muito tempo. “Tem empresa que descobre com a gente que pode ser considerada negócio de impacto. Mas são práticas que eles adotam há décadas: o aproveitamento melhor dos recursos, a geração de renda para todos. Temos muito o que aprender com eles”, disse. 

Faleiros também coordena o projeto "Amazônia em Casa, Floresta em Pé", realizado junto à Climate Ventures. A iniciativa, que surgiu de um laboratório para encontrar os maiores os gargalos de comercialização e logística na Amazônia e para procurar soluções, visa trazer produtos da Amazônia para mais perto de consumidores de  todo o Brasil. 

“Há um potencial muito grande nos negócios da Amazônia e esse projeto também atua para buscar abaixar o preço para os consumidores. A mensagem que deixo é que o cidadão comum consuma esses produtos, que são parte da sua biodiversidade e são de marcas que respeitam e levam o impacto socioambiental à frente. Às vezes não sabemos como contribuir e essa seria uma forma”, disse.

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Avanço na agenda sustentável exige o envolvimento de todos os níveis da empresa, dizem executivos

Participantes do Conferência Brasil Verde 2021, realizada pela Estadão, afirmam que levar as questões socioambientais para dentro das companhias é o que vai garantir a sobrevivência e o lucro dos negócios no futuro 

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 15h16

 

Empresas de todos os ramos e portes precisam cada vez mais internalizar como cultura organizacional as questões socioambientais pois é isso que vai garantir a sobrevivência e o lucro de seus negócios no futuro. Essa foi uma das conclusões do painel que discutiu o desafio da governança socioambiental e as soluções sustentáveis no mundo corporativo como parte da Conferência Brasil Verde 2021, realizada pela Estadão.

Em suas apresentações, executivos do Bradesco, da Minerva Foods, da Grape ESG e do Youth Climate Leaders (Lideranças Jovens para o Clima) concordaram que o primeiro passo para o desafio da agenda sustentável é envolver todo o corpo da empresa, desde o nível mais alto até o  “chão de fábrica” por meio de criação de conselhos, diretorias executivas, comitês e grupos de atuação para desenvolver estratégias de forma transversal. 

Cada um deles falou de suas experiências e linhas de atuação. Taciano Custódio, diretor de sustentabilidade da Minerva Foods, comentou a estratégia da empresa de monitoramento de toda a cadeia de fornecedores diretos da empresa para acompanhar compromissos contra desmatamento ilegal e proteção às terras indígenas e ao meio ambiente.

A empresa adotou tecnologia de sensoriamento remoto, tecnologia geográfica e obteve os melhores resultados entre os grandes competidores nesse campo em auditoria do Ministério Público Federal. “Hoje, temos mais de 14 milhões de hectares monitorados (fornecedores de gado) em todo o Brasil”, informa Custódio. A empresa opera em 100% da cadeia brasileira e em outros países em que atua, diz ele.

“Até 2030 teremos todos os países da América do Sul também monitorados 100%”, afirma o executivo da Minerva. Os elos indiretos, que são os criadores de gado, recebem consultoria da empresa sobre manejo de pasto, cuidado com o solo, que se traduzem em sustentabilidade da ocupação territorial.

Projeto rejeitado

A gerente de sustentabilidade do Bradesco, Fabiana Costa, explicou como o banco age para priorizar empréstimos e investimentos para empresas que seguem os critérios de ESG. Segundo ela, há uma classificação de rating sócio ambiental dos clientes. “Temos um departamento focado em risco ambiental e governança e toda identificação de algum potencial assunto controverso de um cliente que possa trazer algum risco para a imagem do banco, e principalmente para a sociedade, é avaliado e o projeto é rejeitado.”

“Coletar resultados dessas práticas é algo de médio prazo e se a empresa não estiver comprometida vai abandonar o processo no meio do caminho”, avalia Ricardo Assumpção, da Grape ESG, ao comentar sobre as empresas terem de abrir mão de um lucro de curto prazo e obter melhores resultados mais à frente.

