''País não deve aproveitar a liquidez inocentemente''

Segundo Alexandre Tombini, fluxo excessivo de dólares pode causar problemas para o Brasil

Leandro Modé, Raquel Landim, Beatriz Abreu e Marisa Castellani, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

Entrevista - Alexandre Tombini

O presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, diz que o governo está atento a dois riscos potenciais à economia brasileira: o forte crescimento do crédito e a entrada de capitais estrangeiros no País. A seguir, os principais trechos da entrevista, concedida na sexta-feira.

A presidente Dilma Rousseff disse que o combate à inflação é prioridade. Por que o BC desistiu de buscar o centro da meta de inflação em 2011?

Nos três primeiros meses do ano, já tínhamos inflação de 2,44%. Para manter a meta de 4,5%, significaria uma inflação de 2% em nove meses, o que não é razoável. Isso não tem nada a ver com autonomia do Banco Central. Simplesmente não seria possível dizer que atingiríamos a meta de 4,5% em 2011. Então, comunicamos claramente que o centro da meta de 4,5% seria atingido em 2012.

Nesses últimos meses, a inflação está mais controlada, mas os economistas dizem que voltará com força logo a seguir. Qual é a sua opinião?

O próprio mercado espera uma inflação anualizada de 4,5% para baixo no restante do ano. Em março, já sabíamos que a inflação mensal cairia e convergiria para um nível coerente e consistente com a meta de 4,5%. Por que esperamos isso? Por tudo que estamos fazendo: política monetária e fiscal.

Há uma desaceleração na economia brasileira?

O Banco Central comunicou na ata do Copom, divulgada quinta-feira, que a desaceleração é sujeita a incertezas. Há indicadores que apontam uma desaceleração maior e há indicadores que apontam em outro sentido. O BC não está fazendo uma aposta num sentido ou em outro. Está reconhecendo que isso precisa ser observado.

As projeções dos analistas estão mais próximas às do BC. Mudou o BC ou o mercado?

O Banco Central tem um plano de voo definido para trazer a inflação de volta para meta. Em março, comunicamos que essa convergência para o centro da meta seria em 2012. É natural que, quando a inflação corrente está rodando em níveis mais altos, seja mais difícil convencer o mercado dessa estratégia. Mas, a partir do momento em que a inflação mensal começa a apontar níveis compatíveis com a meta de 4,5%, há mais oportunidades para a sociedade em geral, não só o mercado, entender a nossa estratégia e se convencer.

A relação entre Fazenda e BC está mais harmônica?

A relação está harmônica, o que não quer dizer que não estava harmônica. Fiz parte da gestão anterior e sempre houve um diálogo grande com a Fazenda.

O ministro Guido Mantega é ouvido nas decisões do BC?

O Banco Central escuta o mercado, a sociedade, mesmo nas decisões em que tem competência exclusiva. Agora, quem decide sobre taxa de juros é o BC e o Comitê de Política Monetária (Copom). Nesse processo, qualquer banco central ouve a sociedade e os especialistas. Naturalmente, o ministro da Fazenda é ouvido sobre o tema.

Qual a influência da presidente Dilma nas decisões do BC?

A presidente dá o comando. E o comando dela tem sido muito claro para que as políticas do governo sejam adotadas e ajustadas visando a assegurar a estabilidade monetária e a inflação na meta. É isso que temos feito.

Alguns críticos dizem que há uma vinculação excessiva entre BC e Executivo na sua gestão.

O BC é uma autarquia. Sou ministro de Estado. Além de presidente do Banco Central, faço parte do conjunto do ministério. Há um diálogo intenso nas questões, por exemplo, de regulação do Conselho Monetário Nacional. E há um diálogo sobre avaliação econômica. Desde o dia em que fui convidado, no fim de novembro de 2010, tenho dito que a presidente Dilma deu toda a autonomia para o BC atuar, para cumprir a sua missão de assegurar a estabilidade monetária, o controle da inflação. É o que temos feito.

O sr. usa bastante o verbo moderar. O BC também poderia moderar a taxa de juros para evitar que o crescimento econômico ficasse abaixo de 4%?

Não. O BC faz a política monetária necessária para fazer a convergência da inflação à meta. A economia, obviamente, é parte desse processo. Por meio da economia é que se transmitem os impulsos das decisões do BC sobre a taxa básica de juros.

Mas o BC avalia também o crescimento econômico?

