País está engajado em responsabilidade fiscal, diz Meirelles

Presidente do BC afirma também que não será surpresa se deixar de existir superávit em conta corrente

Célia Froufe, da Agência Estado,

17 de dezembro de 2007 | 14h08

O Brasil está engajado em um processo de responsabilidade fiscal, na avaliação do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. "O País está engajado e claramente existe uma expectativa de responsabilidade fiscal, independente de questões pontuais como a CPMF", disse em relação à não-aprovação da prorrogação da contribuição no Senado, na semana passada.  De acordo com Meirelles, essa é uma avaliação da sociedade e de membros do governo. Ele salientou que, particularmente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem reforçando esse engajamento.  Meirelles afirmou também que não será surpresa para ninguém se, por um certo período, deixar de existir superávit em conta corrente. "Isso será natural e o superávit foi importante na época do ajuste, permitindo até acumulação de reservas internacionais", comentou durante Seminário "Reavaliação do Risco Brasil", organizado pelo centro de economia mundial da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo.  Ele salientou que a acumulação de reservas tem custo, sim, mas também traz um duplo ganho para o País, já que funciona como um seguro que não apenas paga o sinistro no caso de uma dificuldade, mas também porque o evita. Um dos pontos positivos salientados pelo presidente do BC sobre a economia brasileira é a de que, no passado, era necessário somar três anos de volume de exportação para pagar a dívida líquida externa total. "Hoje, estamos próximo a zero, estamos discutindo aqui quantas semanas são necessárias", comentou.  Sobre as críticas feitas no passado de que o Banco Central poderia ter sido mais ousado para promover o crescimento do País, Meirelles disse que a leitura que faz de ousadia é a de procurar manter a inflação na meta. Para ele, o crescimento no próximo ano continuará a ser sustentado porque a demanda interna e o crédito continuarão a crescer, bem como as importações. Questionado pelo economista da Goldman Sachs, Paulo Leme, a respeito de suas projeções para inflação e juros no próximo ano, Meirelles reforçou que o BC não comenta estes assuntos fora da ata do Copom, que saiu na semana passada, e no relatório trimestral de inflação, previsto para ser divulgado até o final do mês, e em pronunciamentos específicos. "Não acho que seja o caso agora", disse. Sobre a expansão da bancarização e do crédito, o presidente do BC enumerou o desempenho positivo do crédito consignado, de veículos e do crédito ao consumidor. "O crédito consignado tem um limitador natural, que é o porcentual de salário. Estamos monitorando isso com muita atenção e, se houvesse uma preocupação, não hesitaríamos em fazer alocação de capital", afirmou.  EUA Meirelles atribuiu o atraso da implantação do acordo de Basiléia II nos Estados Unidos como um dos fatores para a crise de crédito que se instalou naquele país. "Não há dúvidas de que o atraso foi um dos fatores que contribuíram para o estresse de agora", comentou. "O que está se discutindo agora é se a sua implantação será suficiente." De acordo com Meirelles, não há dúvidas de que os bancos centrais de todo o mundo têm mecanismos de atuação prudencial e que, se houvesse algum problema no Brasil, a autoridade monetária local não hesitaria em tomar providências. "Não é o caso agora", disse. Momentos antes, ele comentou que, ao contrário das principais economias do mundo, o Banco Central brasileiro vem retirando liquidez do mercado. Meirelles voltou a demonstrar atenção em relação à possibilidade de exuberância racional dos mercados. Disse, no entanto, que é muito difícil se definir qual é o preço mais correto para determinado ativo. "O fato concreto é que hoje é um fator de menor preocupação", considerou. Brasil Sobre o desempenho do Brasil perante a turbulência financeira externa, Meirelles comentou que uma das maiores surpresas foi o fato de o mercado de câmbio doméstico ter sido o que mais sofreu nos primeiros dias de crise. "Recebi telefonemas pedindo que o BC atuasse, mas não vimos motivos para isso. Depois, ficou claro que a razão do comportamento estava ligada à liquidez brasileira", considerou.  Ele apresentou ainda a movimentação dos contratos de credit default swap acumulados em 6 meses até 12 de dezembro e disse que o comportamento dos ativos que precificam o risco do Brasil estava muito próximo de países grau de investimento, como México e Turquia. Ainda sobre a turbulência externa, ele lembrou que dias antes da crise o BC adotou uma medida muito criticada de alocação de capitais de instituições financeiras para exposição cambial. "Isso também ajudou na reação da economia, pois um dos amortecedores da crise aqui foi a não-exposição do sistema ao câmbio", defendeu.

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