O papel da Grape, explica ele, é mostrar como a empresa consegue, com a transição para a economia de baixo carbono, resolver problemas estruturais - inclusive do País - e ter benefícios. “É ensinar a empresa a integrar o sistema na sua cadeia de valor, um trabalho que envolve consultoria e estratégias que não sejam só de gaveta, para cumprir por tabela.

Para Assumpção, todo grupo que mira a sustentabilidade acerta na inovação. Segundo ele, sempre há processos melhores para ser mais eficiente, como utilizar menos produtos químicos no processo produtivo e cada vez mais produtos que não precisam ser retirados ou substituídos com frequência usando mais a economia circular.

Juventude tem pressa

Com a juventude cada vez mais antenada e interessada no tema ESG, o Youth Climate Leaders treina e conecta jovens para trabalharem em áreas de sustentabilidade. “Os jovens estão sendo conscientizados dessa problemática mas não sabiam o que fazer”, justifica Cassia Moraes, CEO da entidade que conecta redes similares de mais de 20 países.

No Brasil, a rede já reúne mais de 500 jovens que participam de cursos e ações sobre estratégias e oportunidades, sejam para voluntariado ou para seguir carreira na área. Cassia afirma que a meta é chegar a 1 milhão de jovens envolvidos até 2030. “Os jovens demandam mudanças mais rápidas”, diz ela, acrescentando que as empresas que quiserem ter em seus quadros os melhores profissionais terão de se comprometer com projetos de carbono neutro.

“Usamos hoje 70% a mais de recursos naturais do que a terra consegue repor, ou seja, se tivéssemos uma cota anual do que a gente pode retirar do planeta e que ele consiga repor de volta para a gente, essa cota anual teria acabado em agosto e, daí para frente, seria cheque especial, pois já estamos no vermelho”, diz Assumpção, da Grape, para quem a  tendência  é conseguir cada vez mais usar menos energia e menos recursos naturais.

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Investimento em sustentabilidade já tem impacto direto na rentabilidade da produção de carne

Monitoramento do rebanho, menor manejo do solo e bem-estar do animal são medidas levada em conta pelos compradores, segundo participantes da Conferência Brasil Verde 2021, realizada pelo Estadão

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 16h17

  

A agenda da sustentabilidade e de combate ao desmatamento na cadeia de produção da carne bovina, que envolve informações sobre a rastreabilidade do animal, melhor manejo do solo, bem-estar do animal, por exemplo, não se trata de mera retórica. Ela tem impactos diretos na rentabilidade do negócio. 

“A sustentabilidade hoje vai além da questão de compliance, de conformidade. A sustentabilidade para o Minerva Foods é negócio”, afirmou Taciano Custódio, diretor de Sustentabilidade do frigorífico.

Ele foi um dos participantes do painel sobre  “Proteção dos ecossistemas e o monitoramento da cadeia de carne: resultados alcançados, desafios e oportunidades", durante o primeiro dia da Conferência Brasil Verde 2021, evento realizado pelo Estadão.

Custódio destacou que se trata de uma oportunidade de abertura de novos mercados, de posicionamento comercial com compradores que pagam mais pelo produto e que encaram a sustentabilidade como atributo.

A partir do momento que o produtor começa a investir em sustentabilidade da sua ocupação territorial, observando o número de animais por hectare, melhor manejo do solo, considerando o bem-estar animal, sistemas integrados, isso se reflete na melhora da sustentabilidade dessa ocupação do território e significa rentabilidade, observou Custódio. E o produtor  se posiciona melhor no mercado, argumentou. “O grande desafio é se conectar não só com a ética do compliance, mas com o efeito da rentabilidade.”

O executivo frisou que a demanda mundial por carne é crescente. A China, um grande comprador de proteína animal e um dos principais mercados para a companhia e demais países dedicados à pecuária, recentemente reforçou preocupações com o meio ambiente.

A potência asiática deverá concentrar 66% da classe média global até 2030, segundo o Banco Mundial, lembrou Custódio. Isso significa uma forte demanda potencial de carne bovina e de outros produtos por conta dessa classe com maior poder de consumo e ávida por alimentos. E os produtores preparados terão enormes oportunidades.

