País pode atingir US$ 100 bilhões em reservas até abril

As reservas internacionais brasileiras podem atingir US$ 100 bilhões ainda no primeiro trimestre, se o ritmo de compra de dólares pelo Banco Central (BC) em janeiro for mantido nos próximos meses. No primeiro mês do ano, as aquisições atingiram US$ 5,6 bilhões, e as reservas chegaram a US$ 91,9 bilhões na última sexta-feira. Apenas em três dias da semana passada, o BC comprou US$ 1,2 bilhão.O crescimento vigoroso das reservas, combinado com a queda do risco Brasil e a valorização do real (que fechou em R$ 2,094 por dólar na segunda-feira) cria dilemas difíceis para a política econômica e para a atuação do BC. É certo, como costuma dizer Armínio Fraga, ex-presidente do BC, que se trata de "um bom problema". Ele quer dizer que aqueles dilemas são conseqüência de um cenário extraordinariamente positivo para a economia brasileira.O problema principal do acúmulo de reservas é o custo fiscal, já que o governo capta dinheiro em reais (pagando a taxa de juros interna) para comprar dólares que são colocados em aplicações internacionais, que rendem muito menos. Sérgio Werlang, diretor-executivo do Banco Itaú e ex-diretor do BC, faz uma estimativa - muito imprecisa, ele alerta - de que a manutenção de um ritmo de intervenção como o de janeiro ao longo de todo o ano teria um custo fiscal de aproximadamente R$ 5 bilhões.Werlang, aliás, acha que a redução do ritmo de queda da Selic (taxa básica) na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) contribuiu para intensificar, nos últimos dias, a tendência de valorização do real e, conseqüentemente, o volume das intervenções do BC comprando dólares. Na última reunião do Copom, em 24 de janeiro, foi anunciado um corte de 0,25 ponto na Selic, para 13% ao ano, depois de uma série de 11 cortes consecutivos de 0,50 ou até de 0,75.Para o diretor do Itaú, a redução do ritmo de corte da Selic sinalizou para o mercado financeiro que a diminuição entre o diferencial de juros internos e externos vai ser fechada muito lentamente. Como o risco País tem caído muito (fechou em 180 pontos ontem, mínima histórica), o diferencial de taxas está impulsionando a entrada de dólares. "Considero que seria muito mais interessante você cortar o juro mais rapidamente do que ficar acumulando reservas", diz Werlang. Ele acha, porém, que uma vez estabelecido que o ritmo de redução dos juros será mais lento, só resta mesmo ao BC intensificar as compras.Objetivo únicoAlexandre Schwartsman, economista-chefe do Banco ABN Amro para a América Latina e ex-diretor do BC, tem uma visão diferente. Ele lembra que a regulagem da Selic pelo Copom só pode ser usada para perseguir um único objetivo, e que este é a inflação, e não a taxa de câmbio. "Se a taxa de juros for usada para controlar o câmbio, isso significa abrir mão do controle da inflação", diz Schwartsman.O economista avalia, de outro lado, que o tipo de intervenção que o BC faz no mercado de câmbio, no qual a compra de dólares não é apoiada por uma redução da taxa de juros, é inócua para mudar o nível de câmbio, especialmente no médio e longo prazos. Assim, para Schwartsman, a acumulação de reservas deve ser vista como uma estratégia para melhorar o perfil da dívida pública e não como uma forma de interferir no câmbio.

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