País não está pronto para disputar mercados, avalia Abag

O Brasil não está preparado para aproveitar as oportunidades que devem surgir com uma maior abertura dos mercados internacionais para as exportações de produtos agrícolas. A avaliação é de Roberto Rodrigues, ex-secretário de Agricultura de São Paulo e atual presidente da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag). Rodrigues participou nesta segunda-feira de manhã da abertura do VII Congresso Brasileiro de Marketing Rural, que termina amanhã na Câmara Americana de Comércio, em São Paulo.Para o presidente da Abag, os países desenvolvidosestarão mais abertos às exportações de produtos agrícolas nos próximos dois ou três anos. "Está havendo uma mudança de paradigma depois do atentado ao World Trade Center", avalia. "Os países ricos estão percebendo que o imenso abismo entre ricos e pobres está fermentando atos como o ataque de Bin Laden, e devem fazer concessões comerciais para reduzir esta tensão."Para Rodrigues, o Brasil precisa se preparar para aproveitar as chances que vão aparecer. "As oportunidades estarão abertas a vários países em desenvolvimento como oBrasil", lembra. No entanto, para o presidente da Abag, a maior ênfase do governo federal nas exportações ainda não é suficiente para explorar todo o potencial brasileiro. "Ainda não estamos preparados para aproveitar as oportunidades oferecidas, há necessidade de mudança nas políticas macroeconômicas", afirma. Ele cita três grandes gargalos: política tributária inadequada, juros muito altos e investimentos insuficientes em logística.PoligamiaPara o presidente da Abag, o Brasil deve manter uma posição ambígua nas negociações para acordoscomerciais da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e com a União Européia. "Devemos cortejar os dois lados, sem ´casar´ com nenhum dos acordos, até que se consigam maiores ganhos dentro da OMC", explica. "O Brasil deve exercer a poligamia comercial, estando atento a vários mercados potenciais, inclusive os asiáticos."Rodrigues diz que norte-americanos e europeus não estãointeressados exatamente no Mercosul. "Não é no Paraguai,Uruguai e Argentina que há grande interesse comercial, mas no Brasil, um país de 170 milhões de habitantes e com grande potencial de consumo", afirma. "É disso que temos que tirar proveito para conseguir aberturas para os nossos produtos."O secretário de Produção e Comercialização do Ministérioda Agricultura, Pedro de Camargo Neto, diz que o agribusiness deve estar atento às demandas do consumidor para ampliar a atratividade das exportações. "O consumidor dos países desenvolvidos está cada vez mais preocupado com a qualidade dos alimentos, principalmente em termos sanitários", afirma. "Mas existem também preocupações com o trato ambiental e as condições trabalhistas nas regiões produtoras", observa.Camargo Neto cita o exemplo da carne com hormônios,produzida nos EUA, mas rejeitada pelo consumidor europeu. "Os EUA produzem esta carne há 50 anos e já está claro que não há riscos para a saúde, mas o consumidor europeu não quer esta carne, e a UE se comporta de acordo com esta posição."O secretário afirma que cabe ao setor privadoidentificar as demandas dos consumidores de mercadosinternacionais e fortalecer marcas brasileiras. "Este não é opapel do governo, as empresas privadas é que devem fazer visitas de prospecção de mercado, como é o caso da China", diz.Em relação ao combate aos subsídios e derrubada debarreiras que dificultam o acesso a mercados, o secretário dizque o governo deve ter novidades nos próximos 30 dias. Camargo Neto acredita que, nesse período, o Brasil conseguirá homologar o painel que contesta, na Organização Mundial do Comércio (OMC), os subsídios que os EUA oferecem à produção de soja.A posição brasileira é de que tais subsídios contrariamas regras da OMC. Pela chamada "Cláusula da Paz", selada em meados da década de 90, ficava vetado aos países-membros questionar subsídios à agricultura até os tetos usados em 1992. A questão é que a soja não estava incluída na política agrícola dos EUA naquele ano, argumenta o Brasil. Portanto, não poderia ser incluída na cláusula.O deputado Xico Graziano (PSDB-SP) acredita que precisahaver uma mudança na visão que o País tem do campo e na própria auto-imagem e princípios dos ruralistas. "Criou-se uma civilização urbana no Brasil que enxerga o campo como um lugar do atraso, da ignorância", explicou. "Por outro lado, o ruralista é, por vezes, muito tradicionalista e não vende uma boa imagem", afirma.Graziano, ex-secretário da Agricultura de São Paulo eex-ministro da Política Fundiária no governo FHC, afirma também que o setor precisa "olhar para frente", ter um planejamento para o futuro que possa nortear as ações de marketing. Ele diz que o setor precisa parar de reclamar do governo e tomar a iniciativa.MarketingPara o publicitário Luís Salles, o que precisa haver é um investimento do setor em iniciativas de marketing. "Basta seguir um modelo de que 0,5% do faturamento vai para iniciativas do gênero, e isso já traria benefícios", afirma. Para tanto, Salles diz que o setor precisa parar de enxergar no marketing uma despesa e passar a considerá-lo uminvestimento.O presidente da Associação Brasileira de Marketing Rural(ABMR), Nivaldo Carlucci, tem o mesmo ponto de vista. Carlucci afirma que, entre os setores que compõem a cadeia do agribusiness, apenas as empresas que vendem insumos e máquinas fazem investimentos de marketing sistematicamente.Ele diz que há grande potencial sendo desperdiçado,considerando a importância do agronegócio para a economiabrasileira. "O agronegócio representa 27% do PIB e éresponsável por 35% dos postos de trabalho", afirma. Nos EUA, onde o agronegócio responde por 16% do PIB e 17% dos postos de trabalho, as exportações são três vezes maiores que as brasileiras.

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