Gargalos

Pedro Burnier, gerente do Programa de Cadeias Agropecuárias da ONG Amigos da Terra-Amazônia Brasileira, disse que nos últimos dois anos os investidores começaram a pressionar as empresas para o monitoramento da cadeia completa.

Segundo ele, os fornecedores diretos da cadeia da carne estão sendo bem monitorados. Dados mostram que esses fornecedores diretos, que engordam o boi, respondem por 32% do desmatamento. A maior parte da dizimação das matas ocorre com  fornecedores indiretos da cadeia da carne, fazendas de cria e recria de bezerros. Nos últimos anos, surgiram  ferramentas para obter soluções para o monitoramento dos produtores indiretos, observou. Essa seria uma dificuldade.

Custódio ponderou, no entanto, que o Brasil lidera a pauta com informações sobre os pecuaristas. Ele disse desconhecer  um país que tenha uma lista tão extensa de áreas ambientais embargadas. Mas frisou que aumentar a disponibilidade de acesso a esses dados é fundamental.

Atualmente, 76% das empresas do setor passam por inspeção federal, e o restante está na esfera municipal e estadual de fiscalização da cadeia da carne. “É preciso aumentar a inspeção sanitária para ampliar a sanidade e a sustentabilidade."

A preocupação com o monitoramento da cadeia da carne hoje vai além do investidores e de barreiras não tarifárias de governos. Ela já apareceu no prato do brasileiro. Burnier constatou, por meio de uma ampla pesquisa feita em 2018 e que serviu como base de sua tese de doutorado, que o consumidor está preocupado com  atributos intrínsecos da carne  que leva para a mesa. 

Questões como de onde vem o produto, sobre o bem estar animal estão no radar dos brasileiros que declararam  estar dispostos a desembolsar mais pela carne rastreada. “O consumidor está começando a demandar mais atributos intangíveis.” 

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Governo federal tem postura aquém do necessário sobre o clima, diz governador do ES

Em participação na Conferência Brasil Verde, realizada pelo ‘Estadão’, Renato Casagrande afirmou que é papel das lideranças dos Estados pressionar o Planalto sobre o tema

Redação , O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2021 | 11h20

 

O governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), afirmou nesta quinta-feira, 26, durante a Conferência Brasil Verde, realizada pelo Estadão em parceria com o Ambipar Group, que o governo federal tem uma postura em relação ao combate às mudanças climáticas aquém do que deveria e ressaltou que é papel das lideranças dos Estados pressionar o Planalto sobre o tema. 

“É possível pressionar o governo, incentivando a ser mais propositivo na área, com maior protagonismo”, disse, em entrevista ao jornalista Luís Fernando Bovo, diretor de conteúdo do mercado anunciante do Estadão. De acordo com Casagrande, os Estados não podem substituir a presença do governo federal, mas existe a possibilidade de se colocarem em fóruns internacionais. “A temperatura do planeta como um todo está aumentando, precisamos tomar medidas para evitar a continuidade disso.” 

Inclusive, nessa linha, foi criado, na segunda-feira, 23, o consórcio “Brasil Verde”, que tem como premissa realizar ações em defesa do meio ambiente, tocadas por cada ente federativo, mas de maneira coordenada com os demais. A ideia foi de Casagrande, aceita pelo Fórum dos Governadores, e o nome foi sugerido pelo governador de São Paulo, João Doria

“O Brasil é continental, cada Estado tem dimensão de um país da Europa. Nós teremos, nesse cenário, decisões com um consórcio único dos Estados brasileiros, com fundo único, governança única. Isso mostra que temos condições de relacionamento com a sociedade, de forma transparente e profissional”, afirmou Casagrande.

O governador do Espírito Santo ainda ressaltou que o tema de combate a mudanças climáticas tem uma agravante: não há uma forte mobilização das pessoas em volta disso, sem pressão popular sobre os líderes. “As pessoas não veem facilmente as mudanças, a não ser que seja um desastre ambiental.” 

