Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

País não pode perder o bonde da 4ª revolução industrial

Investir mais e melhor em CT&I é um fator vital para o futuro da indústria e da economia brasileira

Robson Andrade e Soumitra Dutta*, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2021 | 04h00

A pandemia de covid-19 gerou uma das mais severas crises já enfrentadas pela humanidade. O Produto Interno Bruto (PIB) chinês registrou o menor patamar em mais de quatro décadas, com crescimento de apenas 2,3% em 2020, e o alemão pode recuar até 5%. Para retomar trajetórias de crescimento, governos e agências internacionais debatem estratégias ambiciosas, que incluem maior investimento em ciência, tecnologia e inovação, e compromissos rigorosos com sustentabilidade ambiental. O Brasil também precisa tomar decisões urgentes e ousadas para evitar o agravamento de sua situação econômica, diante da drástica queda do PIB nacional em 2020, que, de acordo com projeções, deverá ser superior a 4%.

Ressalte-se que não foi só a pandemia que empurrou a economia brasileira ladeira abaixo. Estudo recente do Portulans Institute – think-tank com sede nos EUA –, elaborado em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), demonstra que há diversos problemas estruturais que põem a competitividade do País em xeque. O trabalho revela que uma das principais deficiências é o fato de o Brasil investir 50% menos em inovação que a média dos 47 países avaliados. Consequentemente, está em patamar inferior (44.ª colocação) na comparação internacional.

Denominado Preparando o Brasil para um futuro mais competitivo: um roteiro para a prontidão em inovação, tecnologia e talentos, o relatório reforça pontos já problematizados no âmbito da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI). É fundamental, por exemplo, expandir a internet para todo o País e aumentar os investimentos em tecnologias como 5G e inteligência artificial, com vistas à transformação digital das empresas e sua inserção na 4.ª revolução industrial. A aproximação do sistema financeiro – principalmente o que suporta os empreendedores – dos níveis de sofisticação observados em economias avançadas é apontada como outra providência crucial. Isso implica fazer uso mais ostensivo de mecanismos como compras governamentais de tecnologia e incentivo fiscal ao investimento privado em startups, como forma de promover atividades de maior conteúdo tecnológico.

Não menos importante é o investimento na formação e qualificação de recursos humanos, sobretudo para atuar em áreas intensivas em conhecimento. É urgente, ainda, melhorar a qualidade do ensino, desde a educação primária, a fim de preparar os jovens para carreiras científicas e tecnológicas e para a liderança de processos de inovação. O estudo do Portulans Institute, que traz 15 recomendações relacionadas às áreas de inovação, tecnologia, recursos humanos, instituições e infraestrutura, deixa claro que o relógio corre contra o Brasil. Se não forem tomadas medidas céleres e coordenadas, o País perderá a capacidade de inovar e reduzirá ainda mais seu potencial de competição global.

Diante deste cenário, o veto do governo ao projeto que determina a proibição de contingenciamentos dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), aprovado pelo Congresso Nacional, é um obstáculo a mais para que o País navegue na mesma direção que seus concorrentes. Estima-se que mais de 50% dos R$ 7 bilhões previstos no orçamento do Fundo para 2021 já estão contingenciados. Vale destacar que, enquanto o Brasil investe cerca de 1% do PIB em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), os países integrantes da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) investem, em média, 2% da soma total de suas riquezas nessa área.

Portanto, investir mais e melhor em ciência, tecnologia e inovação (CT&I) é um fator vital para o futuro da indústria e da economia brasileira. Governo, setor empresarial e comunidade científica precisam, mais do que nunca, estar juntos na construção e implementação dessa agenda. O estudo produzido pelo Portulans Institute e pela CNI dá pistas do caminho que o País precisa trilhar para não perder o bonde da Indústria 4.0.

*RESPECTIVAMENTE, EMPRESÁRIO E PRESIDENTE DA CNI; E PRESIDENTE DO PORTULANS INSTITUTE, COFUNDADOR DA SC JOHNSON COLLEGE OF BUSINESS (CORNELL UNIVERSITY)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.