De novo: o crescimento econômico é o condutor da política monetária. Quando a gente fala em moderar a demanda, estamos dizendo que nossos instrumentos são ajustados para afetar a economia.

No Brasil, o mandato do BC é manter a inflação na meta. Outros países consideram também crescimento. Sua gestão leva em conta inflação e crescimento?

Olhamos para a inflação. Ajustamos nossos instrumentos para atingir a meta. Dito isso, o Banco Central reconhece que é possível trazer a inflação para a meta crescendo. Isso tem acontecido e acontecerá. Nós levaremos a inflação de volta para a meta de 4,5% em 2012, com a economia brasileira crescendo.

Como?

Como está sendo feito. A economia continua crescendo a uma taxa menor que a do ano passado, mas continua crescendo. E a inflação começa a dar sinais de convergência maior para o objetivo explicitado. O meu objetivo é trazer a inflação para a meta. É isso que norteia. O que eu digo é que há o reconhecimento de que é possível fazê-lo com a economia crescendo. Menos do que no ano passado, quando o PIB avançou mais de 7% e a demanda, mais de 10%. Isso gerou pressões (inflacionárias). Então, é preciso neste ano trazer o crescimento para um nível mais baixo, mas, ainda assim, positivo.

Teremos uma série de reajustes salariais nos próximos meses. E, em 2012, o mínimo subirá cerca de 14%. Como o BC sozinho trará a inflação para a meta?

O BC não está sozinho. Temos uma estratégia de governo, de moderação do crédito e de ajustes fiscal e monetário. Essas negociações salariais são privadas entre trabalhadores e empresários. O que o governo e o BC podem oferecer é uma política consistente, que leve sem ambiguidade a inflação para o centro da meta em 2012. Dessa forma, haverá um incentivo maior para olhar para a frente, e não para trás, nas negociações salariais no terceiro e no quarto trimestres. A questão do salário mínimo é uma negociação entre o governo e o Congresso. O Banco Central não interfere.

O sr. disse que o BC não está sozinho, mas o governo autorizou na quinta-feira um repasse de R$ 30 bilhões ao BNDES.

Considero consistente a atuação do BNDES. O Luciano Coutinho, presidente do BNDES, já falava, no início do ano, que faria parte desse processo de moderação. Isso tem ocorrido de fato. A média de empréstimos mensais do BNDES está caindo em relação a 2010. O repasse previsto era de R$ 55 bilhões. Os atuais R$ 30 bilhões estão em linha com a moderação do crédito este ano.

O sr. ficou satisfeito com o corte no repasse?

Eu vejo com bons olhos que todos façam parte do esforço. Não quero fulanizar essa ou aquela instituição. O que precisamos é ter o crédito global da economia crescendo em linha com a expansão projetada para a economia brasileira.

O BC adotou medidas macroprudenciais por que identificou movimentos estranhos no crédito ou para controlar a inflação?

O objetivo da medida macroprudencial é assegurar a estabilidade do sistema financeiro. O que nós vimos naquele momento foi o crédito de financiamento do consumo expandindo numa velocidade grande. Algumas operações estavam sendo feitas em prazos que iam além da vida útil das garantias. Essas operações alongadas desapareceram, reduzindo o risco da economia.

Para os analistas, o BC apostou nas medidas macroprudenciais para conter a inflação, mas tomou um susto e voltou a recorrer à alta dos juros.

Não houve mudança, não houve hesitação em usar a política monetária convencional para assegurar a estabilidade monetária. Ao contrário, desde o início, utilizou-se a política monetária convencional.

As medidas macroprudenciais foram suficientes ou o BC ainda identifica problemas no crédito?

Não se fala em suficiência neste assunto. A missão do BC é assegurar a estabilidade do sistema financeiro. Por isso, temos uma avaliação contínua, particularmente do crédito. Toda vez que identificarmos riscos extraordinários, vamos atuar.

Alguns analistas, sobretudo internacionais, dizem que há risco de bolha de crédito no Brasil.

Não vou julgar analistas, principalmente do exterior. Em relação à bolha de crédito, se existe um BC ativo na regulação prudencial do sistema financeiro, é o Banco Central do Brasil. Trabalhamos cotidianamente para que não ocorram excessos que levem a um risco sistêmico, a uma bolha que estoure ali na frente. Estamos muito tranquilos em relação a isso. Acho que é preciso investir um pouco mais no entendimento da economia brasileira para fazer uma avaliação mais madura.

Os bancos nunca veem risco de bolha. Se o Banco Central permitir, as bolhas são infladas?