Até por conta disso, ele salientou que a presença de empresas privadas nesse processo é muito importante, principalmente quando se fala em neutralização de carbono. “O setor privado é fundamental para ajudar no financiamento de projetos de carbono para neutralizar a emissão, em ações ESG, com preocupação ambiental. Ou seja, a mudança climática não é uma questão somente da gestão pública. É um tripé: setor público, empresas privadas e pessoas físicas, vendo o perfil de consumo no dia a dia e a origem dos produtos.” 

Influenciadores 

Nesse cenário de dificuldade para fazer o tema chegar à grande massa, o governador do Espírito Santo afirmou que a atuação de influenciadores digitais pode ser primordial para o combate às mudanças climáticas. “Nesta semana, o Coldplay (banda britânica) fez postagem em rede social sobre o assunto e nós respondemos. A Greta (Thunberg) é bem ativa. Isso ajuda a consolidar o tema. Infelizmente, ainda temos muitos negacionistas. Precisamos de um trabalho forte de conscientização, com investimento em educação”, concluiu.

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Embalagem que possa ser reciclada é desafio para indústria da beleza

Participantes da Conferência Brasil Verde, realizada pelo 'Estadão', afirmaram que consumidores mais jovens exigem das marcas maior consciência ambiental, o que obriga o setor a se movimentar

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2021 | 11h45

 

A embalagem de cosméticos é um dos grandes desafios da indústria da beleza, de forma a garantir que os materiais, que são recicláveis, possam de fato ser reciclados. A dificuldade tem sido conseguir ter uma logística reversa que permita que essas embalagens cheguem, após o consumo do produto, de volta aos fabricantes, para que o mesmo material possa ser transformado em uma nova embalagem. 

Esse desafio é uma realidade das marcas que nasceram com foco na sustentabilidade, o que inclui o uso de matérias-primas naturais e orgânicas e sem afetar a natureza, deixando produtos químicos de fora do processo produtivo, por exemplo. O assunto foi abordado nesta quinta-feira, 26, em painel sobre a cadeia da beleza, durante a Conferência Brasil Verde, evento realizado pelo Estadão.

“Temos que sempre estar atentos ao pós-consumo. O consumidor, quando leva para casa um produto, precisa pensar no que vai acontecer quando o mesmo acabar”, disse a fundadora e CEO da Simple Organic Beauty, Patrícia Lima. 

Segundo ela, essa logística reversa, que ocorre quando o cliente leva de volta as embalagens à loja, trata-se de um grande desafio - no caso da marca, até 30% das embalagens chegam de volta após o uso do produto. A educação é um ponto chave nesse ponto, diz. De acordo com a executiva, a empresa já abriu mão da estética da embalagem por conta do possível impacto ambiental.

A diretora regional da Weleda da América Latina e CEO Brasil, Maria Claudia Villaboim Pontes, aponta que a questão econômica é mais um desafio em relação às embalagens, já que aquelas feitas de materiais que são mais reciclados, como o alumínio, são mais caras, o que pode ser difícil de justificar ao consumidor. O uso do plástico nas embalagens, por exemplo, torna a embalagem muito mais barata. Segundo ela, outro aspecto dessa economia circular é buscar otimizar a utilização das sobras em todo o processo fabril.

Patrícia Lima aponta que a geração Z, que é aquela nascida entre a segunda metade da década de 1990 até o início do ano 2010, exige das marcas maior consciência ambiental, o que tem obrigado a indústria da beleza e também da moda a se movimentarem.

Maria Claudia, da Weleda, aponta que outro aspecto que tem relação com a educação do consumidor é o hábito de ler as embalagens dos produtos - algo que vai além dos cosméticos e deve ser replicada na indústria alimentícia. Existe uma confusão do consumidor, por exemplo, de que todos os produtos veganos são orgânicos e naturais, o que não é verdade, frisa.

Na indústria da moda, as empresas começam a se movimentar. Na Renner, por exemplo, a rastreabilidade da cadeia, para se saber com exatidão a origem da matéria-prima. “O monitoramento precisa ser feito de forma aprofundada”, afirma o gerente-geral de sustentabilidade da varejista, Eduardo Ferlauto. E para que a sustentabilidade seja de fato uma prioridade da empresa é preciso que exista  engajamento de toda a corporação, com metas e compromissos bem definidos. 

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