País está pronto para voltar a crescer, diz Fraga

Apesar do furacão financeiro que se alastrou pelos mercados e fez estragos significativos na economia brasileira nos últimos meses, o País que vai hoje às urnas escolher o novo presidente está mais fortalecido e pronto para retomar a rota de crescimento econômico, na avaliação do presidente do Banco Central, Armínio Fraga. Escolhido como um dos coordenadores da equipe de transição do presidente Fernando Henrique Cardoso, Fraga contestará, durante as discussões com os representantes do presidente eleito, a tese de que "está tudo errado" e tentará desfazer essa imagem que, segundo ele, foi cristalizada no debate sucessório do primeiro turno. "Há muito tempo o País não está tão preparado para retomar uma trajetória de crescimento", afirma. Para isso, é preciso que o presidente eleito assuma com uma agenda clara e uma equipe preparada para atacar o principal problema: a crise de confiança que se abateu sobre o Brasil. Assim, será possível levar o País à categoria de investimento, o que, na prática, significa incluí-lo na lista de economias que as agências de classificação de risco recomendam para os investidores internacionais. Em entrevista ao Estado, Fraga reconhece que o comportamento da oposição nas últimas semanas teve papel importante na mudança de humor do mercado que se intensificou nos últimos dias e relaciona os principais temas que deverão estar na mesa de conversas. Ele diz que a negociação do acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que garantirá ao próximo presidente o direito de usar US$ 27 bilhões disponíveis para o Brasil, não deverá ser problema, e argumenta que pode ser dispensável um aumento da meta de superávit primário para o ano que vem. "O aumento do superávit seria uma medida quantitativa. Existem outras idéias que podem ser incorporadas. Por exemplo, uma agenda legislativa." Fraga critica ainda a tese de que o Brasil pode conviver com um pouco mais de inflação para não sacrificar o crescimento. "Tolerância com inflação nunca trouxe mais crescimento." E avisa que o BC não aceita rediscutir a meta de 4% para a inflação no ano no governo de transição. Estado - Quais as pendências deste governo que deverão ser colocadas na mesa, na terça-feira, pela equipe de transição? Armínio Fraga - Pensamos na transição desde maio. Os contatos que fizemos com os candidatos, o trabalho com o FMI de construir uma ponte financeira para dar condições de manejo ao próximo presidente fazem parte disso. O trabalho formal da transição, uma vez definida a eleição, vai dar continuidade a isso. Estamos preparados e vejo isso com naturalidade. Ao chegar, fui beneficiado com uma passagem de bastão que foi valiosíssima. Pretendo fazer o mesmo com meu sucessor. Passar no detalhe todos os projetos que estão em andamento, todos os problemas com que estamos lidando. Estado - Quais são os pontos prioritários que o BC vai indicar? Fraga - Continuo convencido de que vivemos hoje uma crise de confiança e tenho feito esforço para consolidar dois pontos. A situação da economia brasileira é bem melhor do que parece. O clima do debate no primeiro turno passou para o povo uma imagem extremamente negativa da nossa situação, que não corresponde à realidade. A idéia de que está tudo errado não procede. Há muito tempo o País não está tão preparado para retomar uma trajetória de crescimento. Nos confrontamos com uma seqüência inacreditável de choques, mas a economia está pronta para reagir porque foi feito o ajuste inflacionário, bancário, fiscal, um superávit primário que ocorre num momento de crescimento bem abaixo do potencial, o ajuste cambial - que foi além da conta nesse momento de tensão, mas deu grande contribuição para o ajuste no balanço de pagamentos - e demos uma guinada fantástica de produtividade. Se no atual ambiente horroroso a economia está crescendo 1,5%, em ambiente normal e superada essa crise de confiança, vai crescer muito mais.

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