O Banco Central não deixa o mercado ir. Nunca deixou, não está deixando e não deixará o mercado se autorregular.

O Conselho Monetário Nacional vai se reunir em breve para decidir a meta de inflação de 2013. Na sua avaliação, o Brasil já tem condições de perseguir uma meta inferior a 4,5%?

A reunião é em duas semanas. Qualquer coisa que eu disser, prejudica a decisão.

Existe uma discussão hoje se o capital especulativo está entrando no País "disfarçado" de Investimento Estrangeiro Direto (IED), para burlar os recentes aumentos de IOF...

Essa não é a avaliação do Banco Central. Recentemente, vi uma avaliação de que os empréstimos intercompanhias estão sendo utilizados para arbitrar em cima da regulação. Veja a evolução desses empréstimos. Não só o investimento estrangeiro não está numa trajetória explosiva de expansão, como os empréstimos intercompanhias estão quase estabilizados.

O sr. não vê necessidade de taxar o IED?

Contra os números, não há muita argumentação.

Por que o juro no Brasil é estruturalmente tão alto?

Apesar de estar mais elevada do que em outros países, a taxa de juros real tem caído ao longo do tempo. Creio que esse processo de convergência às condições internacionais prossegue. Mas não tem prazo fixo para essa convergência.

A presidente Dilma disse que vai reduzir os juros reais (descontada a inflação) a 2% no final do seu mandato. É possível?

Tenho segurança de que continuaremos avançando para que a taxa de juros brasileira convirja para níveis menores.

O Brasil tem quase US$ 350 bilhões de reservas e o BC segue comprando. Esse colchão já não é suficiente?

As reservas foram fundamentais na crise de 2008 e têm sido fundamentais para baixar os custos e riscos da economia brasileira, o que se traduz em condições de financiamento melhores para o setor privado e também para o setor público. As nossas reservas estão basicamente estáveis quando comparadas ao tamanho da economia. Temos um nível de reservas abaixo de 15% do PIB. A Índia tem mais de 20%, a Rússia, 30% e a China, quase 50%.

Mas é tão caro para esses países manter reservas como no Brasil?

Temos de avaliar custo e benefício. Esse seguro se mostrou muito importante para o Brasil sair mais rápido da crise e entrar em rota de crescimento.

A compra de reservas ajuda a manter o câmbio estável. O BC se preocupa com o câmbio?

O Brasil adota câmbio flutuante. Mas o BC e o governo entendem que a intensidade dos fluxos causa problemas. Temos trabalhado com um conjunto amplo de instrumentos para que o Brasil não aproveite inocentemente essa ampla liquidez internacional. E, quando esses fluxos reverterem lá na frente, não tenhamos dissabores ao lidar com os impactos, não só no sistema financeiro, mas na economia real. Já vimos esse filme em 2008. Além disso, nosso câmbio andou. Em meados do ano passado, o dólar estava em R$ 1,85. Hoje, está em R$ 1,60.

Faz tempo que o BC não adota uma medida forte no câmbio.

Veja o fluxo da balança de pagamentos. A média mensal veio muito forte no primeiro trimestre, mas caiu no segundo.

Por quê?

Quero crer que uma parte disso tem a ver com as medidas tomadas de moderação de fluxo, como os diversos aumentos de IOF. Também tem o ambiente internacional, que mudou nesse período.

As medidas de moderação do fluxo de capitais são feitas em conjunto por Fazenda e BC?

Há um diálogo permanente entre Fazenda e BC sobre esse e outros temas. Nós temos participado. O BC tem dito que, dependendo da intensidade, esses fluxos causam dois problemas para a inflação: provoca alta nos preços dos ativos e alimenta a expansão do crédito.

Em qual circunstância excepcional o BC admitiria trazer a inflação de volta para o centro da meta apenas em 2013?

Não há possibilidade disso. Estamos a 18 meses do fim de 2012, o plano de voo está traçado e será ajustado conforme o necessário para trazer a inflação ao centro da meta em 2012.

Qual a diferença entre o BC de Tombini e o BC de Meirelles?

Não saberia dizer. Tem de perguntar a quem está de fora. Mas, certamente, o objetivo do BC não mudou. As missões são as mesmas e o BC vem atuando com total autonomia operacional - disse isso quando fui convidado, reiterei no início do mandato e reitero agora, com quase sete meses no cargo. Os resultados já estão aparecendo, para trazer a inflação de volta para o centro da meta em 2012.

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