PAÍS LEVOU POLÍTICOS E BANQUEIROS AO BANCO DOS RÉUS

Em muitos países, governos foram derrubados pela crise. Em muitos outros, a direção dos bancos foi demitida. Mas apenas na Islândia políticos e banqueiros foram levados ao banco dos réus e condenados à prisão por terem levado o país ao colapso. Hoje, políticos entrevistados pelo Estado denunciam a "caça às bruxas" como um teatro promovido por alguns partidos para tentar dar uma resposta para uma população enfurecida. Ainda assim, as condenações mudaram o comportamento da classe dirigente.

REYKJAVIK , O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2014 | 03h12

O caso mais emblemático foi a condenação do ex-primeiro ministro, Geir Haarde, por negligência. Ele governou o país entre 2006 e 2009 e foi denunciado por não ter convocado seu gabinete no momento da crise e por questões de procedimento e escapou de ser enviado para cumprir dois anos de prisão. Sua condenação foi estabelecida por uma corte especial.

Mas, hoje, políticos insistem que o tribunal foi uma "manipulação" e o partido de Haarde já voltou ao poder. O Partido da Independência ganhou as eleições em 2013, e controla uma vez mais o governo. "Processar Haarde foi uma piada", declarou ao Estado o deputado de seu partido, Vilhjálmur Bjarnason. "A caça às bruxas não resolve nada", insistiu. Para ele, os responsáveis pela crise não foram nem os banqueiros nem os políticos, mas sim as firmas de auditoria que olhavam todos os meses as contas dos bancos e nada fizeram para alertar a direção para a falta de sustentação do modelo. "Esses são os reais culpados."

Banqueiros em fuga. Mas a realidade é que mais de uma dezena de banqueiros acabou fugindo da Islândia depois do colapso e passou a viver em Londres. No ano passado, a Corte Suprema da Islândia já condenou à prisão o ex-CEO do banco Byr, Ragnar Z. Guðjónsson, e o ex-presidente do banco, Jón Thorsteinn Jónsson. Quem também foi condenado foi o vice-ministro de Finanças, Baldur Guðlaugsson, por ter se aproveitado da crise para vender ações antes da quebra dos bancos.

Quatro ex-executivos do maior banco do país, o Kaupthing, também foram condenados a cinco anos de prisão. Uma das acusações foi de que o banco emprestou dinheiro para uma empresa do Catar anunciar que estava investindo na própria instituição financeira. O acordo foi anunciado em setembro de 2008, quando a crise já era profunda, e tinha como meta mostrar aos mercados que investidores ainda apostavam no banco.

O ex-CEO do banco Glitnir, Larus Welding, foi condenado a nove meses de prisão em 2012 por dar empréstimos a uma empresa sem garantias. A empresa era acionista do banco.

Em março de 2013, a Justiça indiciou 15 executivos dos bancos Kaupthing e Landsbank por manipular os mercados na tentativa de manter ações a preços elevados. Os próprios bancos compravam as ações momentos antes de o mercado fechar, Além disso, emprestavam dinheiro a empresas para que comprassem as ações de seus bancos.

Logo após o colapso do país, em outubro de 2008, o governo foi obrigado a fazer anúncios para tentar acalmar a população. Um deles foi a criação de um procurador especial para investigar os responsáveis pela crise.

O escolhido foi Ólafur Hauksson. Mas não por ser o melhor candidato e sim porque era o único que apareceu interessado no cargo. Hauksson decidiu enviar sua candidatura, mesmo sem nenhum tipo de experiência em bancos. Ele era o chefe da polícia da cidade de Akranes, de 6 mil habitantes, e sua mesa estava repleta de casos de motoristas bêbados e violações sexuais. Hoje, comanda uma estrutura com mais de cem funcionários, policiais, advogados, auditores e ex-banqueiros. Desde 2009, já anunciou o indiciamento de 45 pessoas. Mas seu escritório confirmou ao Estado que cerca de 80 casos ainda estão sendo investigados.

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